Poder e Governo

Lula questionou Lulinha sobre relação com lobista investigada no INSS, afirmam aliados

Presidente pediu aos advogados de Lulinha que não solicitem o fechamento dos processos que o investigam

Agência O Globo - 14/08/2026
Lula questionou Lulinha sobre relação com lobista investigada no INSS, afirmam aliados
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou nesta sexta-feira que seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, "pagará" por eventuais desvios de conduta nas investigações. Em entrevista, o petista repetiu a estratégia adotada para enfrentar as críticas decorrentes do escândalo no INSS. Meses atrás, segundo aliados, Lula teria questionado, em uma ligação, sobre a amizade de Lulinha com a empresária Roberta Luchsinger, lobista também alvo de investigação.

De acordo com relatos, Lula teriam indagado ao filho sobre a natureza da relação com Luchsinger, herdeira de um banqueiro suíço. Lulinha esclareceu ao pai que Luchsinger é amiga de sua esposa, Renata Moreira, há quase uma década. O assunto foi tratado em uma ligação na qual discutiram as suspeitas envolvendo Fábio Luís.

A cobrança, ainda conforme informações de pessoas próximas, ocorreu antes de o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro Santana, conhecido como Marcola, ser alvo da mesma apuração. Luchsinger repassou R$ 249 mil ao ex-assessor de Lula em uma transação classificada por Marcola como "um empréstimo".

A lobista é apontada pela Polícia Federal como uma peça-chave em um suposto esquema de tráfico de influência que operou durante o terceiro mandato do governo Lula. As investigações apuram a possibilidade de que o primogênito do petista tenha cometido tráfico de influência em órgãos do governo.

A empresária é próxima de petistas e membros do governo, tendo sido candidata a deputada estadual em São Paulo pelo PT em 2018. Dona de uma empresa de consultoria, Luchsinger frequentava a Esplanada dos Ministérios e órgãos públicos, representando empresas interessadas em celebrá-los contratos.

Um dos serviços de consultoria prestados por ela beneficiou o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", que lhe repassou R$ 1,5 milhão em cinco parcelas de cerca de R$ 300 mil, pagas entre 2024 e 2025.

Conforme interlocutores, durante a ligação para discutir o tema, Lula destacou que a amizade entre Luchsinger e Fábio parece "estranha", especialmente considerando que Fábio é o filho do presidente da República.

Ele questionou se a relação seria a mesma caso Fábio não fosse filho de Lula. Durante a conversa, o primogênito explicou ao pai, segundo relatos, que sua esposa e Luchsinger "se gostavam como irmãs".

Nesta sexta-feira, Lula revelou que solicitou aos advogados de Lulinha que não peçam o fechamento dos processos que o investigam:

— Ele jura por tudo que é sagrado que não tem nada, e eu acredito nele, mas eu já disse aos advogados: "Ninguém vai pedir fechamento de processo do meu filho". Quer fazer inquérito, faça. Quero que seja investigado, como eu fui — disse Lula em entrevista ao podcast Não Inviabilize.

A defesa de Lulinha, liderada por Marco Aurélio de Carvalho, confirmou que o presidente fez essa solicitação:

— Lula pediu várias vezes (para advogados não pedirem fechamento do inquérito), queria afastar qualquer sentimento de que o filho teria algum tipo de privilégio. Estava preocupado em não passar a mensagem de que tem uma Polícia Federal para chamar de sua — afirma Marco Aurélio de Carvalho, advogado de Lulinha.

Na entrevista, o presidente também afirmou que Lulinha será responsabilizado se forem comprovadas as acusações nas investigações a que ele responde.

— Se meu filho tiver culpa, ele pagará. Ele já foi acusado de muitas coisas; toda eleição aparece meu filho. Só ele (Lulinha) sabe a verdade, eu não sei. Se ele fez ou não fez... Ele jura que não fez, então brigue — declarou Lula.

Há dez dias, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a instauração de um terceiro inquérito para apurar suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha.

Os dois primeiros inquéritos investigam a relação do empresário com pessoas interessadas em contratos no Ministério da Saúde e na Dataprev, empresa pública de tecnologia responsável pela base de dados do INSS. Entre esses interlocutores estava Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", empresário suspeito de operar o desvio de recursos de aposentados e pensionistas.