Poder e Governo
Presidente da Conafer alegou facilidade na obtenção de cidadania italiana com ajuda de Stefanutto, diz PF
Mensagens apreendidas mostram Carlos Roberto Ferreira Lopes afirmando que então presidente do INSS teria escritório na Itália.
O relatório final da Polícia Federal (PF) sobre o esquema de fraudes em descontos associativos no INSS reúne mensagens que, segundo os investigadores, evidenciam a proximidade entre o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e o presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes. Em uma conversa reproduzida pela PF, Carlos afirma a familiares que Stefanutto teria um escritório na Itália capaz de viabilizar, "de graça", a obtenção de cidadania italiana para eles.
De acordo com o relatório, a conversa ocorreu em março de 2024. Nas mensagens, Carlos diz aos familiares que "o presidente do INSS", em referência a Stefanutto, "tem escritório na Itália". Em seguida, um dos interlocutores pergunta: "E pra nós é de graça?". Carlos responde: "Lógico". Para a PF, o diálogo é mais um elemento que demonstra a relação de proximidade entre os dois investigados.
O documento também reproduz outra troca de mensagens, de setembro de 2024, na qual Bruna Braz de Souza Santos, esposa de Carlos Roberto Ferreira Lopes, pergunta por que ele havia "sumido". Carlos responde que estava com "Stefanutto", indicando que os dois mantinham contato frequente fora do ambiente institucional. A conversa também é utilizada pela PF para reforçar a tese de que havia uma relação pessoal entre o então presidente do INSS e o dirigente da Conafer.
Alessandro Stefanutto e Carlos Lopes estão entre os 48 investigados indiciados pela Polícia Federal no primeiro inquérito concluído da Operação Sem Desconto. Segundo a investigação, o ex-presidente do INSS recebeu pagamentos mensais de empresas ligadas aos operadores financeiros do esquema e teria atuado para favorecer interesses da Conafer dentro do INSS. Stefanutto nega participação nas irregularidades.
O relatório foi encaminhado ao ministro André Mendonça, relator das investigações no Supremo Tribunal Federal (STF). Caberá agora à Procuradoria-Geral da República decidir se apresenta denúncia contra os investigados.
A apuração finalizada é derivada da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de cobranças associativas não autorizadas em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. As investigações sobre outras entidades suspeitas e demais núcleos do esquema continuam em andamento em procedimentos separados.
Segundo a PF, entidades firmavam acordos de cooperação com o INSS para realizar descontos mensais diretamente na folha de pagamento de aposentados, muitas vezes sem autorização válida dos pensionistas.
A Conafer é uma das entidades que passaram a ser investigadas após indícios de crescimento expressivo na arrecadação por meio de descontos em benefícios previdenciários. Em nota, a Conafer afirmou que respeita o trabalho da PF, do Ministério Público e do Poder Judiciário, mas ressalta que "o indiciamento constitui uma manifestação produzida na fase investigativa".
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