Poder e Governo

Aliados de Flávio veem bloqueio de bens de Valdemar como novo desafio na campanha

Interlocutores afirmam que decisão de Flávio Dino dificulta foco na candidatura presidencial do senador e reforça discurso de perseguição política

Agência O Globo - 10/07/2026
Aliados de Flávio veem bloqueio de bens de Valdemar como novo desafio na campanha
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de determinar o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, preocupa a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que teme uma nova frente de desgaste na corrida presidencial.

Integrantes da campanha avaliam que a medida atrapalha por ocorrer justamente no momento em que a legenda tenta concentrar esforços na construção de alianças e na consolidação de sua estratégia eleitoral para 2026. PL e Valdemar ainda não se manifestaram.

A avaliação entre integrantes da campanha é que, independentemente do mérito da investigação, o episódio tende a recolocar o partido no centro do noticiário por razões alheias à disputa eleitoral. Reservadamente, dirigentes reconhecem que a sucessão de crises enfrentadas pela legenda exige um esforço permanente de contenção de danos e afirmam que a decisão contra Valdemar amplia esse cenário justamente quando o PL buscava direcionar o debate para a candidatura de Flávio.

Nos bastidores, interlocutores lembram que a campanha ainda tenta absorver os efeitos de uma sequência de episódios que dominaram a agenda política nas últimas semanas. Entre eles estão a crise aberta com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que culminou em sua saída da presidência do PL Mulher e os questionamentos em torno da relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do caso Banco Master. Na avaliação desse grupo, o bloqueio dos bens de Valdemar pode criar uma nova frente de desgaste justamente quando a campanha tentava retomar o foco na agenda eleitoral.

Parte da cúpula da legenda também interpreta o momento da decisão como mais um fator de pressão sobre o partido. Dirigentes afirmam enxergar na medida uma tentativa de ampliar o desgaste político do PL em ano eleitoral e sustentam que o episódio reforça a narrativa de perseguição adotada pela legenda desde as investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A preocupação decorre, sobretudo, do papel desempenhado por Valdemar na condução do projeto eleitoral do PL. Além de presidir a legenda, é ele quem centraliza boa parte das negociações para formação de alianças, da montagem dos palanques estaduais e da estratégia nacional da campanha de Flávio. Integrantes do partido avaliam que qualquer investigação envolvendo o dirigente inevitavelmente produz reflexos sobre a candidatura presidencial.

Um exemplo dessa atuação ocorreu nesta semana, quando Valdemar se reuniu com os presidentes do Podemos e do Republicanos para discutir uma aproximação das legendas em torno do projeto presidencial de Flávio. O dirigente também tem participado diretamente das negociações para a composição de palanques estaduais considerados estratégicos pela campanha.

Apesar da preocupação, a orientação dentro do PL é evitar alterações na estratégia eleitoral. A expectativa é concentrar a reação na defesa jurídica de Valdemar, preservando a agenda política de Flávio. Um aliado resumiu o sentimento interno ao afirmar que qualquer investigação em ano eleitoral “sempre é complexa,” embora reconheça que o partido convive há anos com sucessivos episódios de desgaste político e judicial.

Na decisão desta sexta-feira, Dino afirmou que há “múltiplos indícios” de que Valdemar atuava na indicação e no redirecionamento de emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. Com base em mensagens extraídas de celulares apreendidos, planilhas e outros elementos reunidos pela Polícia Federal, o ministro sustentou que o presidente do PL teria exercido influência direta sobre a distribuição de recursos públicos, utilizando servidores da Câmara dos Deputados para operacionalizar as indicações e atribuindo formalmente as emendas a parlamentares para conferir aparência de legalidade ao procedimento.

Segundo Dino, a investigação aponta a existência de um “arranjo decisório paralelo” para a destinação das verbas, no qual assessores ligados ao esquema compilavam e organizavam planilhas com as emendas antes de encaminhá-las aos ministérios responsáveis pela liberação dos recursos. Para o ministro, os elementos reunidos indicam que Valdemar possuía autonomia para direcionar parte das emendas de comissão em razão de sua posição como presidente nacional do PL, mesmo sem ocupar cargo no Congresso.

Diante desse conjunto de indícios, Dino determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens de Valdemar. O valor corresponde ao montante de 21 emendas cuja indicação, segundo a investigação, teria passado pelo dirigente partidário e que tiveram a execução suspensa no curso das apurações.