Poder e Governo
Fachin anuncia 'medidas cabíveis' após mensagens de Vorcaro a Moraes
Presidente do STF promete ações sem precipitação sobre investigação.
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou nesta quarta-feira que vai anunciar "medidas cabíveis e necessárias" após a revelação de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Fachin disse em discurso que adotará as ações "no tempo devido e sem precipitação".
Um relatório da Polícia Federal (PF) aponta a suspeita de que Vorcaro apelou a Moraes, no auge da crise da instituição financeira, para se livrar do cerco de autoridades.
Durante um período de 13 dias, mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram que ele pediu a intervenção do magistrado para impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Nas conversas, Vorcaro faz apelos para "sensibilizar" autoridades e questiona como deveria proceder para "desarmar" e "reverter" a situação.
Os diálogos constam de um relatório produzido a partir da análise do aparelho de Vorcaro. Conforme as apurações, o banqueiro escrevia o texto em um bloco de notas, fazia uma captura de tela e enviava a Moraes um print de visualização única.
Horas antes da prisão
No dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro envia uma mensagem a Moraes perguntando se havia "alguma novidade". "Conseguiu ter notícia ou bloquear?".
Embora não seja possível saber a que especificamente Vorcaro se referia, ele foi preso algumas horas depois do diálogo no Aeroporto Internacional de Guarulhos durante a Operação Compliance Zero. Os agentes o interceptaram quando se preparava para embarcar em um jato particular para Dubai. A PF o prendeu na ocasião por suspeita de tentativa de fuga.
Menção a Andrei
Um dia antes, em 16 de novembro, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi intensa. O banqueiro fez um pedido ao ministro para que ele tentasse "sensibilizar" o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
"Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível", diz ele, no print, possivelmente referindo-se à operação da PF que seria deflagrada no dia seguinte. "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?", completa.
Na ocasião, Vorcaro demonstra receio de ser alvo da PF e aparenta ter informações privilegiadas sobre o andamento das apurações. O banqueiro tentava ganhar tempo para vender os ativos do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira com fundos de investimentos dos Emirados Árabes, mas o negócio não prosperou em razão da Operação Compliance Zero.
Ainda no dia 16 de novembro, Vorcaro pede a "leitura" de Moraes sobre a situação que o Master estava enfrentando.
"Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar", diz o texto.
Pedido de reunião com Galipolo
Antes de pedir a intervenção do ministro sobre Andrei, Vorcaro solicitou ajuda para marcar um encontro com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Além das investigações da PF, o banqueiro temia que o Master fosse liquidado extrajudicialmente pelo BC, o que aconteceu dois dias depois. A medida tirou o banco das mãos de Vorcaro e causou um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) - entidade que protege investidores no Brasil em caso de falência ou liquidação de instituições financeiras.
"E o Galipolo, quem está pressionando isso pra fazer intervenção?", diz o print, que acrescenta: "Tentar que o Galipolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém. Nem pra ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil".
No mesmo dia, o banqueiro se diz "perplexo e indignado" com as informações que vinha recebendo e ressalta a necessidade de "dar um jeito de desarmar isso".
"Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso. Meu Deus", diz o texto.
Citação a Gonet
No dia 15 de novembro, Vorcaro pergunta se não é possível reverter a situação com Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele também questiona sobre a posição do juiz da primeira instância do Distrito Federal, Ricardo Soares Leite, que acabaria assinando o mandado de prisão contra ele.
"Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?", diz ele, e completa:
"Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?"
Juiz de primeira instância
Nessa altura, o juiz Leite já havia recebido a representação do Ministério Público Federal (MPF) com o pedido de prisão do banqueiro desde meados de outubro e estava prestes a assinar a ordem de prisão. Ele era o magistrado substituto da 10ª Vara do Distrito Federal e foi o responsável por autorizar a primeira fase da Compliance Zero.
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No dia 14 de novembro, Vorcaro tenta ressaltar a suposta proximidade que teria com Moraes e destaca a sua gratidão ao ministro:
"Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros e amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser".
Em 7 de novembro, Vorcaro pergunta a Moraes sobre estratégias de como deveria proceder em relação a uma ação na Justiça. "O Pier acha que se entrar do nada pode acelerar algo, se justifica. Ele fez pedido macro e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha? Tem ideia se está controlado?" "Pier" se refere ao advogado criminalista Pierpaolo Bottini, que atuava na defesa de Vorcaro no ano passado.
No dia 5, ele envia uma série de perguntas ao ministro, afirmando que não faria nenhum movimento sem o aval dele:
"Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo. Estamos no escuro, o Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou alerta vermelho, né?" Depois, o banqueiro retoma os questionamentos: "Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?" E complementa: "Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?"
No dia 4 de novembro, Vorcaro indaga Moraes sobre possíveis ações judiciais a serem tomadas contra ele. "Médio a grave seria busca ou quebra de sig? Só vai saber quando ele chamar, né?", afirma, referindo-se provavelmente a mandados de busca e quebra de sigilo que poderiam ser deferidos contra ele.
No mesmo dia, Vorcaro reclama que, se vier alguma "medida contra agora", "vai tudo por água abaixo". "Essa é a minha maior preocupação". Relatórios anteriores da Compliance Zero apontam que Vorcaro tinha acesso indevido a sistemas internos da Polícia Federal, do MPF e até mesmo do FBI.
Durante esse período, o ministro do STF chega a responder a algumas mensagens de Vorcaro, mas não é possível saber o conteúdo, pois ele também utiliza o recurso de visualização única, e o celular de Moraes não foi alvo de quebra de sigilo.
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