Poder e Governo
Vice de Marçal se torna réu por violência política e 'tomou' partido após fraude de Dom Pedro; entenda
Na esfera criminal, Leonardo Avalanche foi acusado de ameaçar colega de partido: 'Você vai morrer'; político afirma que acusações são infundadas
O presidente nacional do PRTB e vice na chapa de Pablo Marçal na corrida à Presidência, Leonardo Alves de Araújo, conhecido como Leonardo Avalanche, virou réu em um processo na Justiça Eleitoral de São Paulo sob a acusação de violência política e associação criminosa. Denunciado pelo Ministério Público em janeiro deste ano, ele teve a acusação mantida três meses depois. O processo corre em segredo de Justiça.
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Segundo o promotor Renato Kim Barbosa, Avalanche orquestrou uma fraude na eleição da legenda, em janeiro de 2024, para que ele pudesse sagrar-se vencedor. Para isso, o acusado teria recrutado pessoas que se passaram por fundadoras do partido utilizando documentos de identidade falsificados.
O Metrópoles publicou nesta quinta-feira que a Polícia Federal descobriu de onde partiu a fraude, a partir da quebra do sigilo telemático de Pedro Tiago Bourbon Orleans de Bragança. Trineto da Princesa Isabel e autodeclarado príncipe imperial do Brasil, ele se apresenta como "Príncipe Dom Pedro". O uso da senha pessoal dele no Sistema Filiação Partidária (FILIA), que era terceiro vice-presidente da sigla, viabilizou a ascensão de Avalanche ao comando da legenda.
Ainda segundo a PF, citou o portal, 42 fundadores do PRTB foram filiados retroativamente à revelia em julho de 2023. Esses supostos fundadores participaram da eleição para o comando do partido em fevereiro do ano seguinte, vencida por Avalanche.
Direita, esquerda, centro:
Ao Metrópoles, o "príncipe" disse desconhecer a acusação; à PF, que nunca teve acesso à senha, utilizada, segundo ele, por advogados e cedida para "um pessoal de Brasília" assumir o partido.
Violência política
Conforme o GLOBO reportou no mês passado, na avaliação do promotor Renato Kim Barbosa, depois da vitória fraudulenta, Avalanche passou a perseguir o grupo político de uma partidária chamada Rachel de Carvalho.
"Avalanche é acusado de assediar, ameaçar, constranger e humilhar a vítima, utilizando-se de menosprezo à sua condição de mulher para dificultar o desempenho de seu mandato. Em reuniões presenciais, o denunciado teria proferido ofensas misóginas, afirmando que 'mulher só serve para cumprir cota', além de coagir a vítima a participar de esquemas de extorsão contra prefeitos e outros políticos. A denúncia relata ainda graves ameaças de morte. Em um dos episódios, Avalanche teria dito a Rachel que, ao receber um código específico, ela deveria se despedir de seus familiares, pois seria morta. Em outra ocasião, a vítima foi compelida a assinar uma renúncia digital sob intensa pressão psicológica e ameaças de que passaria a 'frequentar mais o cemitério caso não o fizesse'", disse o promotor no processo.
O caso das ameaças também é investigado na esfera penal. Em depoimento, Carvalho deu detalhes de como foram as intimidações. Durante um evento em um restaurante na Mooca, Zona Leste, em março de 2024, Avalanche teria dito que ela não fosse um obstáculo em sua vida.
"Rachel, você ainda não me conhece, não seja um obstáculo no meu caminho, eu sou um cara calmo, não saio do controle, você pode esbravejar, pode me xingar, jamais vou discutir com você, mas quando você receber uma ligação dizendo 'pega a tua vara e vá pescar', você já pode despedir de seus familiares porque você vai morrer", teria dito Avalanche, segundo depoimento da vítima. Em julho, quando O GLOBO reportou o caso, o processo seguia em tramitação na Justiça Estadual.
Procurado em julho, Avalanche disse que a denúncia do MP seria rebatida na Justiça. "Contesto integralmente todas as acusações formuladas pelo Ministério Público. A denúncia apresenta uma narrativa que será amplamente enfrentada pela defesa no curso do processo, com a produção das provas cabíveis e o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa. É importante destacar que o recebimento de uma denúncia não representa condenação, nem significa que as alegações nela contidas tenham sido reconhecidas como verdadeiras pelo Poder Judiciário", afirma o político.
Sobre o caso da partidária que o acusa de ameaça, Avalanche também rebateu as acusações.
"Os fatos mencionados decorrem de uma disputa interna no Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), envolvendo divergências administrativas e políticas que deram origem a diversos procedimentos judiciais. A defesa demonstrará, no momento oportuno, que as acusações não encontram respaldo na realidade dos fatos e que não houve a prática dos crimes imputados", finaliza o pré-candidato à Presidência.
Nesta quinta, o GLOBO fez novo contato com o dirigente e aguarda retorno.
Além dos dois processos de São Paulo, o presidente do PRTB também responde a uma ação penal na Justiça Eleitoral do Distrito Federal. O motivo é o mesmo do caso paulista: fraude eleitoral interna. Segundo essa investigação, também sob sigilo, Avalanche, além de recrutar falsos fundadores da legenda no DF, o acusado indicava possuir influência indevida perante ministros de tribunais superiores, incluindo o TSE.
Durante uma ação de busca e apreensão, os investigadores localizaram "diálogos que indicam o controle fraudulento de acessos, senhas e credenciais do sistema Filia para expurgar a oposição política", diz trecho da denúncia. Em 28 de maio, esse caso do DF foi compartilhado com a ação eleitoral de São Paulo, como forma de utilização mútua das provas.
Coordenador da campanha de Pablo Marçal em 2024
Embora com pouca expressão política e membro de um partido que não possui parlamentar em Brasília, Leonardo Avalanche ficou conhecido em 2024 ao coordenar a campanha de Pablo Marçal à prefeitura de São Paulo. No texto de lançamento de sua pré-candidatura à Presidência, Avalanche disse que sua atuação no pleito de 2024 foi "decisiva".
Em janeiro deste ano, o ex-coach chegou a anunciar que concorreria ao Planalto pela sigla, mesmo estando inelegível até 2032 por determinação da Justiça Eleitoral. Em março, no entanto, ele anunciou a migração para o União.
Ainda em 2024, Marçal chegou a defender o afastamento imediato de Avalanche do comando do PRTB após o surgimento de suspeitas de ligação dele com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Na época, em áudio revelado pelo jornal Folha de S. Paulo e obtido pelo GLOBO, o dirigente partidário sugeriu a um correligionário que teria sido o responsável pela soltura do traficante André do Rap, em uma tentativa de demonstrar influência antes da eleição do PRTB que o colocou na presidência, no final de fevereiro. Em outro momento, afirmou que o seu motorista particular teria envolvimento com o crime organizado e recebe ligações de dentro dos presídios.
Em resposta, Avalanche negou que desconhecia o áudio e a autoria do material, levantando a possibilidade de o conteúdo ter sido criado por ferramentas de inteligência artificial. No mês seguinte, Marçal anunciou a reconciliação com o aliado e negou que ele teria envolvimento com o PCC.
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