Poder e Governo

Lula avalia defender apuração sobre relação de Moraes com Vorcaro

Possibilidade de manifestação pública é debatida pela equipe do candidato à reeleição.

Agência O Globo - 02/09/2026
Lula avalia defender apuração sobre relação de Moraes com Vorcaro
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Mandel Ngan/Pool Photo via AP.

Até agora em silêncio sobre as mensagens que mostram a relação do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá tratar publicamente do assunto, segundo aliados que acompanham as discussões na campanha petista. De acordo com esses interlocutores, a ideia é que Lula adote a mesma linha das manifestações feitas em relação às suspeitas envolvendo seu filho mais velho, o empresário Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, e defender tanto as investigações como o direito de o magistrado apresentar sua defesa.

A possibilidade de uma manifestação pública foi debatida pela equipe do candidato à reeleição e o entendimento foi que uma fala pública pode ser uma forma de evitar que a crise na Corte respingue na campanha. Auxiliares do petista ainda discutem o formato em que Lula abordará o assunto.

A ideia, segundo seus aliados, é falar do tema como forma de se distanciar da crise. O presidente tem adotado discurso de que o STF é um poder independente e não cabe a ele interferir nas questões internas da Corte.

Relatório da Polícia Federal mostrou que Vorcaro pediu orientações a Moraes no auge da crise da instituição financeira. Durante um período de 13 dias, mensagens extraídas do celular do banqueiro apontam que ele pediu a intervenção do magistrado para impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Nas conversas, Vorcaro faz apelos para “sensibilizar” autoridades e pergunta sobre como deveria proceder para “desarmar” e “reverter” a situação.

Auxiliares que estiveram com o presidente após as revelações afirmam que Lula ficou perplexo com a forma e conteúdo das mensagens. Segundo esses interlocutores, Lula avaliou, reservadamente, que essa é uma crise do Poder Judiciário que está tendo reflexos na sociedade. Também considerou que é ruim para a democracia ter um judiciário com sua credibilidade abalada.

Uma ala do STF mais próxima a Moraes, contudo, avalia que antes de debater uma eventual investigação sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro, a Corte terá de decidir sobre a validade do relatório da PF. O principal argumento desse grupo é que esse tipo de apuração, envolvendo um magistrado do tribunal, precisa ser autorizado pelo colegiado.

Em manifestação nesta terça-feira, a Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu a nulidade do relatório. Segundo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que também é citado nas mensagens, a ordem de Mendonça para que a PF apurasse os destinatários da comunicações de Vorcaro, sem um pedido prévio do Ministério Público ou da Polícia Federal, não é válida por "exceder os limites de competência do magistrado". Além disso, Gonet pontua que a lei prevê autorização do plenário do STF para que um integrante da Corte seja investigado.

Na terça-feira, logo após a revelação, o entorno presidencial fez uma avaliação inicial de que Lula evitaria, naquele primeiro momento, tratar do assunto publicamente. O presidente tem boa relação com Moraes, que é um dos principais alvos de críticas do bolsonarismo. O temor da campanha é que a crise envolvendo o ministro possa respingar no petista.

Assim, o objetivo de uma fala pública de Lula seria criar uma espécie de vacina ao discurso da oposição de que há ligação entre Lula e Moraes, em um momento em que o magistrado está com sua conduta sob suspeita. Na visão de aliados, qualquer gesto de Lula em direção ao magistrado neste momento o faria perder votos.

O movimento também é feito em meio a um cenário de disputa acirrada com Flavio Bolsonaro (PL), que na terça-feira defendeu a saída de Moraes do STF.

Ex-ministros de Lula que são candidatos nessa eleição têm adotado a linha de defender investigações, como Gleisi Hoffmann, Simone Tebet, Paulo Pimenta e Fernando Haddad:

— Eu sempre defendi, e vou continuar defendendo, que tudo seja passado a limpo, porque é muito grave o que aconteceu com o Brasil. Não é uma questão menor. Envolva quem envolver — disse Haddad em agenda no interior de São Paulo.

Lula tem uma relação amistosa com Moraes. Porém, houve afastamento entre ambos após a derrota de Jorge Messias no Senado a uma vaga no STF no final de abril. Na época, o presidente recebeu informações de aliados de que o ministro havia trabalhado contra a indicação de Messias à Corte. Recentemente, no entanto, retomaram contato. O ministro do STF foi um dos responsáveis por sua reaproximação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em um jantar na noite de 4 de agosto na casa de Moraes.