Poder e Governo
Flávio Bolsonaro vai mais aos EUA do que a estados-chave no Brasil e diz que tarifaço pode dar vitória política a Lula
Desde dezembro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tem apostado em idas ao exterior para sair das cordas das crises internas
O senador e pré-candidato à Presidência (PL-RJ) se prepara para viajar aos Estados Unidos na sexta vez este ano, mais do que o número de idas a estados-chave para a corrida eleitoral de outubro. Flávio embarcou para uma audiência sobre tarifas americanas impostas a produtos brasileiros. Ontem, ele apresentou um documento ao órgão de comércio daquele país com a avaliação de que a sobretaxa, em análise pela gestão de Luiz Inácio da Silva (PT), representando “uma vitória política” ao presidente.
Vídeo:
'Jaques do Mestre':
Desde dezembro, Flávio tem apostado em idas ao exterior para sair das cordas das crises internas, a última delas causada pelo vídeo em que Michelle Bolsonaro diz ter sido “maltratada” por ele. No mesmo período, o senador ignorou dez estados em suas agendas, todos no Norte e Nordeste — onde aparece em maiores desvantagens na disputa com Lula — e visitou apenas uma vez colégios importantes, como Minas Gerais e Bahia.
Desde que os governantes passaram a explorar o vínculo do senador com os EUA, Flávio tem buscado se desvencilhar da tarifaço. Ontem, ao tratar sobre a relação bilateral no memorando de 86 páginas, o filho zero de Jair Bolsonaro sugeriu que qualquer decisão sobre as restrições às exportações deve ser tomada depois do pleito de outubro , o que provocou a de Lula, que afirmou que a família Bolsonaro é formada por “traidores da pátria”, idade com entreguismo e que pretende “submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”. O petista também argumentou que não há nenhum motivo para que sejam aprovadas tarifas antes ou depois das eleições.
Foco sem exterior
Flávio já fez cinco viagens aos Estados Unidos desde que lançou a sua pré-candidatura ao Planalto: a primeira, em janeiro, quando tentou uma agenda com o secretário de Estado do país, Marco Rubio; e as duas últimas em maio, primeiro para encontros com empresários e, dias depois, para uma reunião com Trump na Casa Branca. Agora, embarcaremos novamente para Washington, onde participaremos, no próximo dia 6, de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre uma proposta de sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros.
Nos bastidores, porém, cresce entre aliados a avaliação de que a campanha precisa agora voltar parte de seus esforços para dentro do Brasil , acelerando a montagem dos palácios estaduais e ampliando a presença justamente nas regiões onde o bolsonarismo historicamente enfrentou maiores dificuldades eleitorais. O senador não passou por dez estados: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Ceará, Pernambuco, Piauí, Roraima, Sergipe e Tocantins.
Hoje ele estará no Rio pela manhã e na Paraíba à noite. Na volta da próxima viagem aos Estados Unidos, estão previstas idas para Pernambuco e ao Ceará, estado que foi pivô da crise com Michelle por causa do apoio a Ciro Gomes e de ter preterido Priscila Costa, aliada da ex-primeira-dama, da chapa ao Senado. Na avaliação dos aliados, a passagem pelo Ceará será um teste da capacidade da campanha de reconstrução de pontes com lideranças locais após uma crise.
Além da audiência sobre as tarifas, a viagem a Washington terá outro objetivo político: Flávio deve se reunir com o irmão Eduardo Bolsonaro, que permanece no país. Aliados defendem que o encontro sirva para alinhar a comunicação da pré-campanha após os desgastes provocados pelas declarações de influenciadores ligados ao deputado, como Paulo Figueiredo, que disseram que as mulheres “votam mal”.
Para convencer as autoridades americanas a recuar das retaliações, Flávio argumentou que as tarifas fortaleceriam politicamente Lula em vez de pressionar seu governo, o que não seria o efeito pretendido por Washington. Para sustentar seu ponto de vista, Flávio chega a uma pergunta eleitoral feita durante o período em que Trump resolveu adotar uma política tarifária mais agressiva, no fim do ano passado.
“Em outras palavras: as tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, afirmou.
O prazo para que o governo dos EUA decida se adotará ou não as tarifas contra o Brasil termina em 15 de julho, cerca de uma semana após a audiência pública do USTR. A investigação é feita pelo órgão sobre políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e ao Pix, além de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e questões ambientais.
Para Flávio, o principal alvo das críticas americanas são o governo Lula e as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) contra Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por liderar uma trama golpista.
"Como o próprio presidente (Trump) enquadrou a questão, o alvo é a conduta do governo e do Judiciário. Uma tarifa de 25% sobre praticamente toda a economia brasileira não atinge nenhum dos dois. Ela atinge exportadores, importadores americanos, consumidores dos EUA e a população brasileira que se opõe justamente às condutas em questão", escreveu Flávio.
Na manifestação, o senador pede que o governo americano estabeleça imediatamente um mecanismo de negociação bilateral sobre temas investigados pelo USTR.
Do lado adversário, a campanha petista considera o embate um dos trunfos para a mobilização no período da campanha eleitoral. Ao rebater o documento de Flávio, Lula aproveitou para argumentar que defende a soberania nacional.
"Nós sempre vamos dialogar de igual pra igual com qualquer nação do mundo. Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria . Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois".
Incentivo a
Lula disse ainda ser “absurdo” que as tarifas tenham sido incentivadas por pessoas da família Bolsonaro — uma menção indireta a Eduardo, que atuou para as avaliações nos Estados Unidos. O presidente também criticou outra passagem da exposição de Flávio, em que há crítica às “amarras” do Mercosul e sugere a possibilidade de operadoras beneficiárias de cartão de crédito com tarifas menores. A investigação sobre o Pix diz respeito especificamente à acusação de que a inovação brasileira prejudica a concorrência de meios de pagamento e grandes empresas americanas.
Além da manifestação apresentada por Flávio, o influenciador Paulo Figueiredo protocolou um parecer próprio no processo aberto pelo USTR no qual pede que o governo Trump abandone a proposta de sobretaxar produtos brasileiros e adote sanções individuais contra autoridades brasileiras, especialmente ministros do STF.
No documento, Figueiredo afirma que a tarifa de 25% “atinge o alvo errado”. O influenciador pede a retomada e ampliação de avaliação com base na Lei Global Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes.
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