Poder e Governo

Entrevista: 'Não gosto de ser chamada de Paulo Guedes de saia', diz Daniella Marques, cotada para vice de Flávio Bolsonaro

Conselheira econômica de candidato do PL diz que pesquisas mostram que a crise entre Michelle e enteado é ‘página virada’, sinaliza ajuste de gastos de 1,5% do PIB e propõe corresponsabilidade fiscal entre Poderes

Agência O Globo - 12/07/2026
Entrevista: 'Não gosto de ser chamada de Paulo Guedes de saia', diz Daniella Marques, cotada para vice de Flávio Bolsonaro
Daniella Marques - Foto: Reprodução / Agência Brasil

Cotada para vice do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e coordenadora da agenda econômica do senador, a administradora Daniella Marques responde a rótulo de “Paulo Guedes de saia”, frequentemente indicado nos bastidores da campanha. Auxiliar do ex-ministro da Economia, ela defende o legado do governo Bolsonaro, mas evita se comprometer com conceitos como o DDD (Desvincular, Desindexar e Desobrigar o orçamento). Daniella demonstra uma abordagem mais cautelosa em relação ao seu ex-chefe ao traçar o caminho que uma eventual nova gestão da oposição poderia seguir para ajustar as contas públicas: uma redução de gastos da ordem de 1,5% do PIB.

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Qual será a proposta fiscal de Flávio Bolsonaro?

O arcabouço fiscal tornou-se uma peça de ficção. Temos conversado sobre a criação de uma instância de governança, um conselho superior, onde traremos os outros Poderes para o debate orçamentário. Atualmente, os três Poderes ordenam despesas, mas apenas um — o Executivo — controla. O Congresso e o Judiciário têm suas próprias pautas de expansão de gastos. A boa vontade técnica, muitas vezes, não encontra respaldo político. É necessário estabelecer um diálogo e uma instância de governança, garantindo corresponsabilidade: todos devem ser participantes da solução, e não do problema.

E qual será a âncora fiscal: teto de gastos ou de dívida?

Ainda estamos integrando ideias. Mas envolve necessariamente algum mecanismo de controle da trajetória da dívida, revisão de gastos, especialmente privilégios e gastos tributários, além da reestruturação dos ativos da União e da modernização da gestão administrativa do governo. Há um estudo que aponta que uma redução de 1,5% do PIB poderia ser suficiente para reconquistar a confiança, com parte do ajuste sendo realizado pela própria trajetória de ancoragem das expectativas.

As pessoas chamam de 'Paulo Guedes de saia' na campanha. Você pretende retomar a ideia do ex-ministro da Economia de desvincular, desindexar e desobrigar o orçamento, que não avançou?

Não, não gosto de ser chamado de Paulo Guedes de saia. Eu sou eu, sou Dani . Meus talentos são complementares aos dele. O Paulo é um economista visionário, e eu sou um financeiro com vocação complementar. Meu papel hoje é mais de execução do que de formulação. É importante lembrar que enfrentamos uma pandemia, o que comprometeu parte da agenda de reformas. Contudo, quando olho para trás, vejo um legado inquestionável. Agora, o Lula está gastando como se ainda estivéssemos em uma pandemia para tentar se reeleger. É dramático.

Onde você vê os primeiros cortes de gastos? Algum programa social?

De alguma forma. Os gastos com assistência social não chegam a um terço da despesa com juros atualmente. O que precisamos é de um governo que tenha cuidado e controle da trajetória da dívida. Estamos focados não apenas em provar assistência, mas em tirar as pessoas da situação permanente de pobreza. Hoje, muitas pessoas querem abrir o próprio negócio. precisamos de menos burocracia e mais facilidade. Sobre os cortes, onde serão feitos, será necessário dialogar com o Congresso. Existem muitos penduricalhos, privilégios, gastos tributários e um desperdiço colossal de recursos em ativos da União, incluindo 44 estatais.

Vender bens da União foi uma das dificuldades do governo Bolsonaro. O que pretende fazer com esses ativos?

Aprendemos que é necessário um marco regulatório de governança. É crucial fortalecer a independência dos técnicos das carreiras e garantir a competência específica para a gestão desses ativos antes de pensar em privatização. Atualmente, os ativos da União são uma grande guarda-chuva de empregos, com mais de 500 assentos em conselhos remunerados e um aparelhamento das agências regulatórias. Necessitamos de um choque de ordem e profissionalização. Os ativos da União estão abandonados e sucateados. O estoque de dívida ativa da União ultrapassa R$ 3 trilhões, e esse ativo é corrigido pelo CDI, enquanto a União se financia acima do CDI. Isso é uma gestão de ativos e passivos muito deficiente. Por aí, existe uma monetização possível, de forma conservadora, entre R$ 150 bilhões e R$ 250 bilhões (com uma securitização da dívida ativa).

Com que finalidade esse dinheiro seria utilizado?

Para redução da dívida. Se a União for superendividada, qualquer empresa que vai reestruturar seu balanço reduz a alavancagem vendendo ativos e quitando dívidas.

Como você sugere lidar com as estatais?

Defendendo uma modernização na gestão. Privatização ou não é uma consequência. A lógica é não privatizar tudo, mas fortalecer a gestão e depois decidir quais ativos poderão ir ao mercado. Um exemplo são os Correios: é um monopólio de impostos que acaba por ter prejuízos bilionários. Isso demonstra um descaso completo na gestão. Não sei se eles são “privatizáveis” da forma como estão, mas certamente a eficiência do setor privado em entregas atribuídas a grande parte do mercado.

Qual será o papel da Caixa que você presidiu?

Nosso plano tem três pilares. Primeiro, arrume a casa. Segundo, focar em produtividade, investimento, competitividade e segurança jurídica. Por fim, mobilidade social. A Caixa deverá apoiar o pequeno empreendedor. Hoje, ela é um banco operador de política pública, e nossa intenção é transformá-la em um motor de prosperidade, conforto, crédito, orientação e inclusão financeira.

Flávio defendeu que, se houver uma tarifação, ela deverá ser implementada apenas após as eleições. Você concorda com ele?

Considere que quem deveria estar fazendo essa defesa (de não ter tarifaço) é o governo Lula. O que existe da parte de Flávio é uma construção de uma ponte de diálogo para cobrir uma deficiência e uma negligência desse governo em não realizar o que deveria.

Na hipótese de ser convidado para servir vice, você aceitaria?

É o Flávio quem decide. Meu intuito é contribuir para o projeto sob sua liderança. Ele já revelou meu nome publicamente, mas não estou preocupado com cargas ou posições.

Se o seu partido, os Republicanos, permanecerem neutros na eleição presidencial, você continuará na campanha de Flávio?

Com certeza. O fato de ser filiada não me impede de desempenhar uma função técnica. Quando me engajei na campanha, ofereci apoio ao meu projeto em que acredito, onde Flávio entendeu que posso ajudar mais.

Você relatou que a crise entre Flávio e Michelle já é uma “página virada”. Para quem?

Quando eu disse “página virada”, referia-me aos números das pesquisas. O que os dados mostram é que esta página está virada no Brasil. Temos um objetivo muito maior, que é resgatar o Brasil das mãos do PT, um objetivo que a própria Michelle também compartilha. Estamos na mesma linha.

Você trabalhou com Paulo Guedes, que teve divergências com Rogério Marinho durante o governo Bolsonaro. Como é a relação de vocês hoje?

Tenho uma relação extraordinária com ele (Marinho), baseada no respeito mútuo. Trabalhamos intensamente juntos na reforma da Previdência. Ninguém ganha o jogo sozinho, e acredito que Rogério é uma liderança extraordinária.