Poder e Governo

Governador de SC ofende indígenas e é investigado pela PGR

CNDH argumenta que Jorginho Mello (PL) ofendeu a honra coletiva do povo Xokleng

Agência O Globo - 16/07/2026
Governador de SC ofende indígenas e é investigado pela PGR
Conselho Nacional de Direitos Humanos

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), seja investigado por declarações contra o povo Xokleng. O mandatário catarinense se exaltou e ofendeu os indígenas durante uma visita às obras da Barragem Norte, no município de José Boiteux, na quinta-feira passada (8). Na ocasião, ele mandou uma cacica "à merda".

Na ação, a CNDH pede aos procuradores que o governador seja investigado e responsabilizado pelas denúncias. Conforme consta na representação, o conselho afirma que o episódio não pode ser tratado como um “mero desentendimento episódico”, mas deve ser analisado à luz da relação entre uma autoridade pública e um povo indígena que se manifestou dentro de seu território tradicional. Para o órgão, as declarações do governador têm “possível dimensão discriminatória e coletiva” e, por isso, precisam ser investigadas.

'Vai à merda'

As falas de Mello ocorreram enquanto ele concedia uma entrevista no local. O governador afirmou que a reforma da barragem inclui a recuperação do que, segundo ele, “foi destruído pelos indígenas”, e citou como exemplo um suposto incêndio em uma casa de máquinas.

— Nós botamos a mão na massa, botamos o dedo na ferida. Estamos reformando a barragem, estamos restaurando tudo o que foi destruído pelos indígenas. Botaram fogo na casa de máquinas, aquela coisa toda. Estamos trocando o comportamento, a empresa está a todo vapor — afirmou.

Em seguida, uma mulher que se identifica como cacica começa a gritar ao fundo, acusando o governador de estar no local “para fazer política”, enquanto os “indígenas sofriam”. Mello interrompeu a fala e passou a xingá-la, enquanto ela continua a protestar. Em entrevista prossegue, o governador afirma que as obras estão sendo realizadas de acordo com a comunidade indígena para cumprir “o que ninguém cumpriu”.

— Nós nunca tivemos uma fase tão boa. Estamos cumprindo com os indígenas o que ninguém cumpriu. Fazendo as obras, as casas — destacado.

Novamente, a entrevista é interrompida pelos protestos ao fundo. A mulher se aproxima e os dois passam a discutir. Ela questionou a afirmação do governador de que “está tudo sob controle”, e ele respondeu:

— A senhora não quer ir à merda?

Ela responde pedindo respeito e reafirma que é cacica. O governador retruca, em tom de desdém, dizendo que foi ao local para conceder a entrevista e que ela não o respeitou. A mulher rebate afirmando que a barragem está localizada em terra indígena e desenvolve o xingamento a Mello.

— Você que vai à merda. Você quer se eleger. Por isso você está fazendo política em cima do que é da União — afirmou.

Ao fundo, é possível ver cartazes com os dizeres: “Palavras não bastam, é hora de cumprir o que foi prometido”; “Não há justiça quando uma obra avança sem respeito aos compromissos reforçados”; e “Antes de concluir a barragem, cumpra as promessas feitas à comunidade Laklãnõ/Xokleng”. Ao mesmo tempo, membros da comunidade indígena entoam um cântico rítmico de protesto.

Responsabilidades nas esferas civil, administrativa e penal

A CNDH argumenta que as ofensas atingiram não apenas a cacica que discutiu com o governador, mas também a dignidade e a honra coletiva do povo Xokleng. Segundo o documento, ao cobrir genericamente aos indígenas a destruição de estruturas e responder aos protestos com xingamentos, Jorginho Mello teria proteção ambiental aos estigmas, lideranças deslegitimadas indígenas e inibido o exercício dos direitos de manifestação e reivindicação.

O conselho também afirma que uma nota divulgada posteriormente pelo governo catarinense se limitou a tratar das obras da barragem e das atribuições da União, sem abordar as ofensas nem apresentar pedido público de desculpas aos indígenas.

Na avaliação do órgão, a conduta deve ser comprovada à luz da Constituição Federal, que garante os direitos dos povos indígenas e veda discriminações, além dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

Por fim, o CNDH pede ao Ministério Público Federal a instauração de procedimento para apurar integralmente os fatos e verificar eventuais responsabilidades nas esferas civil, administrativa e penal, além da adoção de medidas de acessórios e de prevenção para evitar a repetição de episódios semelhantes.