Poder e Governo
Lula volta a mencionar mágoa com Toffoli e reforça distância na relação com ministro do STF desde a crise Vorcaro
Petista citou episódio de 2019 à autorização que recebeu para acompanhar funeral da mãe quando estava preso durante a ditadura
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a expor neste domingo uma antiga mágoa com o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), baixando que a relação com o magistrado continua estremecida. No ato inaugural de campanha, o petista lembrou a decisão do integrante do STF que, em 2019, não permitiu que ele acompanhasse o enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, da forma como havia pedido à Justiça. O desabafo reforça a distância entre ambos, aprofundada desde que Toffoli passou a ser alvo de envolvimento no caso Master.
A crítica de Lula foi feita durante um ato oficial de campanha em São Bernardo do Campo (SP). Sem citar o nome, Lula fez questão de lembrar que o magistrado havia sido indicado por ele ao Supremo.
Ao registrar o episódio, o presidente contrapôs a situação vívida durante a Lava-Jato ao tratamento que recebeu quando esteve preso durante a ditadura militar e perdeu a mãe, Dona Lindu.
— Você vê a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá. Numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço — disse.
A lembrança de Vavá apareceu em um momento do discurso no qual Lula relembrou episódios de sua trajetória pessoal e sindical marcados por mortes. O petista citou lideranças assassinadas, como Wilson Pinheiro e Margaria Alves, e registrou a morte da mãe enquanto estava preso em 1980 por causa da greve dos metalúrgicos do ABC.
Ao falar de Dona Lindu, Lula contou que Romeu Tuma, então responsável pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, permitiu que ele deixasse a prisão à noite para visitá-la e autorizou sua presença no funeral.
— O Dr. Tuma era o delegado geral da Polícia Federal. Toda semana ele me libertou. Depois das 10h30 da noite, eu vinha na Pauliceia, em São Bernardo, visitei a minha mãe e voltei pra cadeia. E quando ela morreu, ele permitiu que eu viesse no enterro da minha mãe — disse.
Foi a partir dessa lembrança que Lula passou a comparação com o que ocorreu quase quatro décadas depois, durante o período em que esteve preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
O episódio com Vavá
Vavá morreu em 29 de janeiro de 2019, aos 79 anos, vítima de câncer. Lula estava preso em Curitiba e sua defesa pediu autorização para que ele viajasse a São Bernardo do Campo para acompanhar o velório e o sepultamento do irmão.
O pedido foi inicialmente rejeitado. A defesau ao Supremo e o caso chegou a Toffoli, que presidia a Corte e foi responsável pelo plantão durante o recesso do Judiciário.
O ministro concedeu uma autorização parcial para que Lula saísse da prisão e se encontrasse exclusivamente com familiares em uma unidade militar na região. A decisão prévia incluía a possibilidade de o corpo de Vavá ser levado até o local, mas não autorizou a presença de Lula no velório e no cemitério da forma solicitada pela defesa.
A Polícia Federal se manifestou contra a viagem nos termos pedidos, alegando falta de tempo hábil para organizar o deslocamento e riscos à segurança. Ao decidir, Toffoli entendeu que essas dificuldades não deveriam impedir completamente o direito de Lula de se encontrar com a família e autorizar o encontro sob restrições.
A decisão, no entanto, veio quando o sepultamento de Vavá já estava em andamento. Diante do local e da impossibilidade de acompanhar a despedida do irmão, Lula decidiu não viajar. À época, o ex-ministro Gilberto Carvalho afirmou que já não fazia sentido o deslocamento apenas para um encontro posterior com familiares.
O episódio provocou um afastamento entre Lula e Toffoli. A própria defesa do petista havia lembrado, no pedido ao Supremo, que Lula teria autorização para acompanhar o funeral da mãe quando estava preso durante a ditadura — a mesma comparação relembrada pelo presidente neste domingo.
O pedido de
Três anos depois, em dezembro de 2022, o episódio voltou à tona durante a diplomação de Lula, após sua vitória na eleição presidencial. Toffoli recorreu ao petista e pediu desculpas pela decisão de tomada em 2019, segundo relatos publicados à época.
O ministro percebeu que Lula deveria ter tido a possibilidade de acompanhar a demissão do irmão. Depois desse episódio, os dois voltaram a se aproximar.
A relação, no entanto, atravessou uma nova crise neste ano por causa das investigações envolvendo o Banco Master. Em fevereiro, aliados próximos ao presidente disseram um ambiente de forte desgaste e disseram que Lula demonstrava sentimentos de "decepção" e "traição" em relação ao ministro.
Segundo esses relatos, o presidente avaliou que Toffoli deveria deixar um relato das investigações para considerar que a condução do caso estava provocando desgaste ao próprio Supremo. O ministro posteriormente deixou o processo, que foi redistribuído a André Mendonça.
O episódio do funeral de Vavá foi apontado por aliados como a origem do primeiro afastamento entre os dois.
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