Poder e Governo

Aliado de Jaques Wagner, governador descarta afastar enteado de senador de cargo no estado após PF apontar elo com Master

Jerônimo Rodrigues afirma que 'não está no script' a retirada de um secretário do posto sem que seja completo o julgamento

Agência O Globo - 29/06/2026
Aliado de Jaques Wagner, governador descarta afastar enteado de senador de cargo no estado após PF apontar elo com Master
Jaques Wagner (PT-BA) - Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmou nesta segunda-feira que não afastará Eduardo Sodré Martins, secretário de Meio Ambiente do estado e enteado do senador (PT), do cargo. Como mostrou a coluna Míriam Leitão, do GLOBO, a Polícia Federal (PF) está investigando Wagner, no âmbito do Caso Master,

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— De forma nenhuma nós faremos afastamento sem qualquer tipo de aplicação concreta, de provas. Eduardo é advogado, está se defendendo. Para ele, para a família, minha solidariedade — disse Jerônimo em agenda. — Não está no script qualquer afastamento de nenhum secretário por motivo de que esteja acontecendo, de denúncias ou qualquer tipo de julgamento. Não há julgamento para que a gente possa definir ou determinar a saída.

Martins é casado com Bonnie Bonilha, que recebeu, segundo a PF, cerca de R$ 11 milhões do banco de Daniel Vorcaro, conforme revelado pelo blog Malu Gaspar, do GLOBO.

No primeiro ato conjunto de campanha após a operação da Polícia Federal (PF) contra o senador, Jerônimo se emocionou ao defensor do companheiro de chapa. Wagner, que é pré-candidato ao Senado, deixou a liderança do governo Lula na Casa após ser alvo de investigações sobre a suposta atuação do parlamentar a favor do Banco Master em troca de “vantagens indevidas”.

— Ele esteve lá (em Brasília) e conversou com o amigo dele, amigo nosso, o Lula, e se acertou. Porque para além de uma carga de liderança, está o Brasil e a Bahia. Nós vamos mostrar, nós vamos provar, que se você tem um erro na vida, para eles, é o erro de cuidar dos pobres. E dedique sua vida. E nós confiamos em você. A Bahia te ama — disse Jerônimo na sexta-feira.

Após quase uma semana de crise e pressão por sua saída, Wagner deixou a liderança do governo no Senado na quarta-feira. Foi a primeira vez neste mandato que um próximo nome ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou um posto de confiança na sequência de desgastes provocados por uma investigação da Polícia Federal. O senador negou que tenha atuado a favor do banco de Daniel Vorcaro em troca de benefícios pessoais.

O PT da Bahia já havia prestado solidariedade ao Wagner após a operação da PF. O diretório disse ter “confiança total e plena nas condutas do senador”.

"Ao longo de toda a sua vida política, Wagner foi acusado injustamente inúmeras vezes e nunca teve absolutamente nada que o desabonasse. O andar das investigações vai mais uma vez provar que Wagner nunca se envolveu com qualquer ato ou ação fora da legalidade", diz a nota do PT da Bahia.

Pressão

A costura política até o estágio de Wagner fora do cargo envolveu membros do Palácio do Planalto, como o ministro Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social), e aliados de Lula no Congresso. Os defensores da troca tiveram que ver esvaziado um discurso crítico às fraudes do Mestre usado para atacar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula.

Governistas apontaram o “constrangimento” com o cumprimento de mandatos de busca e apreensão, o que incluiu a divulgação de uma foto de US$ 49 mil em espécie encontrada no quarto de hotel em que Wagner costuma ficar em Brasília. Ao todo, levando-se em conta também os valores em dólares e euros encontrados em um endereço do senador em Salvador, os agentes da PF cobram o equivalente a R$ 482 mil, de acordo com a cotação atual.

Wagner resistiu por dias a sair do posto, mas a pressão aumentou junto com a avaliação de que as explicações por ele foram insuficientes. No Planalto, a permanência dele era considerada insustentável. A situação foi discutida em uma reunião do núcleo de campanha na segunda-feira. A avaliação feita foi de que o PT deve manter apoio irrestrito às investigações da fraude bancária do Master “alcance quem alcançar”.

Aliados também apontam que o fato de Wagner ter dito diversas vezes que não havia possibilidade de vir à tona relações suas com o Banco Master o enfraqueceram no posto. Até o mesmo entorno do senador foram desastrosas a entrevista de Wagner no dia da operação da PF. À Band News, ele afirmou que continuaria no cargo do líder do governo até a decisão de Lula. O parlamentar também disse que o presidente falou com ele para prestar solidariedade.

Para os governantes, havia necessidade de troca na liderança para que fosse possível “mudar de assunto”. Lula tem até 4 de julho para participar de inaugurações — depois disso, a lei eleitoral veda iniciativas do tipo. O presidente planeja idas para Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, onde perdeu para Jair Bolsonaro em 2022, e uma passagem pela Bahia.

Lula irá ao estado de Wagner participar das comemorações do 2 de Julho, data da Independência da Bahia. Também está prevista a inauguração de um hospital em Alagoinhas, a reinauguração do Teatro Castro Alves, na capital, e o lançamento do canto de obras da ponte que vai ligar Salvador à Ilha de Itaparica.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, publicada na sexta-feira, Wagner afirmou que reclamou com Lula a atuação da PF na operação. A corporação divulgou uma imagem de um montante de dólares em espécie encontrado num endereço ligado ao senador.

— Para aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF? Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem que contatá-lo.

Relação estremecida

Wagner também estava perdendo força na bancada do PT no Senado. Petistas abriram conversas sobre trocas, e a senadora Teresa Leitão (PT-PE) foi escolhida.

A PF afirmou que Wagner manteve interlocução com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, durante a tramitação de propostas no Congresso sobre crédito consignado e o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e ainda durante a fiscalização parlamentar sobre a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB).

A Polícia Federal aponta um esplendor entre tais atuações e supostas “vantagens econômicas indevidamente” recebidas pelos parlamentares, como o uso gratuito de aeronaves de Augusto Lima e do Banco Master; o recebimento de ingressos de alto valor para shows no exterior; a compra de um apartamento; e pagamentos à empresa vinculados ao seu núcleo familiar.

Investigação

Segundo a corporação, a atuação de Wagner na pauta do crédito consignado, por exemplo, em 2022, ocorreu no “contexto temporal próximo” ao início das relações contratuais entre o Mestre e uma empresa da família do senador.

Já durante a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição ligada ao FGC, a Polícia Federal acordou uma sequência de contatos entre o enteado do senador, Vorcaro, o chefe de gabinete do parlamentar e Augusto Lima. Os investigadores disseram que em agosto de 2024, no dia em que uma emenda foi incluída na PEC, Lima ligou para Jaques e, em seguida, encaminhou ao parlamentar o link do texto.

A defesa de Wagner recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para anular a decisão que autorizou a busca e apreensão contra o parlamentar na semana passada. Em nota, o advogado Pablo Domingues diz que apresentou recurso e busca a anulação “apontando erros graves que comprometem a medida”. O texto diz ainda que há equívocos na decisão porque o parlamentar “jamais atuoso no Congresso para favorecer” a instituição financeira. Domingues reforça que o dinheiro encontrado em endereços dirigidos ao parlamentar tem “origem lícita e comprovada”.