Poder e Governo

Na disputa por São Paulo, Tarcísio mira a capital e Haddad investe no interior

Adversários na disputa pelo governo estadual, atual gestor e ex-ministro concentram esforços em áreas onde o oponente é mais forte; governador explora agendas com o prefeito Ricardo Nunes e o petista usa recall de Márcio França e Alckmin

Agência O Globo - 01/07/2026
Na disputa por São Paulo, Tarcísio mira a capital e Haddad investe no interior
Tarcísio de Freitas - Foto: © AP Photo / Andre Penner

Em campos opostos na briga pelo Palácio dos Bandeirantes, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro Fernando Haddad (PT) decidiram disputar o território em que o adversário é mais forte e, portanto, representa seus maiores desafios desde a eleição de 2022. Principais concorrentes também neste pleito, eles traçam estratégias para avançar, respectivamente, na capital e no interior: enquanto Tarcísio intensifica agendas com o prefeito Ricardo Nunes (MDB) para crescer na cidade de São Paulo, Haddad recorre ao ex-ministro Márcio França e ao vice-presidente Geraldo Alckmin, ambos do PSB, para ampliar palanques no interior paulista.

Apesar de liderar as pesquisas de intenção de voto no estado como um todo, Tarcísio tem “pegado carona” em entregas no município, onde perdeu para Haddad na eleição passada por cerca de 600 mil votos e ainda sofre para ganhar espaço. Há duas semanas, ele e Nunes estiveram em São Matheus, na Zona Leste, em agendas nos setores de habitação e infraestrutura. Na semana anterior, no Grajaú, no extremo Sul da cidade, o governador reinaugurou com o prefeito uma unidade básica de saúde (UBS), além de fazer entregas de moradias.

Outras presenças em inaugurações vão ocorrer até o limite do estabelecido pela Lei Eleitoral, em 4 de julho. Nos próximos dias, governador e prefeito estarão juntos em entregas de obras viárias e de reforma do estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, entre outros locais.

Segundo interlocutores de Tarcísio, a dobradinha visa a melhorar o desempenho na capital. Pesquisas recentes apontam que Haddad supera por pouco o governador na região. Na Região Metropolitana, eles aparecem empatados. E nas demais regiões, o governador supera bem o petista. O governo de São Paulo afirmou que as agendas conjuntas “ocorrem de forma rotineira desde o início de 2023”.

As agendas de Tarcísio com Nunes também ajudam o governador a se distanciar das pautas bolsonaristas e o coloca, sobretudo nas redes, como um gestor de entregas, não de discussões ideológicas. Apesar disso, Tarcísio é seguido nas agendas pelo deputado estadual André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa e pré-candidato ao Senado por São Paulo. Embora haja uma vantagem de Tarcísio no interior, alguns prefeitos se queixam da falta de atenção do governador. Prado tem a função de afinar esse diálogo com os gestores e não deixar adversários conquistarem espaço. O desafio é equilibrar a defesa de pautas locais com a necessidade de acenar a temas mais ideológicos.

Nomes experientes

Nesse flanco de insatisfação, o campo da esquerda lança mão da experiência e interlocução não só de França — que foi governador por nove meses, vice-governador, secretário, prefeito, deputado em SP e será vice na chapa de Haddad —, mas também de Alckmin para ganhar terreno no interior. A coligação de Haddad tem apenas 14 das 645 prefeituras — dez do PSB e quatro do PT — numa região tradicionalmente conversadora e ligada ao agronegócio.

— Ele (França) tem uma relação com os prefeitos que é muito diferente do que está acontecendo hoje. Entende a liberdade do prefeito, a autonomia do prefeito, mas procura se aproximar deles para estabelecer parcerias. À maneira do que o presidente Lula faz no plano federal. Ele busca interação para buscar o melhor resultado para cada município — disse Haddad, na semana passada, ao anunciar a chapa.

Quando decidiu partir para sua segunda candidatura consecutiva ao governo, em março, Haddad sabia que tinha uma tarefa primordial: a de fortalecer palanques para a campanha de reeleição de Lula. França adianta que fará caravanas no interior para conversar mais de perto com o eleitorado. Ele disse que o assunto foi tratado em reunião, na semana passada, com Lula.

— O presidente Lula sugeriu que o Alckmin ajude. Ele é, de longe, o nome que mais conhece São Paulo. Ele chega numa cidade e sabe o nome do dono da padaria — pontuou França.

No primeiro turno de 2022, Haddad venceu em 91 dos 645 municípios paulistas. Tarcísio ganhou em 500 cidades. No segundo turno, o petista levou 79 cidades contra 566 do atual governador. Entre os êxitos do ex-ministro da Fazenda está a capital e em cidades da Região Metropolitana.

Segundo Alckmin, os resultados de quatro anos atrás podem ser superados pela chapa Haddad-França:

— Formamos em São Paulo uma grande chapa, ambos com estatura de governador, além das duas mulheres que concorrerão ao Senado (Simone Tebet, do PSB, e Marina Silva, da Rede). Pelas pesquisas, a diferença está pequena e a campanha nem começou.

Além da experiência política de Tebet e Marina, a chapa de Haddad deverá explorar o fato de os concorrentes não terem mulheres nas suas composições majoritárias.