Poder e Governo

Comissão da Câmara aprova convocação do chefe do Itamaraty após documento citar risco de ação militar dos EUA no Brasil

Mauro Vieira deverá prestar esclarecimentos ao colegiado de Relações Exteriores e de Defesa Nacional sobre documento em que governo aponta riscos à soberania brasileira

Agência O Globo - 08/07/2026
Comissão da Câmara aprova convocação do chefe do Itamaraty após documento citar risco de ação militar dos EUA no Brasil
Comissão - Foto: Renato Araújo / Câmara dos Deputados

A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados (Creden) aprovou nesta quarta-feira a convocação do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para prestar esclarecimentos sobre um documento do Itamaraty que afirmou à Câmara que a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode abrir margem para o uso da força militar americana em território brasileiro.

Com a aprovação do requerimento, Mauro Vieira deverá comparecer ao colegiado para explicar o posicionamento do governo brasileiro e o conteúdo do documento encaminhado pela pasta à Câmara.

O requerimento foi apresentado pelo deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), autor do pedido de informações que deu origem à resposta do Itamaraty. Ao defender a convocação, o parlamentar criticou a atuação da diplomacia brasileira.

— Diante da fragilidade e da precariedade das respostas do Itamaraty, nós protocolamos a convocação do ministro Mauro Vieira para que ele possa vir a esta Casa de forma objetiva — afirmou na terça-feira, ao anunciar a apresentação do requerimento.

Além da convocação, Evair disse estar em busca do número de assinaturas necessário para a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) destinada a investigar a atuação do Itamaraty em relação ao tratamento dado a organizações terroristas.

— É necessário instalarmos uma CPMI, que nós estamos coletando as assinaturas, para que possamos investigar qual é a razão efetiva de o Itamaraty não liderar o enfrentamento de traficantes e narcoterroristas — disse.

O pedido de convocação foi apresentado após o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) informar à Câmara que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas pode gerar impactos à soberania brasileira.

Em resposta ao requerimento de Evair, o Itamaraty afirmou que a medida “não trará benefícios concretos para a cooperação internacional entre EUA e Brasil no enfrentamento ao crime organizado” e poderá produzir efeitos “tanto no plano econômico quanto no da soberania nacional”.

O documento sustenta que a legislação antiterrorismo americana permite a adoção de medidas administrativas e judiciais com efeitos extraterritoriais e alerta que a classificação das facções poderá atingir pessoas, empresas e organizações brasileiras, inclusive aquelas sem vínculos diretos com os Estados Unidos ou cuja relação com os grupos seja indireta. O ministério também afirma que, em um cenário extremo, “há a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro”.

Na avaliação do Itamaraty, classificar organizações criminosas como terroristas “não apenas é inadequado do ponto de vista jurídico, como tampouco acrescenta benefícios para a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional” e representa “riscos concretos à soberania nacional”.

A manifestação foi encaminhada à Câmara pouco mais de um mês depois de o governo americano anunciar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT, na sigla em inglês). O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, também informou que as facções passariam a ser enquadradas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), classificação em vigor desde 5 de junho.

Segundo o governo brasileiro, Brasil e Estados Unidos já dispõem de instrumentos considerados eficazes para combater organizações criminosas transnacionais, como acordos de assistência jurídica, compartilhamento de inteligência, cooperação policial e mecanismos de combate à lavagem de dinheiro, tornando desnecessária a classificação das facções como organizações terroristas para fortalecer a atuação conjunta.