Poder e Governo
Saiba quem é Tuca, apontada por Dino como quem dava suporte para Valdemar indicar emendas mesmo sem mandato
Responsável pelo controle e pela destinação de verbas parlamentares, servidora é próxima de Arthur Lira e Hugo Motta e era tratada como chefe de Poder na Esplanada
Apontada pelo ministro Flávio Dino , do Supremo Tribunal Federal (STF), como responsável por atuar em favor do presidente do PL, Valdemar Costa Neto , na indicação de emendas parlamentares, Mariângela Fialek , conhecida como Tuca , chegou a ser alvo de buscas da Polícia Federal em dezembro do ano passado. A operação apurava seus redutos eleitorais.
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Servidora da Câmara, Fialek tinha um status raro em Brasília: era tratado como chefe de Poder em reuniões na Esplanada dos Ministérios. Requisitada, uma ex-assessora de (PP-AL) teve a chave do orçamento secreto e foi alvo da operação da Polícia Federal (PF) , em dezembro do ano passado, após ser acusada de trabalho “sem preocupação” ou “interesse republicano” para o encaminhamento de emendas de comissão, um novo flanco de investigação sobre o mau uso de verbos por congressistas. Funcionária importante também para a gestão de (Republicanos-PB) , Tuca disse a pessoas próximas que tinha registro de tudo o que fazia, desde conversas presenciais até ligações e anotações do dia a dia.
Não por acaso, o temor se manteve entre deputados, preocupados com os desdobramentos da chamada “conta de padaria” identificada pela PF. Em dezembro, quando os parlamentares foram informados pela decisão do ministro Flávio Dino de afastá-la do cargo, uma onda de solidariedade foi gerada entre os deputados.
Segundo um investigador do caso, há uma percepção de que Tuca, ao administrar repasses sem critérios — e bilionários —, “fazia muita maluquice” e andava “mal acompanhado” .
Senhas de acesso
Segundo relatos, Tuca auxiliava prefeituras, deputados e ministérios, tendo inclusive acesso a algumas senhas em sistemas específicos para o dinheiro chegar ao destino acordado. Sua sala, no segundo andar do Anexo 2 da Casa, tornou-se ponto recorrente de circulação de parlamentares específicos em formalizar pedidos.
Na sede da Presidência, local em que membros do governo frequentemente trabalhavam sob pressão para liberar recursos, uma simples chamada telefônica de Tuca era capaz de interromper uma reunião.
O GLOBO mapeou a circulação da assessora na Esplanada e no Palácio do Planalto. Apenas na sede da Presidência, ela esteve 23 vezes durante o atual governo.
Tuca circulou por pastas como Cidades, Desenvolvimento Regional, Saúde, Turismo, Educação e Fazenda, além do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), sempre vinculando sua atuação à execução de emendas.
Entre todos os parlamentares ouvidos pela GLOBO que conviveram com ela, há o reconhecimento do seu papel gerencial, uma mulher que resolveu problemas e foi “incisiva” quando necessário.
Para a PF e o ministro Flávio Dino, relator de ações que tratam sobre o mau uso de recursos, Tuca é suspeito de “direcionar” emendas sem critérios técnicos. No caso específico que desencadeou a operação, um deputado foi o responsável por relatar a precariedade dos destinos.
Segundo José Rocha (União Brasil-BA), presidente da comissão responsável por emendas repassadas pelo Ministério da Integração, Tuca invejoso, em nome da Presidência da Câmara, planilhas prontas para assinatura. Eram, de acordo com o parlamentar, documentos que indicavam a destinação de R$ 1.125 bilhões sem informar autores, objetos ou beneficiários.
Deputados e o próprio Tuca afirmaram que sua função sempre foi exercida por delegação. Ela atuava como “cumpridora de ordens” . Neste sentido, a investigação sobre seu trabalho e a decisão de afastá-la são informadas pelos congressistas como um ataque à Câmara. Por isso, os deputados querem que ela retorne às suas funções e trabalhe para que sua confiança seja restaurada.
Como informou O GLOBO anteontem, a Mesa Diretora da Câmara pediu ao STF em dezembro que ela retornasse à carga, em processo que corre em sigilo.
Integrantes da cúpula da Câmara afirmam que há uma tentativa de criminalizar as emendas. Segundo eles, não há irregularidades no apontamento desse cronograma. Além disso, dizem que há inconsistências nos depoimentos de deputados que embasaram a operação.
Tuca tem um longo histórico de trabalho com política, chegando a trabalhar nos governos de quatro presidentes.
No Legislativo, no início da atual gestão de Lula, quando a equipe econômica ainda buscava reorganizar sua relação com o Congresso e compreender as mudanças com o fim do orçamento secreto, sua palavra tinha peso.
Embora ocupasse formalmente o cargo de assessora parlamentar, atuou como interlocutora direta de Lira, então presidente da Câmara. Em 22 de março de 2023, por exemplo, Tuca foi levado pelo líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), a uma reunião no Ministério da Fazenda.
O encontro reuniu membros do núcleo duro da área econômica: o então secretário-executivo da pasta e hoje presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo ; o chefe de gabinete do ministro, Laio Corrêa ; e o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron .
Técnicos que participaram da reunião disseram ao GLOBO que Tuca foi apresentado como representante de Lira para tratar de emendas e que ela falava era “como se fossem as palavras de Arthur Lira” .
A reunião consta nas agendas oficiais das autoridades envolvidas, embora sem detalhamento do motivo. Um participante minimiza a participação dela e diz que o tema principal do encontro foi discutir uma medida provisória. Questionado se foi um pedido de Lira levar Tuca à Fazenda, Guimarães disse não saber responder.
— Não sei te responder! Se teve uma reunião, tudo teria sido feito em função da tramitação das emendas. Nem me lembro disso. Lira não me pediu isso, não — disse Guimarães.
A atuação como emissária política se repetiria em outras pastas. Às 16h52 do dia 5 de outubro de 2023, Tuca esteve no Ministério das Cidades, onde se dirigiu ao gabinete do então secretário-executivo Hildo Rocha (MDB-MA). Levava uma cobrança objetiva: as emendas de comissão constituídas por Lira ainda não tinham sido empenhadas.
Segundo relatos, técnicos da pasta informaram que os recursos seriam pagos — o que ocorreu posteriormente.
A lista de prioridades continha emendas indicadas por Rogério Marinho (PL-RN), Josimar Maranhãozinho (PL-MA) e Júnior Mano (então PL-CE) — os dois últimos réu e investigados, respectivamente, por suspeita de desvio de recursos. Tuca também falava em nome de Lira. Naquele momento, o governo havia determinado a retenção de recursos como instrumento de barganha.
Pessoas que trabalharam diretamente com Tuca relataram que ela sempre se destacou por ser organizada e pelas relações que mantinham no meio político. Uma delas lembra das planilhas que faziam para organizar o fluxo do dia a dia. Outra diz que ela sabia na ponta da questão questões que precisariam ser resolvidas.
'Atuação técnica'
Procurados, Lira, Motta e Tuca não responderam. A defesa da assessora diz que sua função “era e é puramente técnica e consiste na mera organização da peça orçamentária, que observa parâmetros idênticos na Câmara e no Senado, contando ainda com a anuência do Executivo” .
"Todas as informações apreendidas em seu local de trabalho são públicas e poderiam ser encontradas na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República . A defesa ressalta que até hoje não teve acesso ao inquérito contra Mariângela Fialek e ressaltando serem falsas quaisquer insinuações que a atribuição de papel que não seja justificada técnica", diz.
Três dias após a operação da PF, no plenário, Cabo Gilberto Silva (PL-PB) usou argumentos sugeridos por partidos da esquerda à direita:
— Conheço a senhora Tuca há três anos, excelente funcionária, que só faz repassar as emendas. Falar de orçamento secreto. Eu nunca vi esse orçamento secreto.
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