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'É confundir ciência com bola de cristal', diz associação de institutos de pesquisa sobre selo proposto pelo TSE

Nunes Marques reuniu representantes dos institutos e apresentou minuta que prevê prêmio para levantamentos com maior proximidade do resultado das urnas

Agência O Globo - 14/07/2026
'É confundir ciência com bola de cristal', diz associação de institutos de pesquisa sobre selo proposto pelo TSE

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) reagiu nesta terça-feira à proposta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de criar o chamado 'Selo Acurácia Eleitoral' , iniciativa destinada a principais institutos cujas previsões mais se aproximam dos resultados oficiais das urnas. Em nota, a entidade afirmou que a medida parte de uma intenção equivocada sobre o papel das pesquisas eleitorais e alertou que o mecanismo pode estimular práticas oportunistas e enfraquecer o rigor metodológico.

Segundo a Abep, composta por institutos como Datafolha , Quatest , Ipsos e outros, as pesquisas servem para medir a intenção de voto no momento em que são feitas, não são 'previsões nem promessas de resultados'. 'Entre a entrevista e a votação, votam mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa 'acerte' o resultado é confundir ciência com bola de cristal', afirma um trecho da nota.

De acordo com a associação, a iniciativa cria um incentivo 'perverso' , já que institutos sem um rigor metodológico poderiam passar a acompanhar pesquisas de 'institutos sérios' e ajustar os números para convergir ao consenso. A Abep ainda afirma que, quando o objetivo passa a ser a conquista do selo, o 'incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que maximiza a chance de receber o prêmio'. Essa lógica, segundo a organização, prejudica a qualidade da informação fornecida ao leitor.

'Árbitro de qualidade'

O fato de a Justiça Eleitoral buscar assumir o papel de ‘árbitro de qualidade’ nas pesquisas causa ‘especial preocupação’. Ainda segundo o documento, a avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas, 'não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada'.

'Reafirmamos nosso respeito ao Tribunal Superior Eleitoral e ao seu papel fundamental na garantia da lisura das eleições. Justamente por isso, entendemos que iniciativas dessa natureza precisam ser construídas em diálogo com a comunidade científica e com os institutos de pesquisa, para que não caibam estimular práticas oportunistas e desvalorizando o rigor metodológico que deve orientar toda série de pesquisa', conclui a nota.

A manifestação ocorreu após reunião entre o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques , e representantes dos principais institutos do país. Segundo relatos feitos ao GLOBO , Datafolha , Quatest , Ipec , Ipsos-Ipespe e MDA manifestaram posição ocupada à criação do selo durante o encontro. Apesar das críticas, Kassio afirmou aos participantes que o documento distribuído nesta terça-feira representa apenas uma proposta inicial e afirmou que o tribunal receberá sugestões até a próxima sexta-feira, incluindo contribuições que já obtiveram a ser apresentadas pelos institutos.

A minuta apresentada na reunião desta terça trata exclusivamente da criação do selo de acurácia. A expectativa dentro do tribunal é que as sugestões encaminhadas pelas empresas também sirvam de base para a elaboração de uma resolução mais ampla sobre pesquisas eleitorais, disciplinando aspectos relacionados à transparência, ao registro e à divulgação dos levantamentos.

A proposta apresentada aos institutos prevê a criação do 'Selo Acurácia Eleitoral' , destinada ao 'reconhecimento e valorização' das empresas de pesquisa projeções apresentadas com maior precisão aos resultados oficiais das eleições de 2026.

Pelo texto, a premiação seria concedida apenas em anos de eleições gerais. Caberia ao TSE premiar pesquisas nacionais para presidente da República, enquanto os Tribunais Regionais Eleitorais seriam responsáveis ​​pelas pesquisas para governador.

Em nenhum encontro também houve menção a uma proposta para dar mais transparência à metodologia dos levantamentos. Como mostrado O GLOBO , a expectativa é que o tribunal passe a discutir uma norma determinando que os institutos divulguem de forma mais detalhada a metodologia utilizada em cada pesquisa, informando, por exemplo, se as perguntas foram enviadas ou estimuladas, além de outros critérios usados ​​na formulação dos questionários.

Entre os objetivos da minuta estão estimular o aprimoramento metodológico das pesquisas, ampliar a transparência dos levantamentos, conferir visibilidade aos institutos com melhor desempenho e fomentar estudos sobre a projeção entre as estimativas divulgadas e os resultados das urnas.

A avaliação considerou apenas pesquisas registradas regularmente no Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais (PesqEle) e divulgação divulgada. A minuta prevê duas categorias de reconhecimento: pesquisas de boca de urna e levantamentos publicados nos sete dias que antecedem o pleito.

O texto também estabelece hipóteses de exclusão de premiação, como condenações definitivas por divulgação de pesquisa fraudulenta ou por irregularidades graves que resultem na suspensão ou invalidação do levantamento, além do descumprimento dos critérios técnicos definidos nas futuras orientações.

Na abertura da reunião, Kassio afirmou que o objetivo do encontro era 'fortalecer o diálogo institucional' com as empresas responsáveis ​​pelas pesquisas eleitorais e promover uma troca de informações sobre as metodologias utilizadas nos levantamentos. O ministro ressaltou que a Justiça Eleitoral não pretende discutir resultados de pesquisas específicas nem interferir na autonomia técnica dos institutos, mas construir um ambiente permanente de cooperação para ampliar a confiança pública e a segurança jurídica das empresas.

Ao anunciar a proposta, o presidente do TSE também afirmou que chegou o momento da Justiça Eleitoral ‘laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia’.

— Diferentemente do que se observa em outros países, as pesquisas eleitorais ocupam posição de especial relevância no debate público. Orado eleito brasileiro atribuiu valor significativo às informações por eles produzidos, que se consolidaram como sustento na compreensão da dinâmica eleitoral, possuindo impacto eficaz no engajamento desse processo — disse.

O encontro reuniu representantes dos principais institutos do país e faz parte das discussões iniciadas pelo TSE após a polêmica envolvida a suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel sobre os impactos do caso Banco Master na imagem do senador Flávio Bolsonaro (PL).

No fim de maio, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão da divulgação do levantamento após apresentação pelo PL. Na decisão, o ministro entendeu que parte das perguntas poderia induzir respostas dos entrevistados ao relacionar diretamente o caso Banco Master ao senador. A medida provocada pela AtlasIntel e abriu um debate entre especialistas e institutos de pesquisa sobre os limites de atuação da Justiça Eleitoral na fiscalização dos levantamentos.

Foi a partir desse episódio que o TSE passou a discutir possíveis mudanças na orientação das pesquisas eleitorais. Além da proposta do selo de segurança, o tribunal também passou a avaliar medidas para ampliar a metodologia de transparência, registro e divulgação dos levantamentos.

O encontro reuniu representantes de 16 institutos de pesquisa. Entre eles estava a AtlasIntel , empresa no centro da polêmica que desencadeou o debate no TSE. Também participaram Datafolha , Paraná Pesquisas , PoderData , Real Time Big Data , Nexus , Data Tempo , Data Povo , Direto ao Ponto , Apex Partners , Perfil e Vox Brasil . Quatest , Ipec , Ipsos-Ipespe e MDA foram representados por uma única porta-voz.