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Jogo do bicho, tráfico e milícia têm oito candidaturas suspeitas no Rio

Pedidos foram encaminhados ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio, que terá de decidir até 14 de setembro.

Agência O Globo - 20/08/2026
Jogo do bicho, tráfico e milícia têm oito candidaturas suspeitas no Rio
Jogo do bicho, tráfico e milícia têm oito candidaturas suspeitas no Rio - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Ao menos oito candidatos no Rio foram alvo de ações de impugnação por associação ao crime organizado desde o início do período de registro de candidaturas na Justiça Eleitoral, que se encerrou no sábado. Na lista, estão o filho de uma deputada investigada por suspeita de ligação com milícia, o neto de um dos nomes mais conhecidos do jogo do bicho e a mulher de um traficante apontado como integrante da cúpula do Comando Vermelho (CV) em Alagoas.

a maior parte dos pedidos parte do Ministério Público Eleitoral (MPE), com base em precedentes que possibilitam a impugnação de nomes mesmo sem condenações. As impugnações foram encaminhadas ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio, que terá de decidir até 14 de setembro.

Em seis dos casos, o MPE aplica uma interpretação do Tribunal Superior Eleitoral segundo a qual uma candidatura pode ser barrada quando houver indícios de que uma organização criminosa tenta interferir no processo eleitoral. O parentesco não é suficiente por si só: a tese busca avaliar se a candidatura pode representar a continuidade ou a extensão da influência política de uma estrutura criminosa.

O caso de Tadeu Amorim de Barros Júnior, o Júnior da Lucinha (PSD), é o mais emblemático. Vereador e filho da deputada estadual Lucinha (PSD), investigada por suspeita de ligação com a milícia de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, Júnior é visto pelo MPE como possível continuidade da estrutura política que sua mãe construiu após ela ter perdido a legenda para disputar a reeleição.

A ação compara o desempenho eleitoral de mãe e filho. Em uma escola municipal de Santa Cruz, por exemplo, os dois teriam concentrado 48,1% dos votos nominais, resultado que o MPE aponta como 10,7 vezes superior ao de qualquer outro concorrente. A peça ainda menciona relatos recebidos pelo Disque-Denúncia e pela Justiça Eleitoral sobre supostas intimidações de moradores para comparecimento a eventos políticos. Além disso, há relatos de que Lucinha realizaria atos acompanhada de homens armados e teria ameaçado moradores. Procurada, a equipe de Júnior da Lucinha não respondeu.

Outro caso que levanta suspeitas é o de João Felipe Drumond Espíndola de Freitas (PRD), candidato à Alerj e neto do contraventor Luizinho Drumond. A Procuradoria descreve a candidatura como inserida em uma estrutura familiar e político-territorial relacionada à contravenção e à escola de samba Imperatriz Leopoldinense.

A ação menciona a participação de João em atividades de pré-campanha de Mariana Souza, candidata do PP e mulher de Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como Zé Dirceu, liderança alagoana do CV.

Mariana Souza, também alvo de impugnação, teria vínculos profundos com o alto escalão do CV, e sua eleição poderia acarretar risco de “infiltração institucional”. Ela é do mesmo partido que o ex-secretário de Polícia Civil do Rio Felipe Curi (PP), também candidato a deputado federal.

O MPE menciona um áudio obtido em Alagoas, no qual Nem Catenga, líder do CV no estado, afirma que a organização precisa de “um representante” e “uma voz ativa” na política. A mensagem foi tornada pública em junho e tinha como destinatário Patrick de Almeida Silva, o PTK, influencer que pretendia disputar uma vaga de vereador naquele ano e que foi preso pela Polícia Civil de Alagoas em junho.

A defesa de João Drumond alegou ter recebido “com perplexidade e revolta” a manifestação “caluniosa” do MPE, negando participação no jogo do bicho ou envolvimento com facções ou organizações criminosas. A defesa de Mariana não respondeu às tentativas de contato.

Outro caso é o de Cristiano Santos, o Cristiano Hermógenes (Avante), candidato à Alerj e ex-vereador de Belford Roxo, apresentado por Gabriel Carvalho Gonçalves, seu adversário político. Cristiano é irmão de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, identificado como um dos principais chefes do CV.

Na peça, o autor sustenta que há um “vínculo próprio, funcional e politicamente relevante” entre Cristiano e a estrutura criminosa, citando sua prisão em 2006 e reportagens que o relacionaram a investigações por associação para tráfico e lavagem de dinheiro.

Candidato à reeleição para a Alerj, Val Ceasa (PRD) também enfrenta impugnação do MPE, que reaviva investigações sobre supostos vínculos do deputado com o Terceiro Comando Puro (TCP). Val ainda é mencionado em uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre uma tentativa do CV de se aproximar de políticos. Ao GLOBO, a defesa de Val declarou que “fatos atribuídos a terceiros ou referências a investigações” não podem ser atribuídos ao candidato sem prova concreta e individualizada.

Por último, destaca-se o caso de Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e candidato a deputado estadual, que inicialmente era pré-candidato ao Senado, mas alterou seus planos após ser preso pela PF ao ser encontrado com um fuzil durante a Operação Unha e Carne, que investiga ligações entre agentes públicos e integrantes do crime organizado.