Poder e Governo

Documentos apontam que Vorcaro encomendou dossiê contra André Esteves a publicitário, diz jornal

Documentos apresentam informações pessoais e financeiras do adversário do dono do Master, diz 'O Estado de S. Paulo'

Agência O Globo - 10/07/2026
Documentos apontam que Vorcaro encomendou dossiê contra André Esteves a publicitário, diz jornal
Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução

O banqueiro Daniel Vorcaro encomendou ao publicitário Thiago Miranda dossiês com informações pessoais e monitoramento de André Esteves, do BTG Pactual. Os dois banqueiros eram concorrentes e desafetos. A informação é do jornal 'O Estado de S. Paulo'.

Malu Gaspar:

'Time' Thiago Miranda:

A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira uma operação para investigar a atuação do publicitário Thiago Miranda, que agiu ao lado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para intimidar pessoas encaradas como “obstáculos” do banqueiro, entre elas o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, e a jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO.

Miranda é ex-sócio do portal Leo Dias e dono da agência Mithi, que contratou influenciadores para uma operação de “marketing de guerrilha” nas redes sociais em favor do Master e contra a liquidação movida pelo BC.

De acordo com o jornal 'O Estado de S. Paulo', Vorcaro encomendou informações sobre Esteves ao longo do ano passado. Um dos documentos apresenta informações pessoais e financeiras do banqueiro do BTG, incluindo dados sensíveis e informações que são de acesso restrito aos órgãos de segurança.

Também havia documentos que rastreavam os vínculos de André Esteves com empresas. Ainda segundo a reportagem, pessoas que acompanham a investigação apontam que o material foi enviado diretamente para o celular de Vorcaro.

Disputa de banqueiros

Em março, a colunista Malu Gaspar revelou como o banqueiro enxergava sua disputa com o dono do BTG Pactual, André Esteves, que ele acusava nos bastidores de atuar para prejudicá-lo.

O histórico das conversas entre Vorcaro e a então namorada Martha Graeff traz um largo histórico de críticas e ressentimentos do executivo com Esteves. Em vários momentos, ele se queixa de matérias negativas que julga terem sido plantadas pelo rival, e chega a dizer que, nos treinos de luta, pensava em Esteves para render mais. Na última mensagem enviada a Moraes antes de ser preso, ele diz esperar “batidas do Esteves” no negócio que acabara de anunciar e que nunca se concretizaria, com o grupo Fictor.

No auge da repercussão do anúncio da compra da instituição pelo Banco BRB, anunciada no final de março, o banqueiro confidenciou a Martha no dia 31 que achava “muito ruim” a exposição provocada pela divulgação do negócio e reclamou sobre a quantidade de jornalistas “descendo o cacete”, mas admitiu que “não tinha o que fazer” a não ser “encarar essa”.

Ao saber disso, Martha pergunta de Vorcaro achava que “ia dar certo” a negociação com o BRB. Ele responde que sim e ela questiona sobre “o André” – que, naquele dia, tinha estado com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir o caso do BRB.

Quando Martha pergunta “E o André”, Vorcaro responde: “Não entro em guerra pra perder com o Senhor dos Exércitos”.

A expressão tem um duplo sentido. Por um lado, reflete a narrativa que Vorcaro repetia para políticos e interlocutores do mercado financeiro. O BTG tinha participado meses antes de uma discussão com o próprio BC e outros grandes bancos para comprar o Master por 1 real, que não foi adiante porque o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) não aceitou ficar com os passivos. Era uma discussão conjunta, mas Vorcaro dizia que Esteves o comandava.

Naquele momento, não só ele, mas vários CEOs e controladores de bancos procuraram o BC para falar contra o negócio com o BRB, já antecipando que o prejuízo caíria na conta do FGC, financiado principalmente pelos bancões -- Santander, Bradesco, Itaú e BTG. Para esses bancos, o BC devia partir para a liquidação para impedir que o rombo do fundo com o Master aumentasse.

Em sua versão, que Vorcaro repetia para a namorada, ele e o Master, um banco em trajetória ascendente, eram perseguidos. Esteves sempre ocupou, nessa descrição, a figura de expoente antagônico dessa briga renhida.

Mas a figura do Senhor dos Exércitos, usada neste episódio de forma jocosa, também remete ao vínculo da família Vorcaro com a Igreja Batista Lagoinha. A expressão é recorrente entre fiéis evangélicos para se referir a Deus, e o banqueiro já a utilizou em outros momentos com a namorada.