Poder e Governo

O Globo testa ferramenta de IA para criar jingle de candidato fictício

Popularização de ferramentas leva a disseminação de conteúdos do tipo nas redes sociais e a novo desafio para a Justiça Eleitoral

Agência O Globo - 05/07/2026
O Globo testa ferramenta de IA para criar jingle de candidato fictício

Os jingles eleitorais criados com auxílio de inteligência artificial são impulsionados pela facilidade com que podem ser feitos, mesmo por quem não entende do assunto. O GLOBO testou uma ferramenta popular, a partir de uma conta gratuita, para comprovar o método. O processo todo levou menos de cinco minutos e não exigiu nenhum conhecimento musical prévio, nem talento para composição da letra.

Assim surgiu o candidato fictício “Joãozinho da Galera”, que planeja concorrer a deputado federal nas próximas eleições. Os versos foram criados automaticamente, a partir de um comando simples que envolveu “jingle eleitoral em português do Brasil” e orientações para a canção ser “alegre, descontraída e confiante”, descrevendo o personagem “como alguém do povo, que vai trabalhar incansavelmente em Brasília pelos seus eleitores e rumo ao progresso”.

Após essa etapa, a ferramenta assumiu a tarefa de dar complexidade à música. “Ritmo de pagode” foi o comando dado pela reportagem, que retornou o seguinte: “Groove de pagode com cavaquinho (estilo partido-alto), repique de mão, tantã, pandeiro e surdo sustentando uma base sincopada a 96 BPM. Acordes curtos e limpos de violão, baixo com técnica de palm-muting e sonoridade arejada, além de vocais em grupo com dinâmica de pergunta e resposta…” e mais um pouco.

O resultado tem dois minutos e 49 segundos de duração com sequência de versos e entonação que, apesar de não soarem muito inspirados, não entregam facilmente a artificialidade do projeto. As principais informações aparecem no refrão, como o nome do candidato e o cargo pretendido, tudo com custo zero na produção. A ferramenta não exige identificação alguma, com aspectos legais restritos a um aviso que menciona a proteção a direitos autorais.

Regras para a IA

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu novas regras este ano para o uso da inteligência artificial nas campanhas. No caso dos jingles, vale a diretriz geral de que todo conteúdo produzido com o auxílio dessas ferramentas precisa “informar, de modo explícito, destacado e acessível” que o material foi fabricado ou manipulado e qual a tecnologia empregada.

Além disso, a Justiça Eleitoral proíbe a publicação e a reprodução “ainda que gratuitas” de conteúdos eleitorais sintéticos que tenham “imagem, voz ou manifestação de candidata ou candidato ou de pessoa pública” 72 horas antes de os eleitores irem às urnas e nas 24h após o pleito. Os sites de IA estão impedidos de recomendar candidatos mesmo que o usuário peça explicitamente.

Desde 2024, o TSE assegura ainda a compositores e artistas o direito de solicitar a retirada de paródias, incluindo jingles, de obras que não tiveram autorização expressa do autor para serem utilizadas pelos candidatos. Conteúdos dessa natureza provocaram reclamações, entre outros anos, de cantores como Roberto Carlos, Caetano Veloso e Marisa Monte.