Poder e Governo

Flávio muda estratégia após veto de visitas a Bolsonaro e deve ampliar ataques ao STF para reforçar tom de perseguição a três meses da eleição

Campanha recalcula plano do pré-candidato após decisão de Moraes e passa a defender endurecimento do discurso contra o ministro, deixando em segundo plano a consolidação de uma imagem mais moderada

Agência O Globo - 14/07/2026
Flávio muda estratégia após veto de visitas a Bolsonaro e deve ampliar ataques ao STF para reforçar tom de perseguição a três meses da eleição
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao pai levou a campanha do pré-candidato a recalcular a estratégia eleitoral. Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, aliados passaram a defensor que o senador suportou o discurso contra a Corte, em especial Moraes, e exploraram de forma mais intensa a narrativa de perseguição política ao bolsonarismo, numa mudança em relação ao tom mais moderado que vinha adotando desde que foi anunciado por Jair Bolsonaro (PL) como candidato do grupo à Presidência. O tom já foi visto na manifestação de Flávio na segunda à noite, em uma transmissão ao vivo após determinação judicial.

A avaliação é que o episódio pode abrir espaço para transformar uma derrota política em ativo eleitoral. Reservadamente, integrantes do PL afirmaram que Flávio passou a ser diretamente atingido pelas decisões de Moraes e, por isso, ganhou legitimidade para assumir um discurso que, até então, estava concentrado na figura do pai. Também pesa na avaliação desses interlocutores a expectativa de que críticas mais duras ao STF possam engajar uma militância bolsonarista, historicamente mobilizada por debates com a Corte.

Na avaliação do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), a decisão de Moraes pode ter um efeito positivo na campanha, se o tom for ajustado.

— Acho que isso pode vitimizar e deixar clara a perseguição a Bolsonaro e ajudar o Flávio — disse.

O entendimento também é compartilhado por outros correligionários e aliados, que apostam que a decisão de Moraes pode ser útil a Flávio dentro de um discurso “antissistema”. A mudança de estratégia ocorre após o ministro concluir que o senador determinou o direito de visita ao pai para obter uma carta cuja finalidade exclusiva seria sua divulgação nas redes sociais, burlando a concessão imposta ao ex-presidente de plataformas digitais, direta ou indiretamente.

Além de suspender as visitas por 90 dias — período que termina depois do primeiro turno da eleição —, o ministro determinou que a defesa declarasse, em 48 horas, se soubesse Bolsonaro que o texto seria publicado e encaminhou o caso ao procurador-geral eleitoral para apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada. A defesa de Flávio já afirmou que vai solicitar a decisão.

No sábado, pouco depois de deixar a residência onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, Flávio leu em uma live uma carta escrita pelo pai. No texto, o ex-presidente pede que apoiadores deixem de lado divergências e apoiem a pré-candidatura do filho, a quem apresenta como sua "porta-voz" e "a melhor opção" para disputar a Presidência.

Até então, a orientação da campanha era outra. Desde que foi anunciado por Bolsonaro como pré-candidato ao Planalto, Flávio impediu os ataques ao STF e evitou personificar críticas a ministros, numa tentativa de construir uma imagem mais moderada e ampliar seu alcance para além do eleitorado bolsonarista mais fiel.

A estratégia contrastou com o discurso adotado pelo ex-presidente e por membros do clã ao longo do ano passado, quando o julgamento da tentativa de golpe de Estado levou a uma escalada dos ataques à Corte, especialmente a Moraes.

Nas últimas semanas, porém, o senador começou a ensaiar uma retomada desse discurso. Em evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), no fim de junho, afirmou que o STF “parece mais uma delegacia de polícia do que uma Corte Constitucional” e criticou o que chamou de “canetadas” de ministros. Ainda assim, evitei citar nominalmente qualquer membro da Corte, o que passou a fazer a decisão que veta as visitas ao pai.

Segundo aliados, a decisão de Moraes acelerou essa mudança de postura. Na primeira manifestação pública após o despacho do ministro, durante uma live transmitida na segunda-feira, Flávio apresentou um tom mais duro do que o que vinha empregando desde o início da pré-campanha. Acusou Moraes de tentar "interferir nas eleições", questionando o prazo de 90 dias imposto pelo ministro, afirmou que o magistrado procura um pretexto para retirar Bolsonaro da prisão domiciliar e voltou a comparar o tratamento dado ao pai com o dispensado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando esteve preso.

A mudança também apareceu em nota divulgada pelo coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que classificou a decisão de Moraes como "autoritária" e "desproporcional", afirmou que ela tenta tornar Bolsonaro "incomunicável" e disse que parte do Supremo abandonou a posição de julgado institucional para atuar como adversário político da oposição.

Em outra nota, a assessoria de Flávio também divulgou um comunicado em que compara a situação de Bolsonaro com a de Lula durante o período em que esteve preso, lembrando que o petista enviou coleções de cartas, inclusive um pedido para Fernando Haddad (PT), e concedeu entrevistas sem sofrer, segundo a campanha, restrições semelhantes. A nota também sustenta que mensagens de conteúdo político-eleitoral circulares foram liberadas naquele período. Lula, na ocasião, estava preso em decorrência de uma denúncia na Lava-Jato. Bolsonaro foi condenado pela tentativa de golpe de Estado e conquistou o benefício da prisão domiciliar por questões de saúde. A medida foi concedida mediante restrições, como o veto ao uso de redes sociais, ainda que indiretamente.

Nos bastidores, os interlocutores afirmam que essa comparação deve se tornar uma das principais linhas do discurso da campanha. Além de Lula, aliados também citam a divulgação de cartas de Bolsonaro por Michelle Bolsonaro e, reservadamente, fazem comparações com outros presos que conseguem se comunicar publicamente para sustentar a tese de tratamento desigual por parte do Judiciário.

A expectativa de membros da campanha é que esse passe a ser o tom adotado pelo pré-candidato nos próximos meses, deixando em segundo plano a estratégia de moderação construída desde o lançamento de sua pré-candidatura e recolocando o confronto com o STF no centro da narrativa eleitoral bolsonarista.