Poder e Governo

Estratégia confusa e ‘desorganização’: enquanto Flávio viaja aos EUA, aliados criticam demora para definir palanques

Dirigentes do PL reclamam da lentidão para fechar chapas e avaliam que pré-campanha chega próximo das convenções sem decisões concretas

Agência O Globo - 07/07/2026
Estratégia confusa e ‘desorganização’: enquanto Flávio viaja aos EUA, aliados criticam demora para definir palanques
Flávio Bolsonaro - Foto: © AP Photo / Eraldo Peres

A poucos dias do início das convenções partidárias, a viagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos ocorre em meio ao aumento da pressão dentro do próprio PL. Enquanto o senador participa nesta terça-feira de uma audiência pública sobre a proposta americana de sobretaxar produtos brasileiros e cumprir compromissos políticos em Washington, dirigentes estaduais, parlamentares e pré-candidatos reclamam da demora para definir candidaturas, arbitrar disputas locais e consolidar palanques considerados estratégicos para a campanha presidencial.

O incômodo não está relacionado à agenda internacional em si, visto por aliados como importante para fortalecer a aproximação de Flávio com o governo Donald Trump e com as lideranças do Partido Republicano. Nesta terça-feira, o senador participou da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), última etapa da investigação comercial aberta contra o Brasil antes da decisão para 15 de julho sobre a aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros.

A expectativa é que Flávio aproveite os cinco minutos de apresentação para defender a suspensão da medida, retire o Pix do centro de disputa comercial e abra espaço para uma negociação entre os dois países.

A avaliação dos dirigentes do partido, porém, é que a viagem ocorre justamente quando decisões consideradas urgentes começam pendentes no Brasil. Para esse grupo, a campanha chega à reta decisiva ainda sem transformar meses de negociação em definições concretas, dificultando a organização das estruturas estaduais justamente quando o calendário eleitoral exige que as articulações deem lugar à campanha propriamente dita.

Dirigentes passaram a descrever a condução da pré-campanha como "confusa", "lenta" e, em alguns casos, "desorganizada". A percepção é que a cooperação nacional perdeu capacidade de responder rapidamente às demandas dos estados e passou a tomar decisões consideradas essenciais para que os candidatos ao Senado, à Câmara e aos governos estaduais possam estruturar suas campanhas.

O caso que melhor simboliza esse ambiente é o do Rio de Janeiro . Integrantes do partido aguardavam que Flávio anunciasse na última sexta-feira o nome que disputará uma das vagas ao Senado pela legenda, encerrando meses de especulações envolvendo Sóstenes Cavalcante , Carlos Portinho e Carlos Jordy . O anúncio, porém, foi novamente adiado, ampliando a satisfação entre os detalhes.

Um dos envolvidos nas negociações afirmou ao GLOBO já ter perdido as esperanças de quando sairá o anúncio. A avaliação deste interlocutor é de que Flávio está enrolado e não sabe o que faz. Outro membro da cúpula do PL fluminense afirmou não entender a estratégia atual da presidência.

A insatisfação, porém, já deixou de ficar restrita ao Rio. A menos dias das convenções, a campanha presidencial ainda convive com impasses em pelo menos dez palanques estaduais considerados prioritários pela direção nacional do partido.

No Distrito Federal , a chapa ao Senado continua indefinida porque Michelle Bolsonaro ainda não oficializou se disputará ou não a eleição. Embora Valdemar Costa Neto já tenha começado a trabalhar com um plano alternativo e relatado publicamente o senador Izalci Lucas e a deputada Bia Kicis como possíveis candidatos, a indefinição da ex-primeira-dama impede o fechamento da composição e mantém em compasso de espera lideranças que disputam espaço na majoritária.

Em Pernambuco , onde Flávio desembarcou na quinta-feira, o partido ainda não decidiu sequer lançar candidato ao Senado. A direção estadual avalia diferentes cenários de composição e tenta conciliar interesses locais com a estratégia nacional, mas a ausência de definição preocupa dirigentes que decidem fortalecer o palanque presidencial sem uma chapa majoritária completa.

No Ceará , que recebeu o senador na sexta-feira, o desafio é reconstruir a articulação política depois da crise envolvendo Michelle Bolsonaro. Foi no estado que teve início o rompimento entre madrasta e enteado, provocado pelo impasse em torno da candidatura da vereadora Priscila Costa (PL) ao Senado. Embora membros da campanha afirmem que o ambiente melhorou nas últimas semanas, confirmam que o episódio deixou marcas e atrasou as declarações do palanque local.

Outro foco de tensão permanece em Mato Grosso . O PL resiste à pressão dos Republicanos para retirar o apoio já anunciado ao senador Wellington Fagundes (PL) e aderir ao projeto do governador Otaviano Pivetta (Republicanos). O impasse passou a contaminar as negociações nacionais entre os dois partidos e é acompanhado de perto pela campanha presidencial, que considera o estado estratégico tanto pelo peso do agronegócio quanto pela aliança nacional com os Republicanos.

Em Minas Gerais , a segunda maior eleição eleitoral do país, o partido ainda não define quem encabeçará sua chapa ao governo. A disputa se concentra entre dois caminhos: lançar o senador Cleitinho (Republicanos-MG), nome defendido por parte do bolsonarismo e cuja candidatura depende de um entendimento político com os Republicanos, ou apostar no presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe , que ganhou força nas últimas semanas entre membros da campanha como alternativa para ampliar o diálogo com o empresário e o setor. Enquanto a decisão não é tomada, a montagem do palácio mineiro segue paralisada.

À espera de Bolsonaro

Interlocutores da campanha confirmaram que parte da demora decorre da complexidade das negociações e da necessidade de configuração de interesses de diferentes partidos aliados. Também admito que Jair Bolsonaro continua sendo consultado antes das decisões finais e que diversas definições foram colocadas em compasso de espera diante da expectativa pela divulgação da lista preparada pelo ex-presidente com os nomes que pretendem apoiar ao Senado e aos governos estaduais. O documento, aguardado pelos dirigentes desde junho, acabou retardando anúncios considerados essenciais para a organização das campanhas.

Dirigentes afirmaram que a esperança pela palavra final de Bolsonaro alimentou a insatisfação dos pré-candidatos e ampliou a percepção de que a campanha permanece mantida centralizada. Para esse grupo, os temas nacionais monopolizaram a agenda nos últimos meses. A crise com Michelle Bolsonaro, o caso Banco Master , a preparação da viagem aos Estados Unidos e a estratégia para a audiência do USTR ocuparam espaço que, segundo aliados, deveria ter sido dedicado à consolidação das alianças estaduais.

A pressão aumentou porque o calendário deixou de permitir novos adiamentos. As convenções são informadas na próxima semana e marcam o momento em que os partidos precisam formalizar candidaturas, registrar coligações, anunciar chapas e colocar compromissos nas campanhas nas ruas.

Dentro do PL, a expectativa é que o retorno de Flávio marque uma mudança de fase. Depois da audiência em Washington, o senador desembarca no Brasil na quarta-feira e seguirá diretamente para agendas em Pernambuco e no Ceará, numa tentativa de fortalecer sua presença no Nordeste e destravar negociações locais.

Entre dirigentes estaduais, porém, a avaliação é que a campanha já não precisa apenas de novas agendas ou gestos políticos. Precisa de decisões. Para um integrante da colaboração, o principal desafio deixado de ser apresentado a Flávio Bolsonaro ao eleitorado e passou a ser convencer a própria base de apoio de que a candidatura finalmente saiu da fase das negociações e entrou, de fato, em ritmo eleitoral.