Poder e Governo
Alcolumbre critica governo após declarações de líder do PT e aumenta impasse com o Planalto
Pedro Uczai ameaçou tratar presidente do Senado como 'inimigo dos trabalhadores' se PEC da 6x1 não avançar
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), apresentou a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), para se queixar de fala do PT na Câmara, que afirmou que o senador vai perder apoio se não pautar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com uma jornada de trabalho 6x1.
Prioridade número um do governo federal, a proposta, entretanto, não avançou no Senado.
Alcolumbre sinalizou aos auxiliares que esses temas só deverão avançar após uma conversa com o presidente, o que não ocorreu nem tem previsão de ocorrer no curto prazo, segundo aliados do petista. Os dois se afastaram após o Senado rejeitar a indicação de André Mendonça para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em articulação capitaneada por Alcolumbre.
Uczai afirmou nesta terça-feira que o PT dará um "trégua" a Alcolumbre até a próxima semana para que a proposta seja despachada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), primeiro passo no rito regimental para que a proposta avance.
— Nós vamos dar uma trégua para o Davi Alcolumbre para ele pegar a pasta e mandar para a Comissão de Constituição e Justiça. Até a semana que vem, se ele não encaminhar para a Comissão de Justiça, nós vamos elegê-lo como inimigo também. Inimigo dos trabalhadores e da pauta — afirmou o deputado.
Horas depois, Alcolumbre se manifestou. Em nota divulgada pela Presidência do Senado, o parlamentar afirmou que "esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado" e que a definição da pauta e da tramitação das questões "não se submete a ultimatos ou pressões político-eleitorais".
Em seu posicionamento, o senador reafirmou que a definição da pauta e da tramitação das questões é prerrogativa constitucional da Presidência e "não se submete a ultimatos ou pressões político-eleitorais". Ele disse ainda que qualquer tentativa de estranhar a condução dos trabalhos da Casa representa frente à independência entre os Poderes.
Segundo relatos, Alcolumbre telefonou para Teresa Leitão. A conversa seguiu os mesmos termos explicitados pelo presidente na nota. O parlamentar já vem se queixando — nos bastidores e publicamente — dos ataques e pressões que têm recebido de governos e da militância petista.
A declaração do deputado petista repercutiu mal até mesmo entre aliados do parlamentar. Integrantes do PT no Senado se queixaram em conversas reservadas dessa postura, afirmando que todos estão presentes para que o PEC avance e que esse tipo de comportamento só atrapalha. A avaliação é que já há um ruído na relação do Planalto com a cúpula do Senado e que é preciso evitar um maior tensionamento.
Um senador do PT afirma que é possível impulsionar o andamento da PEC e defender uma pauta sem críticas diretas à figura de Alcolumbre. Ele citou como exemplo a mobilização que levou à aprovação da reforma da Previdência em 2019. Naquele momento, diz, não houve críticas diretamente ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (Republicanos-PB), mas ao projeto como um todo, mobilizando a sociedade civil e enterrando uma proposta considerada ruim pelos parlamentares.
Essa não é a primeira vez que Alcolumbre se queixa de ataques de governistas e da militância dirigida a ele. No fim de junho, o presidente do Senado criticou uma opinião pública negativa , sem citar nominalmente a quem se referia. No mesmo dia, mais cedo, o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral da Presidência) havia cobrado o andamento da proposta.
— Eu tenho um discurso de uma autoridade importante do Brasil que disse que a PEC da escala 6x1 precisa ser deliberada agora, antes da eleição, porque ela vai servir para o calendário eleitoral. Pode isso? Não pode isso — afirmou Alcolumbre.
Governistas autorizaram que a tramitação da PEC 6x1 no Senado deverá ser retomada a partir de agosto. Um membro do governo que despacha no Palácio do Planalto diz que não há garantias neste momento de que Alcolumbre dê início ao rito regimental antes das eleições, em outubro. Ele afirma que o presidente do Senado possui propostas de interesse do Executivo que estão paradas no Senado.
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