Poder e Governo

‘Aqui você tem um amigo. Saiba disso’, disse Castro a dono da Refit, hoje foragido da Justiça

Conversa aparece em relatório da PF que diz que ex-governador agia em prol de interesses da refinaria conhecida pela sonegação de impostos

Agência O Globo - 03/09/2026
‘Aqui você tem um amigo. Saiba disso’, disse Castro a dono da Refit, hoje foragido da Justiça
Cláudio Castro - Foto: Reprodução

Mensagens inseridas pela Polícia Federal no relatório que culminou na última das três operações recentes contra Cláudio Castro (PL), no mês passado, mostram que o ex-governador do Rio considerava o empresário Ricardo Magro, dono da Refit, um “amigo”. Segundo a PF, a relação entre o então chefe do Palácio Guanabara e o homem conhecido como o maior devedor de impostos do país não se limitava à seara profissional e produzia benefícios à refinaria.

Castro e Magro foram alvos de uma primeira operação sobre o caso em maio. O ex-governador passou por buscas e apreensões, enquanto o empresário, que teve pedido de prisão determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), não foi localizado e é considerado foragido.

Depois de um evento em Nova York do qual ambos participaram no ano passado, Magro escreveu a Castro para agradecer pela presença:

“Governador, quero do fundo do coração agradecer a sua presença. Sei o nível de desgaste, a quantidade de eventos e o próprio desgaste da agenda. Mesmo assim ter sua presença é uma grande honra pra mim. Meu muito obrigado."

Em resposta, o governador disse: “Eu que agradeço. Aqui vc tem um amigo. Saiba disso."

Evidências ainda mais significativas de que o governador favorecia os interesses da Refit no governo, aponta a PF, despontam de conversas entre ele e um advogado associado à refinaria, Marcos Joaquim Gonçalves Alves.

“Em diversas oportunidades, Marcos Joaquim tratou diretamente com Cláudio Castro de demandas administrativas da refinaria perante o Estado do Rio de Janeiro, recebendo orientações sobre protocolos, reuniões e tramitação de expedientes administrativos”, afirma a corporação.

Ainda em 2021, quando era interino na cadeira de governador, Castro respondeu positivamente a uma pergunta do advogado, que queria saber se era possível avançar na regularização da situação fiscal da Refit no estado.

“Eu toco por aqui”, disse.

As mensagens, alega a PF, também demonstram que Castro acompanhava o andamento de requerimentos formulados pela Refit junto a órgãos estaduais. Afirmou em um momento, por exemplo, que tinha cobrado providências relacionadas a um caso.

“Tal circunstância sugere tratamento diferenciado concedido a pleitos de uma empresa privada por meio de interlocução direta com a mais alta autoridade do Estado, afastando-se dos canais administrativos ordinários”, apontam os investigadores.

Foi nesse contexto que o governador teria criado um “ambiente institucional favorável” à atuação da refinaria. Um dos exemplos citados pela polícia é a concessão de uma licença ambiental que, , deu-se logo após Castro promover trocas na estrutura da Secretaria de Ambiente.

Em nota, a defesa de Castro negou todas as acusações relacionadas a "lavagem de dinheiro, recebimento de vantagem indevida ou favorecimento a terceiros" que são feitas no relatório.

"Os contatos com representantes da Refit foram institucionais e não resultaram em qualquer benefício. Durante sua gestão, o Estado adotou medidas para cobrar valores devidos pela empresa", alegou. "A defesa já requereu ao ministro Alexandre de Moraes que Cláudio Castro seja ouvido pela Polícia Federal para esclarecer todos os pontos da investigação e apresentar a documentação comprobatória. O pedido aguarda decisão."