Poder e Governo
Pivô da crise afaga Flávio e Michelle em vídeo ao confirmar ausência em ato no Ceará
Priscila Costa embarca para encontro de mulheres conservadoras em Portugal, enquanto pré-candidato à Presidência lança outro pré-candidato ao Senado no estado, em acordo criticado por ex-primeira-dama
A vereadora Priscila Costa (PL), pivô da crise entre Michelle Bolsonaro (PL) e Flávio Bolsonaro (PL), publicou um vídeo em que faz acenos à ex-primeira-dama e ao senador, enquanto confirma a ausência no ato do pré-candidato à Presidência no estado onde se iniciou o racha familiar. Flávio viaja nesta sexta-feira para lá, orientado a não fazer referências públicas aos atritos com a madrasta, importante cabo eleitoral junto a mulheres e evangélicos.
Presidente do PL no Ceará contraria Michelle
Flávio encarregou Priscila, que era vice de Michelle no PL Mulher, de coordenar a mobilização feminina para o evento. Mas a própria vereadora não estará no ato de lançamento, em Fortaleza, da pré-candidatura ao Senado de Alcides Fernandes (PL), pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE). Michelle sempre defendeu que Priscila compusesse a chapa majoritária e criticou a aliança do PL no estado com Ciro Gomes (PSDB). Em nota, André Fernandes contrariou a primeira-dama e disse ainda que a decisão de apoiar o pré-candidato ao governo estadual foi tomada em conjunto.
No vídeo, Priscila afirma que segue para uma "missão internacional": a participação no encontro de Mulheres Conservadoras em Portugal, ao lado de parlamentares de diferentes países da Europa.
— Chegando ao aeroporto para uma missão internacional. Já abracei meus pais, já celebrei ao telefone com a Michelle Bolsonaro a alegria de participar [do encontro] — destacou ela, em referência explícita à aliada, antes de citar o pré-candidato à Presidência. — Mas agora a minha responsabilidade ficou dobrada. Isso porque, agora, Flávio Bolsonaro me entrega uma importante missão.
Na sequência, Priscila acrescenta ao vídeo imagens do próprio senador, nas quais ele destaca a volta de agenda nos Estados Unidos, onde tentou conter os desgastes pela associação dos Bolsonaros às ameaças de uma nova taxação americana sobre produtos brasileiros, e incumbe Priscila da "missão":
— Você está decolando para o exterior para cumprir essa missão nobre também, em meu nome, para defender a vida. Você já sabe, a gente assumiu um compromisso de, assim que voltarmos à Presidência da República, vamos retomar o maior pacto de proteção da vida de bebês desde o ventre e assim a gente vai combater o avanço do aborto no Brasil, cuidando da vida de cada nascituro — afirma.
Flávio disse que, caso seja eleito, colocará o Brasil de volta no Pacto de Genebra para "desfazer as besteiras" que Lula fez durante o mandato. Em 2023, em mais um passo para se distanciar da política externa bolsonarista, foi criado um grupo em 2020 pelo presidente americano, Donald Trump, em uma declaração coautorada por Jair Bolsonaro, para tentar barrar o avanço de pautas sobre direitos reprodutivos em fóruns multilaterais. A justificativa era de que votações sobre o tema abririam caminho para a legalização do aborto.
Como mostrou O GLOBO, enquanto ele concentra o discurso em temas considerados prioritários para a pré-campanha, como segurança pública, críticas ao governo Lula, especialmente no Nordeste, e propostas voltadas ao eleitorado feminino.
Segundo relatos feitos à reportagem, Priscila ficou responsável por organizar a participação das mulheres no ato no Ceará, gesto interpretado por aliados como uma tentativa de demonstrar que o rompimento com Michelle não contaminou toda a rede política construída pela ex-primeira-dama.
O gesto também busca reduzir um desgaste simbólico. Foi justamente a candidatura de Priscila ao Senado que desencadeou o rompimento público entre Michelle e Flávio. A ex-primeira-dama defendia que a vereadora fosse a candidata do PL à vaga, enquanto o senador conduziu as negociações que resultaram no apoio do partido à pré-candidatura de Alcides Fernandes, como parte do acordo firmado com o PSDB do ex-governador Ciro Gomes no estado.
Apesar da tentativa de pacificação, o impasse político que deu origem à crise continua sem solução. Priscila mantém a pré-candidatura ao Senado e seus aliados defendem que o PL preserve seu nome na disputa até o prazo final para registro das candidaturas. O grupo argumenta que o acordo costurado no ano passado previa duas candidaturas do partido ao Senado e resiste à decisão de abrir uma das vagas para acomodar a aliança com o PSDB. A palavra final caberá ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Em contrapartida, aliados de Flávio afirmam que ela deve concorrer à Câmara dos Deputados.
Mais do que lançar oficialmente as candidaturas do partido à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa do Ceará, o ato passou a ser tratado pela campanha como um teste para medir se o PL conseguirá virar a página da crise aberta entre Flávio e Michelle justamente no estado onde ela começou. A orientação transmitida ao senador é evitar qualquer comentário sobre o conflito e reforçar a imagem de unidade da legenda.
Michelle não deve ir ao Ceará
A indefinição também alcançou o evento desta sexta-feira. Inicialmente, a expectativa era que Michelle e Flávio dividissem o mesmo palanque no lançamento das candidaturas do partido no Ceará. Depois do rompimento, porém, a presença da ex-primeira-dama passou a ser considerada improvável. Até esta quinta-feira, interlocutores afirmavam que ela ainda não havia cancelado oficialmente a agenda, mas reconheciam que a tendência era de ausência para evitar novos desgastes.
A divergência extrapolou o Ceará depois que Michelle publicou um vídeo acusando o grupo político de André Fernandes de trabalhar para retirar Priscila da disputa e questionou por que a vaga não havia sido cedida pelo próprio pai do deputado. Na mesma gravação, afirmou ter sido humilhada e desrespeitada por Flávio.
Dias depois, Michelle anunciou sua saída da presidência do PL Mulher, aprofundando a crise entre os dois. Desde então, aliados do senador passaram a trabalhar para reduzir o desgaste provocado pelo episódio e reconstruir pontes com parte das lideranças femininas ligadas à ex-primeira-dama.
Embora seja considerada uma das principais aliadas de Michelle e ocupe a vice-presidência nacional do PL Mulher, Priscila tem adotado um discurso de pacificação. Na semana passada, publicou um vídeo afirmando que não iria "alimentar qualquer tipo de conflito" e defendeu a união do campo conservador.
— Quem luta pela mesma causa, mesmo que em algum momento possa machucar ou se ferir, não pode ficar enfraquecido no meio do caminho enquanto o verdadeiro inimigo se fortalece. Agora precisamos unir forças — afirmou.
Na mesma manifestação, a vereadora elogiou Michelle e a liderança exercida por ela à frente do PL Mulher, mas ressaltou que Flávio tem a responsabilidade de conduzir "esse momento da nação de reconstruir o Brasil".
A postura já havia ficado evidente dias antes, quando Priscila participou da reunião promovida por Flávio com parlamentares e lideranças femininas em Brasília, mesmo após Michelle recusar o convite para comparecer ao encontro. No evento, a vereadora afirmou que o governo Jair Bolsonaro deixou um legado na defesa das mulheres e declarou que Flávio daria continuidade a esse trabalho.
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