Poder e Governo

Setores do agro criticam estratégia de Flávio nos EUA e avaliam que senador perde espaço ao priorizar embates ideológicos

Lideranças do segmento afirmam que exceções ao tarifaço aliviaram impacto, mas veem candidato perdendo oportunidade ao politizar discussão comercial

Agência O Globo - 16/07/2026
Setores do agro criticam estratégia de Flávio nos EUA e avaliam que senador perde espaço ao priorizar embates ideológicos
Flávio Bolsonaro - Foto: © Folhapress / Mateus Bonomi

As lideranças do agronegócio têm feitas críticas reservadas à estratégia adotada pelo pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), durante uma crise comercial com os Estados Unidos e avaliam que o senador vem perdendo espaço junto a uma das regiões historicamente mais alinhadas ao bolsonarismo ao priorizar debates ideológicos em detrimento de pautas consideradas prioritárias para o campo.

Empresários e representantes do setor ouvidos pelo GLOBO afirmaram que a viagem de Flávio a Washington para participar da audiência sobre o tarifaço foi “contraproducente” e cobram maior atuação em temas como a renegociação das dívidas rurais.

As críticas ocorreram mesmo após a decisão do governo americano de deixar fora da tarifa de 25% uma série de produtos importantes para o agronegócio brasileiro, como carne bovina, pescados, café e alguns segmentos da madeira, o que prejudicou o impacto imediato da medida sobre boa parte do setor.

Para membros do agro, porém, o episódio evidenciou mais uma oportunidade perdida por Flávio de assumir a liderança de uma agenda econômica cara ao seu eleitorado do que propriamente uma derrota comercial. A principal crítica é que, mesmo ocupando uma cadeira no Senado, Flávio é um pouco atuoso em pautas consideradas prioritárias para o setor, como a renegociação das dívidas rurais, tema que mobiliza produtores e parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Outro ponto que provocou foi o discurso emitido pelo senador aos Estados Unidos para participar da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação comercial que embasou o tarifaço.

A avaliação dos empresários ligados ao agro é que a iniciativa misturou política com uma discussão essencialmente comercial e tinha poucas chances de alterar uma decisão que seria tomada com base nos interesses econômicos americanos. Ainda assim, dizem, a viagem também expôs Flávio ao risco de voltar ao Brasil sem resultados concretos e fortaleceu o discurso do governo de que o bolsonarismo atua alinhado aos interesses americanos.

Apesar das críticas, os representantes do agro avaliam que o resultado final das negociações foi melhor do que o inicialmente esperado para o setor. Produtos relevantes da pauta de exportação brasileira ficaram fora da lista de sobretaxas, rapidamente o impacto imediato para diferentes cadeias produtivas.

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR) elaborou um tom cauteloso ao comentar o anúncio americano. Segundo ele, houve avanços importantes com a inclusão de abordagens para produtos como carnes, pescados e compensados ​​de madeira, embora segmentos como o pinus permaneçam afetados.

— Tião avanços importantes, mas ainda há produtos que precisam ser retirados da tarifa. Eu adoraria que essa tivesse sido uma discussão técnica — afirmou.

Para parte das lideranças, porém, essas abordagens também refletem os interesses do próprio governo Donald Trump. A leitura é que a Casa Branca evitou sobretaxar produtos cujo aumento de preços poderia gerar desgaste interno entre consumidores americanos, como café e carne. Ou seja, a decisão levou em conta não apenas as negociações com o Brasil, mas também os impactos políticos e econômicos que uma tributação mais ampla poderia provocar internamente.

Embora tenha sido responsabilizado em parte pelo governo Lula pela condução das negociações, Lupion evitou ter protagonismo com Flávio sem resultados obtidos. Para o parlamentar, o resultado “é um copo meio cheio e meio vazio”, depende do ponto de vista.

Nos bastidores, essa percepção é compartilhada por membros do setor, que afirmam que as abordagens foram frutos principalmente da atuação técnica de entidades representativas e das negociações conduzidas ao longo da investigação comercial.

Em nota nesta quinta-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) manifestou preocupação com a confirmação da tarifa e afirmou que a medida amplia a insegurança para empresas brasileiras e americanas, além de reduzir a competitividade da indústria nacional, dizendo que “a sobretaxa agrava um cenário que já vinha investindo nas exportações nacionais”.

Já a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) descreveu o desfecho da crise a "ruídos diplomáticos necessários", "críticas personalistas" e ao que chamou de “desalinhamento político” entre Brasília e Washington, defendendo que a relação bilateral deveria ter sido conduzida de forma mais técnica.

É justamente esse ponto que aproxima avaliações de parte do setor produtivo. Embora divirjam sobre quem é o principal responsável pelo impasse, lideranças do agro e representantes da indústria convergem na avaliação de que uma negociação comercial desse porte deveria ter permanente no campo técnico, longe da disputa política travada entre governo e oposição.

Outro ponto explorado pelos membros do setor é o discurso da soberania, que, na avaliação deles, pode acabar impondo novos problemas políticos a Flávio. Reservadamente, os empresários afirmam que declaram como o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao assumir a responsabilidade pela tarifaço ao presidente Luiz (PT), reforçam a narrativa do governo de que o pré-candidato do PL e seu entorno exercem influência sobre os interesses americanos.

Para esses interlocutores, a sucessão de episódios envolvendo representantes do bolsonarismo nos Estados Unidos, como a atuação de Eduardo Bolsonaro no país, a interlocução com membros do governo Donald Trump e a carta enviada por Flávio ao USTR, tendem a fortalecer o discurso do Planalto em defesa da soberania nacional, fortalecendo politicamente Lula.