Poder e Governo
Flávio cita informação falsa sobre empresa venezuelana e urnas ao pedir a diplomatas que enviem 'observadores' ao Brasil
Durante evento em Brasília, senador lembrou condenação do pai por reunião com embaixadores e mencionou documentos da CIA divulgados após discurso de Trump
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, citou uma informação falsa sobre as urnas eletrônicas brasileiras ao pedir a uma plateia de representantes diplomáticos estrangeiros que enviem "a maior quantidade de observadores possível" para acompanhar o pleito de outubro. Na fala, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — que se tornou inelegível por uma reunião com embaixadores na qual teceu ataques ao sistema eleitoral do país — mencionou dados inverídicos sobre uma empresa venezuelana que aparece em documentos da CIA divulgados pela gestão Trump na semana passada.
A declaração aconteceu durante encontro "Debatendo o Brasil", realizado nesta terça-feira, em Brasília, pelo site The Brazilian Report e a agência Novo Selo Comunicação. Anteriormente, o grupo já realizou agendas semelhantes que contaram com a presença de outros dois presidenciáveis, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), além do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques.
A informação foi revelada pelo jornal Estado de São Paulo e confirmada pelo GLOBO, que obteve o áudio com a participação do senador. Estavam presentes membros do corpo diplomático de 42 países, como Estados Unidos, Israel, Reino Unido, África do Sul, Austrália, Paraguai, União Europeia e Alemanha, entre outros.
— O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes — disse Flávio Bolsonaro.
Antes, o parlamentar havia feito referência a documentos da CIA tornados públicos na semana passada, que levantam suspeitas sobre o processo eleitoral venezuelano. A papelada faz parte de um pacote de conteúdos divulgados pela Casa Branca após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado da família Bolsonaro, realizar um pronunciamento levantando suspeitas de interferência estrangeira nas eleições americanas de 2020.
O documento em questão, apesar de apontar que oficiais da Venezuela desenvolveram interesse e "alguma capacidade" em manipular sistemas eletrônicos de votação, não obteve confirmação definitiva de que fraudes eletrônicas de grande escala foram executadas com sucesso no país. Ao discursar, Flávio citou especificamente a empresa venezuelana Smartmatic, repetindo uma informação falsa já desmentida no passado pelo TSE:
— E uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país — afirmou Flávio, acrescentando o dado equivocado: — Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana.
A Smartmatic não fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras. Em 2017, quando a informação falsa começou a viralizar nas redes, o TSE publicou uma nota a desmentindo. "As urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas por técnicos a serviço da Justiça Eleitoral e são produzidas, sob a sua direta coordenação, por empresas selecionadas por meio de processos licitatórios públicos e de ampla concorrência", diz a nota. Novos desmentidos foram publicados pelo tribunal nos ciclos eleitorais seguintes, como em 2020 e 2022. Questionado nesta terça-feira, o TSE reafirmou que não há relação entre as urnas e a empresa venezuelana.
A Smartmatic já celebrou contratos com a Justiça Eleitoral brasileira. No entanto, eles versavam sobre a prestação de serviços de conexão de dados e voz e não envolviam a programação ou operação das urnas eletrônicas. A empresa venezuelana até chegou a participar de uma licitação para fabricar urnas para as eleições de 2020, mas perdeu a disputa para uma concorrente.
O próprio Flávio lembrou à plateia da condenação do pai pelo TSE, que, durante encontro com embaixadores no Palácio do Planalto em 2022, também teceu acusações infundadas sobre o sistema eleitoral brasileiro:
— Alguém que tinha uma preocupação com a transparência, a segurança do nosso sistema eleitoral e apenas manifestava as suas preocupações para que os embaixadores levassem esse cenário de preocupação para os seus países — argumentou, minimizando o episódio.
O TSE, no entanto, entendeu que o pai de Flávio praticou abuso de poder político e usou indevidamente meios de comunicação ao atacar, sem provas, as urnas eletrônicas na reunião às vésperas da campanha à reeleição na qual acabou derrotado. Segundo a acusação, ao transmitir o discurso com ataques às urnas eletrônicas na TV Brasil e em redes sociais, Bolsonaro teve “expressivo alcance na difusão de informações falsas já reiteradamente desmentidas”.
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