Poder e Governo

Campanha de Flávio acelera agenda para mulheres após crise com Michelle

Programa coordenado por Daniella Marques será debatido com lideranças femininas da direita e mira empreendedorismo, cuidado e combate à violência

Agência O Globo - 29/06/2026
Campanha de Flávio acelera agenda para mulheres após crise com Michelle
Flávio Bolsonaro - Foto: © Lula Marques/Agência Brasil

Na tentativa de reduzir a resistência de parte do eleitorado feminino a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) , a pré-campanha do senador prepara o lançamento de um programa voltado exclusivamente para mulheres. Coordenado pela ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques , o documento reúne propostas de combate à violência doméstica, empreendedorismo feminino e economia do cuidado. A primeira versão será discutida na próxima quarta-feira por parlamentares e lideranças femininas de direita antes do lançamento, previsto para julho.

Segundo membros da campanha, a iniciativa surgiu a partir da avaliação de que a segurança pública — principal bandeira de Flávio — segue como um ativo eleitoral relevante, mas, isoladamente, não seria suficiente para ampliar sua competitividade entre as mulheres. A estratégia passou a ser associada ao discurso de persistência contra a criminalidade a propostas voltadas à autonomia financeira, à geração de renda e ao reconhecimento do trabalho de cuidado.

O projeto ganhou prioridade após Michelle Bolsonaro tornar pública a crise com o senador, apesar de ter aumentado a preocupação de aliados com os reflexos da disputa interna justamente em um dos segmentos nos quais o pré-candidato enfrentou maiores dificuldades eleitorais.

A elaboração da proposta também ampliou o espaço ocupado de Daniella Marques dentro da campanha. Escalada há cerca de duas semanas para formular o programa econômico e participar da interlocução com empresários, banqueiros e investidores, em uma tentativa de reforçar a mensagem de responsabilidade fiscal e reconstruir pontes com o mercado financeiro após uma crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, um ex-presidente da Caixa também recebeu a missão de coordenar a plataforma externa às mulheres.

Nos bastidores, membros da equipe afirmam que a decisão de ampliar a agenda feminina responde a um diagnóstico recorrente nas pesquisas qualitativas realizadas pela campanha. A leitura é que o eleitorado feminino espera propostas relacionadas ao cotidiano das famílias e à autonomia econômica, temas que ainda não vieram sendo suficientemente explorados no discurso da candidatura. A intenção é não substituir a segurança pública como principal marca de Flávio, mas complementar com diretrizes capazes de ampliar o diálogo com esse público.

O programa foi estruturado em três eixos: proteção, oportunidades e cuidado. As primeiras reuniões propostas para o enfrentamento da violência contra a mulher. Além de incorporar medidas já defendidas por Flávio, como a ampliação do uso de tornozeleiras eletrônicas para agressores e acusados ​​de violência doméstica e a defesa da castração química para condenados por estupro, a campanha pretende incluir iniciativas de fortalecimento da rede de proteção às vítimas e de aperfeiçoamento dos mecanismos de prevenção.

O eixo das oportunidades concentra a principal inovação do documento. A proposta parte do entendimento de que a dependência financeira é um dos fatores que dificultam o rompimento de ciclos de violência doméstica. Por isso, a campanha pretende defender políticas de incentivo ao empreendedorismo feminino, ampliação do acesso ao microcrédito, inclusão produtiva, qualificação profissional e geração de renda. A avaliação da equipe é que a autonomia econômica das mulheres deve ser um dos pilares da plataforma.

O terceiro eixo trata da chamada economia do cuidado, conceito que engloba o trabalho doméstico não remunerado e os cuidados com filhos, idosos, pessoas com deficiência e outros familiares — atividades exercidas majoritariamente por mulheres. A campanha pretende apresentar medidas de apoio às cuidadoras e iniciativas destinadas a reduzir essa sobrecarga. Entre os estudos utilizados pela equipe está um levantamento segundo o qual esse conjunto de atividades representa cerca de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB), argumento usado para embasar a defesa de políticas públicas específicas para esse público.

A primeira versão do documento será debatida na próxima quarta-feira, em reunião coordenada por Daniella Marques. O encontro reunirá lideranças femininas de direita para discutir o conteúdo da proposta e sugerir alterações antes do lançamento. Devem participar da senadora Tereza Cristina (PP-MS), das deputadas Bia Kicis (PL-DF) e Simone Marquetto (MDB-SP), além de outros parlamentares e dirigentes partidários. A campanha pretende aproveitar a reunião para definir a estratégia de divulgação do programa e o papel de cada liderança na apresentação da agenda ao longo da pré-campanha.

A expectativa é que o programa seja incorporado ao discurso de Flávio já nas primeiras agendas de julho. A avaliação dos aliados é que, além de responder ao desgaste provocado pela crise com Michelle Bolsonaro, a plataforma representa uma tentativa de ampliar o alcance eleitoral da candidatura.