Poder e Governo
Flávio Bolsonaro escala aliados para fortalecer presença digital
Campanha prevê união de parlamentares para responder a ataques e amplificar mensagens do senador
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tenta organizar uma rede de aliados para ampliar a presença digital do presidenciável e responder à ofensiva de nomes ligados ao presidente Lula (PT). A estratégia, desenhada em meio a um incômodo com o desempenho do senador nas redes sociais, prevê escalar parlamentares de grande alcance para comprar brigas, rebatir ataques e repercutir mensagens do QG da candidatura, além de distribuir temas específicos entre porta-vozes. A ideia é reduzir a dependência de Flávio para protagonizar os confrontos no ambiente digital.
Veja os números:
O movimento ocorre no momento em que a própria família Bolsonaro expõe diferenças de desempenho nas redes. Em vídeos publicados por Flávio e Michelle Bolsonaro para tentar encerrar a crise recente, a ex-primeira-dama alcançou 12,7 milhões de visualizações, ante 1,6 milhão do senador — quase oito vezes mais. O resultado reforçou no entorno do candidato a percepção de que ele ainda tem dificuldade para converter em audiência própria o capital digital acumulado pelo bolsonarismo.
O problema não é falta de presença da direita nas redes. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque mostra que, entre 4 e 10 de agosto, a extrema direita respondeu por 52% a 61% das publicações monitoradas diariamente, enquanto a esquerda oscilou entre 28% e 34%.
Conteúdo eleitoral
A produção do campo também já está fortemente voltada para a eleição. Quase um terço das publicações da extrema direita analisadas pelo instituto se concentrou em ataques a Lula. Outros 18% foram dedicados à escolha de Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice de Flávio e 16% às investigações sobre o INSS. Somados, esses temas fizeram com que dois terços da produção semanal fossem direcionados à construção da candidatura do senador ou à desconstrução do principal adversário.
Para Letícia Capone, doutora em Comunicação Social e diretora de Pesquisa do instituto, a dificuldade de Flávio para reunir essa força em torno de sua candidatura também passa pelos sucessivos conflitos que marcaram a construção de seu projeto presidencial.
— É uma campanha permeada por reveses. Começa com um revés na definição de quem seria o candidato que levaria o capital político de Bolsonaro. Flávio até tinha apoio, mas teve o descolamento com Michelle, (Daniel) Vorcaro, também teve questões internas no PL, como a briga local em Santa Catarina, Ana Campagnolo não querendo apoiar Carlos Bolsonaro. Quando há fissuras, torna-se mais difícil o apoio nas redes — diz.
A pesquisadora cita como exemplo a mobilização para manifestações recentes. Enquanto Flávio divulgou um ato em Copacabana, no Rio, hoje, os deputados do PL Gustavo Gayer (GO) e Nikolas Ferreira (MG) concentraram a divulgação de uma manifestação em Goiás. O episódio ajuda a ilustrar um dos problemas identificados pelo QG: grandes influenciadores bolsonaristas continuam mobilizados, mas nem sempre em torno da agenda definida pela campanha presidencial.
Nikolas e Gayer, além de André Fernandes (PL-CE) estão entre os nomes para a missão de aumentar a presença digital de Fávio nas redes. Guilherme Derrite deverá ser escalado para falar de segurança pública, enquanto Daniella Marques é pensada para pautas relacionadas às mulheres.
Os irmãos de Flávio já manifestaram incômodo com esse cenário. Carlos e Eduardo Bolsonaro reclamaram do baixo engajamento de aliados na campanha. A avaliação é de que nomes que acumularam milhões de seguidores e tiveram papel importante na mobilização bolsonarista passaram a atuar com agendas próprias, o que dificulta transformar essa audiência em uma operação coordenada em torno do candidato.
Ao mesmo tempo, o QG avalia que a campanha de Lula conseguiu organizar melhor seus personagens para o confronto. São citados nominalmente os deputados André Janones (Avante-MG), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), além do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), como exemplos de uma operação que distribui o embate entre diferentes aliados e evita que o presidente precise protagonizar pessoalmente cada disputa.
Interlocutores dos parlamentares citados pela campanha de Flávio afirmam que não houve conversas com Lula ou com integrantes da campanha presidencial para que eles assumissem esse papel de linha de frente nas redes. A atuação, segundo eles, ocorre de forma espontânea.
Capone avalia que essa organização é resultado de um processo iniciado ainda na última eleição presidencial:
— A esquerda aprendeu a se organizar em redes. É um processo que vem desde 2022. Janones foi muito importante. A esquerda conseguiu ter uma leitura e entrar na disputa de narrativa mesmo.
Na direita, a contradição aparece dentro da própria família Bolsonaro. Enquanto a campanha tenta convencer aliados a se organizarem para defender o candidato, Eduardo mantém embates públicos com nomes do mesmo campo. O movimento reforça a dificuldade de transformar a defesa de Flávio em uma agenda comum entre grupos que, embora compartilhem o objetivo de derrotar o PT, mantêm interesses e estratégias próprias.
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