Poder e Governo
Repasse de Vorcaro para filme sobre Bolsonaro em setembro de 2025 contradiz versão dada por Flávio, aponta revista
Conforme divulgado, Vorcaro prometeu a Flávio Bolsonaro US$ 24 milhões para financiar a cinebiografia do ex-presidente.
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, fez um repasse de US$ 1,6 milhão ao fundo americano que administrava o dinheiro do filme “Dark horse” em setembro do ano passado, segundo revela a revista Piauí. A informação consta em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e contradiz a alegação do senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), de que o último pagamento do banqueiro havia sido em maio daquele ano.
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O repasse de setembro foi feito oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar parcelas prometidas por Vorcaro, mas que estavam atrasadas. Os novos valores elevam a soma enviada pelo banqueiro a US$ 12,3 milhões, equivalente a R$ 65 milhões. Até o momento, Vorcaro havia prometido a Flávio o total de US$ 24 milhões para financiar a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai do senador.
Ainda segundo a revista, o montante pode ser ainda maior. A publicação teve acesso a trechos inéditos da troca de mensagens entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que atuava na captação de recursos para “Dark horse”. Em uma delas, datada de 22 de outubro de 2025, o publicitário pergunta: “Consegue liberar as parcelas do filme?” Vorcaro responde: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Horas antes, Flávio havia procurado Vorcaro e cobrado um repasse atrasado. “Deixa comigo irmão, vou ver agora”, respondeu o empresário ao pedido do senador fluminense.
‘Estou e estarei contigo’
Em maio, após o site Interscept Brasil revelar as conversas entre Flávio e Vorcaro, o senador afirmou que não sabia de irregularidades envolvendo Vorcaro e o Master, apesar de suspeitas sobre o banco serem públicas desde o início de 2025.
— Não era sabido, ele era acusado e eu torcia para que ele esclarecesse qualquer coisa errada que tivesse. O último pagamento que ele fez foi em maio de 2025. A partir da primeira informação pública em relação ao Daniel Vorcaro, esse fundo foi fechado, isolado. Todas as providências legais foram feitas e eu queria saber se ele ia honrar as parcelas ou não, pois eu ia buscar outros investidores, porque eu precisava terminar o filme — disse Flávio, em entrevista à GloboNews naquele mês.
Um dos contatos entre o candidato e o banqueiro ocorreu um dia antes de Vorcaro ser preso, em 18 de novembro de 2025, durante a Operação Compliance Zero, que investiga indícios de fraudes em transações entre o Master e o Banco de Brasília (BRB). “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, disse Flávio na mensagem enviada ao banqueiro. Na época, também foi revelado que o candidato do PL se encontrou com Vorcaro no final do ano passado, enquanto o banqueiro cumpria medidas cautelares e usava tornozeleira eletrônica após sua primeira prisão. O encontro ocorreu após 29 de novembro, quando Vorcaro deixou o Centro de Detenção Provisória (CDP) 2 de Guarulhos (SP), determinado a cumprir medidas cautelares.
— Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria buscado outro investidor há muito mais tempo, e o filme não correria risco — afirmou Flávio ao ser questionado por jornalistas sobre o encontro.
Com o novo repasse de setembro, chegam a sete as parcelas pagas por Vorcaro e enviadas pela empresa Entre Investimentos ao fundo Havengate Development Fund LP, no Texas. A primeira delas, de US$ 2 milhões, foi encaminhada em fevereiro de 2025, seguida por dois pagamentos em março e mais dois em abril. Até ontem, o último pagamento conhecido datava do final de maio de 2025. A Polícia Federal investiga se os valores foram utilizados para custear a estadia do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. O Havengate tem como “agente legal” um escritório ligado ao irmão do senador.
Filme depois das eleições
Flávio Bolsonaro foi questionado pela imprensa ao chegar ao Senado, após a publicação da reportagem da Piauí. Na ocasião, ele declarou que o assunto deveria ser tratado com a produtora do filme, a Go Up Entertainment.
— Essas informações eu não tenho como saber, porque eu não trato disso, gente. Tem que perguntar para a produtora, desculpa. Esse assunto eu não tenho como aprofundar. Tem que perguntar para a produtora — afirmou Flávio.
A Go Up chegou a contratar uma perícia particular para validar os gastos da produção. Porém, o perito responsável confirmou não ter tido acesso aos dados do fundo texano, não tendo, portanto, verificado as origens do dinheiro que irrigou a filmagem de “Dark horse”. A distribuidora Europa Filmes anunciou na semana passada que “Dark horse” só deve estrear nos cinemas após as eleições.
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