Poder e Governo

Augusto Cury em sabatina: reforma do STF e taxação pesada de big techs

Candidato do Avante critica mais Lula do que Flávio Bolsonaro e se posiciona com mente capitalista e coração social.

Agência O Globo - 29/08/2026
Augusto Cury em sabatina: reforma do STF e taxação pesada de big techs
Augusto Cury - Foto: © Sputnik / Guilherme Correia

Um dos candidatos à Presidência que nunca ocupou cargo eletivo, o psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante) evitou, ontem, classificar-se como de direita ou esquerda. Preferiu afirmar que possui ‘mente capitalista’ e ‘coração social’, mas acabou defendendo ideias mais alinhadas à direita durante a sabatina com presidenciáveis promovida pelos jornais O Globo, Valor e a rádio CBN.

O candidato avaliou, por exemplo, que algumas penas impostas aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 foram excessivas, mas não quis se comprometer com uma anistia. Afirmou que, se for eleito presidente, criará uma comissão com juristas para avaliar se houve injustiça e se seria pertinente conceder a anistia, como prometem outros candidatos. Ele se mostrou mais crítico ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que ao bolsonarismo.

Perguntado sobre quem preferiria como rival num hipotético segundo turno, caso conseguisse saltar do bloco de candidatos com um dígito nas pesquisas diretamente ao segundo lugar, admitiu que escolheria o petista em vez do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, a quem fez uma rápida cobrança de explicações sobre sua relação com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

O médico, conhecido por seus livros e palestras sobre desenvolvimento comportamental, localizou sua principal crítica a Lula no fato de a qualidade da educação não ter avançado significativamente sob o governo petista. Questionou ainda a insistência do petista em se manter no poder.

Durante a conversa de uma hora e meia com o âncora da CBN, Mílton Jung, e os colunistas do GLOBO Malu Gaspar e Lauro Jardim, bem como a colunista do Valor Maria Cristina Fernandes, Cury demonstrou orgulho da condição de ‘psiquiatra mais lido do mundo’, citando milhões de livros vendidos e títulos traduzidos em 70 países, embora tenha rejeitado o rótulo de autoajuda.

Ele afirmou ter decidido entrar na política porque acredita que sua experiência profissional o credencia para um novo tipo de negociação política, afastada da atual polarização. Repetiu a ideia de um ‘pacto político’ que, se eleito, proporia inclusive aos partidos do Centrão. Admitiu o fisiologismo como um obstáculo, mas elogiou o bloco de partidos de direita, considerando-o responsável por dar equilíbrio à política brasileira, evitando que o país se tornasse ‘uma Venezuela’.

No estúdio da Redação do Globo, Cury se disse contra a reeleição e declarou o esgotamento do presidencialismo. Defendeu a adoção de um modelo parlamentarista ou semipresidencialista. Em um cenário em que vários candidatos criticam o Supremo Tribunal Federal (STF), destacou-se como o único a propor uma reforma séria da Corte, que inclui o fim do cargo vitalício e a instituição de mandatos de oito anos.

Popular nas redes sociais, o candidato do Avante também expressou preocupação com os efeitos negativos das plataformas digitais e, num eventual governo, afirmou que taxaria as big techs de forma pesada, como se faz com o cigarro. Ao analisar os malefícios das redes para as crianças, recomendou que os pais promovam um ‘jejum’ digital aos fins de semana para evitar o vício.

Assim como outros candidatos, Cury foi mais genérico ao analisar a economia. Reconheceu a necessidade de ajustar as contas públicas, mas deu poucos detalhes de onde viriam os cortes. Citou como primeiro passo a realização de uma auditoria em programas sociais. Admitiu privatizações, mas sem radicalismo. Na segurança, delineou uma pauta de integração das forças de segurança nos três níveis da federação, incluindo incentivos às guardas municipais.

A série de sabatinas com os presidenciáveis começou na terça-feira passada com Romeu Zema (Novo), seguiu nos dias seguintes com Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), e foi encerrada ontem por Cury. Todas as entrevistas foram transmitidas ao vivo pela CBN e pelas redes sociais de O Globo e Valor. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não aceitaram o convite.

Reforma do STF

Perguntado sobre a possibilidade de impeachment de ministros do STF, Cury afirmou que a medida deve ser aplicada se um integrante da Corte ‘comete erros’, mas logo frisou que é o único candidato com um projeto sério de reforma do colegiado.

Ele propõe a redução do número de magistrados dos atuais 11 para 9 na cúpula do STF, com mandatos de oito anos. Afirmou que indicaria mulheres para as próximas vagas abertas e que nomes com menos de cinco anos sem filiação partidária estariam vetados. O candidato do Avante também defendeu reservar cotas específicas no STF para magistrados e advogados de carreira indicados em listas tríplices por entidades corporativas do mundo jurídico, como a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao ser questionado se isso não seria entregar a Corte aos interesses corporativistas, Cury respondeu que essas associações são mais competentes que o presidente para escolher ministros do STF, conforme preconiza a atual Constituição.

— Quem deveria escolhê-los não é o presidente, mas as próprias classes, que devem ser honradas — afirmou. — O presidente interfere demais no STF, e o STF está legislando em vez de ser o guardião da sociedade.

Em autocrítica, alegou que a defesa de eleição direta para ministro do STF que fez no passado não passa mais de uma ‘causa indignada’.

Anistia

Augusto Cury hesitou em dar uma opinião pessoal sobre a existência de crime na trama golpista que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e à depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

— Não me coloque no centro dessa guerra política — pediu, para se esquivar da ‘polarização esquizofrênica’.

Com a insistência dos entrevistadores, Cury esclareceu que só decidiria por uma anistia após ouvir uma comissão de juristas, considerando que os julgamentos não foram suficientes.

— Vou convidar um grupo de juristas notáveis do Brasil e de fora para verificar se houve vício nos processos, se houve ou não tentativa de golpe, e se as penas foram desproporcionais. Na minha opinião, houve várias condenações desproporcionais, inclusive a da ‘Débora do Batom’.

Ele se referiu ao caso de Débora Rodrigues dos Santos, presa por escrever com um batom a mensagem ‘Perdeu, mané’ na estátua em frente à sede do STF. Ela foi condenada a 14 anos de prisão, que cumpre em caráter domiciliar, não só pelo ato de vandalismo, mas por crimes contra a democracia no contexto dos atos de 8 de janeiro.

Visões políticas

Questionado sobre a sua orientação política, Cury se esquivou de assumir uma posição. Disse ter ‘mente capitalista’ e ‘coração social’. Criticou a polarização no país, que considera ‘doente’. Mas, instado a apontar quem preferiria encarar em um segundo turno, escolheu Lula em vez de Flávio Bolsonaro:

— Queria trazer uma série de números para ele, para que ele pudesse me explicar. Por que 95% dos nossos jovens não aprenderam matemática corretamente no ensino médio? Agora ele quer consertar a educação, mas, junto com a Dilma (Rousseff), teve quase 20 anos.

Apesar de admitir ser difícil um salto nas intenções de voto em pouco tempo, não se determinou a quem apoiaria em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio. Retornou a Lula ao questionar a necessidade de um quarto mandato para o presidente. Usou uma frase de um de seus livros para iniciar o raciocínio:

— A vida é bela e breve como gotas de orvalho, que num instante aparecem e logo se dissipam — disse. — Será que ele não percebe que, em breve, irá para a solidão de um túmulo? O legado que tem que deixar não é estar acima dos outros.

Embora insistisse na redução da polarização, anunciou que está escrevendo uma carta conciliadora, pedindo o fim à disputa política, que será enviada a Lula e Flávio ainda no primeiro turno.

— A beleza da democracia está na divergência, não na construção de inimigos — afirmou.

Por fim, negou que esteja ‘em cima do muro’:

— A vida inteira fiz política, treinei líderes políticos, empresariais, da polícia, da magistratura. A política é a arte de construir pontes. Não estou em cima do muro. Eu saí candidato para destruir esse muro.

Questionado sobre Flávio, afirmou que o senador precisa explicar os áudios que sugerem pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar o filme ‘Dark Horse’, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O escritor se declarou contra o ‘câncer da reeleição’ e favorável à implementação de um modelo parlamentarista ou semipresidencialista no país. Avaliou que, na prática, isso já existe, considerando o fortalecimento e a autonomia do Legislativo por meio das emendas ao Orçamento. Definir o parlamentarismo oficializaria a mudança e imporia a um primeiro-ministro o ônus de enfrentar moções que possam custar seu cargo.

— Tem que haver um primeiro-ministro chancelado pelo Congresso, que hoje já possui grande peso. Vivemos um parlamentarismo de fato, mas não de direito — afirmou. — Se existe o bônus, precisamos dar o ônus. Se o primeiro-ministro for impopular e corrupto, ele deve enfrentar moção de desconfiança e ser deposto.

Uma vez como presidente, Cury afirmou que cortaria ministérios e fortaleceria secretarias executivas no segundo escalão. Reiterou a ideia de propor um ‘pacto nacional’ e convocar ‘os melhores’ para integrar o governo. Além de técnicos, mencionou políticos como o também presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), que poderia atuar como ‘xerife’ na área de segurança, e o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD). Em relação ao ex-candidato à Prefeitura de São Paulo Pablo Marçal, que declarou gostar do escritor, Cury afirmou que, apesar da amizade, nunca pensou em convidá-lo para compor seu eventual governo.

Segurança

Segundo Cury, o Brasil necessita de um ‘pacto nacional’ na área da segurança. Prometeu integrar as forças policiais do país por meio de um programa denominado ‘Fato’ (Força de Alerta Total). A medida mais ousada envolve a criação de uma força chamada ‘Foco’, que seria de caráter municipal.

O ‘Foco’ funcionaria como uma Guarda Municipal, mas sob coordenação nacional e utilizando servidores dos municípios brasileiros. Ele estima um total de 400 mil profissionais, com base em 5% da força de trabalho das cidades, mas forneceu poucos detalhes sobre a captação e o treinamento desses novos policiais.

— Pior do que o crime organizado é o Estado desorganizado. Precisamos fortalecer, treinar e valorizar a Polícia Federal — afirmou o presidenciável. — Temos que integrar todas as polícias. É necessário instalarmos reconhecimento facial, coleta de material genético e um sistema de informações para que todas as polícias sejam, de fato, integradas e possam dar respostas mais rápidas.

Nesta linha, manifestou-se a favor da PEC da Segurança, proposta de emenda constitucional que está para ser votada no Senado, que aumentaria o poder da União nesta área. Também é contrário à ideia de armar a população, mas favorável ao uso de câmeras nas fardas policiais, em um de seus poucos momentos de inclinação à esquerda.

— Se você tem um país responsável, integrado e inteligente, não verá a necessidade de armar a população. Claro que em situações de maior vulnerabilidade, como na área agrícola, isso pode ser diferente — apontou. — Sou a favor das câmeras. Se 2% (dos policiais) cometem crimes, devem ir à Justiça. Mas 98% são honestos e arriscam suas vidas. A câmera também protege esses profissionais.

Redes sociais e big techs

O psiquiatra classificou o uso excessivo das redes sociais como perigoso, atribuindo a elas alterações no comportamento, “no ciclo da dopamina”. Segundo ele, as plataformas digitais podem provocar dependência entre crianças e adolescentes, além de aumentar quadros de ansiedade e irritabilidade. Apesar das críticas, afirmou que não defende a derrubada das plataformas, mas uma forte tributação, como ocorre com os cigarros.

— A taxação deve ser alta, assim como a do cigarro. Se gera dependência, a tributação deve ser elevada — declarou. — Faço um apelo aos pais: o ideal nos fins de semana é promover um jejum digital. Milhões de jovens são órfãos de pais e acabam isolados em seus celulares, isso é um problema de saúde pública. Se soubesse a dor que sinto ao ver um adolescente se automutilando... A comparação entre os jovens nas redes sociais é cruel.

Sobre o caso recente de uma jovem que se suicidou após ser exposta a conteúdo impróprio em um grupo do Discord, afirmou:

— Não sou a favor de banir o Discord. Mas se um adolescente tentar se suicidar ou automutilar, a plataforma terá que ser responsabilizada financeiramente.

Com olhar direto para a câmera, Cury enviou uma mensagem ao dono da Meta, gigante americana proprietária de redes como Facebook e Instagram:

Mark Zuckerberg, levarei você a um tribunal internacional, junto com todos os líderes, porque afetaram a saúde mental das crianças e adolescentes em todo o mundo — afirmou.

Cury ressaltou que não pretende taxar ou restringir a atuação de criadores de conteúdo e, inclusive, defendeu que representantes do poder público, como integrantes do Itamaraty, utilizem as redes sociais para ‘vender o Brasil’ no exterior.

Economia

O candidato do Avante reiterou várias vezes que é defensor da meritocracia e apoia crédito para pequenos empreendedores.

Assim como a maioria dos candidatos, Cury enfatizou a necessidade de um ajuste fiscal, mas de forma genérica. Afirmou que uma auditoria pode revelar lugares onde poderiam ocorrer cortes, repetiu que pretende aumentar a tributação sobre as big techs e refutou a ideia de incrementar impostos:

— Não, pelo amor de Deus. Já arrecadamos demais.

Gastar menos do que arrecada, sublinhou, é fundamental para criar um ambiente favorável à redução da Selic, a taxa básica de juros. Citou medidas ‘simbólicas’ que têm impacto pequeno no Orçamento, como a economia com cartões corporativos e energia nos palácios, e destacou a importância de mudar a lógica das emendas parlamentares:

— Elas não podem ser aleatórias, devem ter indicadores de eficiência. Se realizadas, otimizarão processos.

Ao se comparar com alguns adversários, considerou a postura de ‘privatizar tudo’ de Romeu Zema (Novo) muito radical. Quer privatizar algumas “estatais ineficientes”, mas com mais cautela.