Poder e Governo

Aliados aconselham Flávio a adiar escolha de candidato ao Senado no Rio após operações da PF impactarem a chapa

Estratégia busca reduzir tempo de exposição do futuro indicado antes do registro das candidaturas, mas amplia irritação no partido às vésperas das convenções

Agência O Globo - 09/07/2026
Aliados aconselham Flávio a adiar escolha de candidato ao Senado no Rio após operações da PF impactarem a chapa
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

Nos poucos dias do início das convenções partidárias, o senador e presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a ser convidado por aliados a adiar ao máximo a definição do candidato do partido ao Senado no Rio. A recomendação, segundos interlocutores ouvidos pelo GLOBO , surgiu após a sequência de operações da Polícia Federal que atingiu nomes cotados para compor a chapa no estado e tem como objetivo reduzir o período de exposição do futuro indicado antes do registro oficial das candidaturas.

A avaliação é que antecipar o anúncio criaria um risco político necessário. Em menos de dois meses, três nomes ligados à montagem da chapa foram atingidos por investigações da Polícia Federal. O primeiro foi o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), inicialmente escolhido por Flávio para disputar uma das vagas ao Senado. Ele desistiu da candidatura depois de ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, posteriormente, virou alvo de uma operação da PF que investigou suspeitas de fraude no setor de combustíveis e de outra que investiga os transportes do RioPrevidência no Banco Master , de Daniel Vorcaro .

Na última semana, foi uma vez o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), indicado pela federação União Brasil-PP para ocupar uma outra vaga na chapa. Alvo da Operação Unha e Carne , ele acabou preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil calibre 5,56 em seu carro durante o cumprimento de mandatos. A sequência de episódios levou dirigentes do PL a defensor que o próximo escolhido será anunciado apenas mais próximo do prazo final para o registro das candidaturas.

O terceiro caso envolve o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), que figurava entre os favoritos para substituir Castro até perder força após o avanço da investigação sobre um suposto esquema de desvio de cotas parlamentares. Embora não tenha sido alvo da nova fase da operação deflagrada na semana passada, o investigador passou a apurar a origem dos R$ 468 mil apreendidos em dinheiro vivo em um imóvel ligado ao deputado, além da suspeita de tentativa de aparência de legalidade aos recursos.

Nos bastidores, integrantes do partido afirmam que o nome agora significaria submetê-lo a semanas de desgaste antes mesmo do início oficial da campanha.

A cautela também estendeu o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), um dos principais cotados para disputar a vaga. Embora não tenha sido alvo dos desdobramentos mais recentes da investigação sobre cotas parlamentares, Jordy foi atingido pela operação deflagrada pela Polícia Federal em dezembro do ano passado. Hoje, ele disputa a indicação com o senador Carlos Portinho (PL-RJ), que, segundo interlocutor da campanha, aparece como favorito.

A estratégia, porém, está longe de ser consenso dentro do partido. Integrantes do PL autorizam que adiar a definição reduz o risco de desgaste dos escolhidos, mas afirmam que a demora vem aumentando a insatisfação entre dirigentes estaduais, parlamentares e pré-candidatos, que cobram uma definição justamente quando o calendário eleitoral entra na reta decisiva.

O caso do Rio tornou-se o principal símbolo desse impasse. Flávio pretendia anunciar o substituto de Cláudio Castro na última sexta-feira, mas voltou a adiar a decisão. Agora, interlocutores defendem que a escolha ocorra apenas durante a convenção nacional do PL, marcada para 25 de julho, ou até mesmo posteriormente.

Pela legislação eleitoral, as convenções partidárias poderão ser realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, enquanto o prazo para registro das candidaturas termina em 15 de agosto. Na prática, mesmo realizando a convenção em 25 de julho, o PL ainda terá cerca de três semanas para concluir negociações e formalizar a chapa na Justiça Eleitoral .

Esse intervalo, na avaliação dos aliados de Flávio, permite manter as negociações abertas sem comprometer os prazos legais. Reservadamente, porém, os dirigentes do partido admitem que chegar à convenção sem um nome definido para uma das vagas ao Senado transmite uma imagem de indefinição justamente em um dos estados considerados estratégicos para a campanha presidencial.

O desconforto não se limita ao Rio. Nas últimas semanas, os dirigentes fizeram a reclamação da demora para arbitrar disputas locais e fechar palanques considerados prioritários para a candidatura de Flávio ao Planalto. A avaliação da parte da cúpula do partido é que as decisões essenciais vêm sendo sucessivamente adiadas, dificultando a organização das campanhas às vésperas do início oficial da corrida eleitoral.

Os interlocutores da campanha confirmaram que parte dessa lentidão decorre da complexidade das negociações e da necessidade de ajuste de interesses de diferentes partidos aliados. Também admito que Jair Bolsonaro continua sendo consultado antes das decisões finais e que diversas definições foram colocadas em compasso de espera diante da expectativa pela lista de candidatos ao Senado e aos governos estaduais apoiados pelo ex-presidente.