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Caso ‘Dark Horse’ envolve lançamento pós-eleição, perícia e apuração no STF; veja os detalhes do filme sobre Bolsonaro

Cinebiografia do ex-presidente virou tema da campanha e tem sido usada por aliados de Lula para desgastar Flávio

Agência O Globo - 27/08/2026
Caso ‘Dark Horse’ envolve lançamento pós-eleição, perícia e apuração no STF; veja os detalhes do filme sobre Bolsonaro
Jair Bolsonaro - Foto: ANSA

O filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, será lançado apenas após as eleições, mas o tema já movimenta a campanha. A suspeita de financiamento do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, tem sido utilizada por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para desgastar o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que tenta se desvencilhar do tema e atribui à produtora a responsabilidade de detalhar os gastos da produção.

A possível conexão com o caso Master levou o assunto ao Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga a questão em mais de uma frente. Confira todos os detalhes sobre o filme e as polêmicas que o cercam.

O lançamento

A distribuidora responsável por ‘Dark Horse decidiu que o filme será lançado somente depois das eleições. O diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa, afirmou que uma experiência anterior com o lançamento, em ano eleitoral, de uma produção sobre o presidente Lula influenciou essa decisão.

A cinebiografia de Bolsonaro tornou-se o centro de uma polêmica após mensagens mostrarem Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar a produção. A conversa indica que ao menos R$ 61 milhões foram pagos. Flávio chegou a prometer uma prestação de contas completa, mas não a apresentou.

A ideia de lançar Dark Horse apenas depois das eleições é minha. Já tive uma experiência negativa quando lançamos o filme “Lula, o Filho do Brasil” em ano eleitoral (o filme foi exibido em 2010). Não é estratégico lançar antes. Quero fazer meu trabalho e, se possível, bem feito — afirmou Feitosa ao GLOBO.

A estreia chegou a ser programada para setembro, às vésperas do primeiro turno, mas os planos mudaram. Feitosa afirmou que Flávio não participa dos debates sobre a estratégia comercial do filme. O executivo declarou que a interlocução da distribuidora ocorre exclusivamente com a Go Up Entertainment, produtora responsável pela obra.

— Eu nunca tive contato nem com Flávio nem com aliados dele. Minha participação é exclusiva na distribuição do filme e só trato diretamente com a produtora — disse Feitosa.

A perícia nos gastos

Diante da controvérsia em torno do filme, a produtora contratou uma perícia particular para validar os gastos realizados. No entanto, a perícia não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem. Essa análise é considerada fundamental pela Polícia Federal (PF) para esclarecer se houve desvio no projeto artístico negociado entre Flávio e Vorcaro.

O perito particular Anisio Castelo Branco, responsável pela avaliação técnica da empresa, reconheceu ao GLOBO não ter autorização para auditar o fundo que financiou a produção, limitando-se apenas aos recursos desembolsados pela GoUp, a produtora.

Na semana passada, em São Paulo, Flávio afirmou que não tinha mais obrigação de discutir o financiamento do filme, pois a prestação de contas do longa, encomendada pela produtora, foi divulgada pela imprensa.

Ele se referia a laudo elaborado pela mesma perícia, apresentado em um processo que investiga a suspeita de mau uso de emendas parlamentares no filme. Contudo, não há informações nesse documento sobre o fluxo do dinheiro no exterior, que é um dos objetivos da PF.

— Eu não sei quanto foi enviado do Brasil aos Estados Unidos, nem sei se foi enviado, porque não estou investigando o fundo. Não falo por ele, não pertenço ao Havengate. Essas informações fogem do nosso escopo; não temos nenhuma ligação com o fundo. Do ponto de vista de como o fundo é alimentado, não sei quanto ele tem de capital, se tinha apenas dinheiro do filme ou R$ 100 milhões, ou até R$ 1 bilhão; isso é uma informação sigilosa do fundo — disse o perito, presidente do Instituto de Perícia Investigativa (IPI), contratado pela produtora para prestar contas do filme.

As investigações

As investigações sobre o financiamento de Dark Horse têm duas frentes que apuram caminhos distintos do dinheiro repassado à produtora e estão sob relatoria de diferentes ministros do STF: André Mendonça e Flávio Dino.

A primeira apuração é um desdobramento do inquérito sobre as fraudes do Banco Master e começou após a revelação de conversas em que Flávio cobra repasses de Vorcaro.

Foi, então, iniciada uma investigação para verificar se o dinheiro do Banco Master, envolvido em fraudes milionárias, teria sido direcionado à produtora do filme através de um fundo sediado nos Estados Unidos. O inquérito também examina a natureza da relação entre o banqueiro e Flávio, além de suspeitar que as verbas tenham financiado gastos no exterior do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que reside nos Estados Unidos.

Por envolver suspeitas relacionadas ao Master, essa investigação está sob a relatoria do ministro André Mendonça.

A outra investigação sobre o filme Dark Horse é conduzida pelo ministro Flávio Dino, por tratar-se de um desdobramento da ação que envolve a transparência e a rastreabilidade das emendas parlamentares.

O inquérito foi aberto após parlamentares relatarem ao ministro que deputados aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro destinaram, ao todo, R$ 2,6 milhões em emendas Pix em 2024 a uma ONG presidida pela sócia da produtora que realizou o filme. Estão sendo investigados os repasses indicados pelos deputados Mário Frias (PL-SP), Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MT). Os parlamentares sustentam que as emendas foram direcionadas para projetos culturais e que não há relação entre os repasses e a produção do filme.

Dessa forma, a investigação apura o possível desvio de recursos públicos para empresas ligadas à produção do filme. No final da semana passada, o ministro autorizou o acesso da PF a dados apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação que mirou a sócia da produtora.