Poder e Governo

Flávio chama buscas da PF de 'cortina de fumaça' e aliados veem operação como tentativa de constranger Bolsonaro

Senador afirma que diligência tentou 'dividir o noticiário' enquanto cumpre agenda nos EUA; Moraes diz que busca foi necessária após defesa apresentar informações divergentes sobre armas do ex-presidente

Agência O Globo - 08/07/2026
Flávio chama buscas da PF de 'cortina de fumaça' e aliados veem operação como tentativa de constranger Bolsonaro
Flávio Bolsonaro - Foto: © Folhapress / Mateus Bonomi

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta quarta-feira que a operação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal na residência do ex-presidente Jair Bolsonaro foi uma "clara tentativa de criar uma cortina de fumaça" para "dividir o noticiário" enquanto ele cumpre agenda nos Estados Unidos em busca de apoio contra o tarifaço anunciado pelo governo americano. Entre aliados do ex-presidente, a avaliação predominante é que a diligência teve como objetivo principal constranger Bolsonaro.

— Mais uma comprovação de como estamos incomodando o sistema. A todo momento, na mão grande, estão tentando interferir nas eleições. Hoje pela manhã, o presidente Bolsonaro acabou de tomar outra busca e apreensão. Uma clara tentativa de criar uma cortina de fumaça neste momento em que estou trabalhando pelo Brasil, para dividir o noticiário — afirmou Flávio durante a transmissão.

A busca foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes , do Supremo Tribunal Federal (STF), após a defesa apresentar informações divergentes sobre o paradeiro das armas registradas em nome do ex-presidente. Na decisão, o ministro afirmou que a discrepância entre as informações já constantes no processo e aquelas enviadas posteriormente pelos advogados tornou-se uma diligência "imprescindível" para garantir o cumprimento da ordem de entrega integral dos armamentos e afastar dúvidas sobre a permanência de armas sob posse direta ou indireta de Bolsonaro.

Moraes citou especialmente o caso da espigarda Maestro Arms Company . Segundo ele, a defesa alterou a versão inicialmente apresentada sobre a localização da arma e não apresentou documentos capazes de comprovar sua efetiva custódia, a identidade de quem mantém a arma sob guarda e a regularidade dessa situação. Para o ministro, as inconsistências justificavam a realização da busca para verificar se ainda havia armas, munições, acessórios ou documentos de registro na residência do ex-presidente.

Segundo a defesa, agentes da Polícia Federal chegaram ao condomínio onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por volta das 7h e encontrado no local até um pouco antes das 8h30. Os policiais cumpriram o mandato para localizar eventualmente armas, munições, acessórios e documentos de registro ainda em posse do ex-presidente, mas deixaram a residência sem apreender qualquer material.

Nos bastidores, aliados alegaram que a operação causou surpresa porque, nas últimas 48 horas, os advogados fizeram protocoloado novas petições detalhando o paradeiro das dez armas registradas em nome de Bolsonaro, ainda que após retificarem informações prestadas anteriormente ao Supremo. A avaliação predominante é que, diante dos esclarecimentos apresentados, a diligência especialmente produzida teria resultado diferente daquele selecionado nesta quarta-feira.

O senador também criticou a decisão de Moraes e afirmou que a defesa vinha respondendo a todas as obrigações feitas pelo Supremo.

— Moraes oficiou a defesa do meu pai para informar as outras armas que estão no nome do presidente Bolsonaro e, desde a semana passada, a defesa está informando, com tranquilidade e documentos. Hoje ele faz uma busca e apreensão para saber se a defesa estava pensando ou não. Este é o tratamento. Não tem mais boa-fé ou princípio da presunção de inocência — disse.

Um fato foi compartilhado por parlamentares próximos ao ex-presidente. Para o deputado Carlos Jordy (PL-RJ), a diligência teve caráter de exposição pública.

— É mais uma tentativa de humilhação e constrangimento — afirmou.

O deputado Evair de Melo (Republicanos-ES) classificou a operação como uma "espetacularização".

— Mais uma espetacularização. Incrível a criatividade. Isso precisa ter um fim. Sem argumentos que sustentam as reportagens, todo dia uma nova agonia produzida — disse.

Na mesma linha, o líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), afirmou que a busca foi “totalmente desnecessária”.

— Mais uma arbitrariedade — declarou.

A operação ocorreu um dia depois de uma comunicação de defesa ao STF o paradeiro das duas armas que ainda não foram localizadas pela Polícia Federal. Segundo os advogados, uma espingarda permanece sob guarda de uma empresa importadora de artigos bélicos em Caxias do Sul (RS), de onde nunca teria sido retirada, enquanto uma pistola Glock está sob custódia da Polícia Civil do Distrito Federal após ter sido apreendida em uma blitz realizada em junho.

Ao todo, dez armas estão registradas em nome de Bolsonaro. Inicialmente, a defesa informou ao Supremo que oito delas estavam sob custódia do Exército e outras duas já haviam sido entregues à Polícia Federal em 2023. Depois que o Exército informou possuir apenas seis armas, os advogados retificaram as informações e esclareceram que a espingarda encontrada na importadora no Rio Grande do Sul e que a pistola Glock está sob responsabilidade da Polícia Civil do Distrito Federal.

Nos bastidores, os dirigentes do PL afirmaram que o episódio deverá ser explorado para reforçar o discurso de que Bolsonaro vem cumprindo todas as determinações judiciais impostas pelo Supremo. Ao mesmo tempo, a orientação da cúpula do partido é evitar manifestações que possam ser interpretadas como frente às decisões da Corte e concentrar-se nas críticas na necessidade e na proporcionalidade da diligência realizada nesta quarta-feira.