Poder e Governo

Estratégias ao Senado em SP passam por pauta ideológica, voto feminino e aproximação com empresários

Disputa deve reunir ex-ministras de Lula, deputados bolsonaristas e aliado de Valdemar Costa Neto

Agência O Globo - 29/06/2026
Estratégias ao Senado em SP passam por pauta ideológica, voto feminino e aproximação com empresários
Plenário do Senado - Foto: Jonas Pereira/Agência Senado Fonte: Agência Senado

Com a definição das ex-ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) como pré-candidatas ao Senado por São Paulo, na chapa de Fernando Haddad (PT), a esquerda tenta eleger, pela primeira vez em uma mesma eleição, dois nomes para a Casa. A estratégia inclui a nacionalização da campanha e a tentativa de ampliar alianças em setores historicamente mais resistentes ao PT no estado. O anúncio ocorreu nesta quinta-feira (25), após reunião com o presidente Lula confirmar Márcio França (PSB) como candidato a vice-governador na chapa.

Na direita, o grupo político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) apresenta como candidatos o deputado federal Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual de Segurança Pública e próximo do senador Flávio Bolsonaro, e André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que ganharam proposta para garantir a aprovação de projetos de interesse do Executivo. Já Ricardo Salles (Novo), deputado federal e ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, tenta viabilizar uma candidatura de forma independente.

Marina Silva, reconhecida pela atuação na área ambiental, deve buscar ampliar sua plataforma para além do Meio Ambiente. Aliados já mapearam três grupos nos quais ela apresenta bom desempenho: jovens, mulheres acima de 45 anos e evangélicos. Correligionários afirmam que a pauta ambiental continuará presente, mas dividirá espaço com temas nacionais, em uma tentativa de convencer o eleitorado de que Marina seria “uma figura importante para o Brasil no Senado”.

Simone Tebet, por sua vez, enfrentou o desafio de demonstrar conexão com São Paulo. A ex-ministra do Planejamento é natural de Mato Grosso do Sul, estado onde construiu sua carreira política e pelo qual foi eleita senadora por dois mandatos. Essa estratégia já aparece nas propagandas partidárias do PSB exibidas na TV nas últimas semanas, nas quais Tebet afirma querer colocar sua experiência à disposição dos paulistas. Além disso, a presença de duas mulheres na chapa deve ser explorada por Haddad para contrastar com Tarcísio, que não tem representação feminina em seu primeiro escalonamento eleitoral.

Com o nome mais consolidado desde março, Tebet foi o único a iniciar agendas de pré-campanha ao lado de Haddad. Na semana passada, os dois cumpriram compromissos definidos em Campinas e Santa Bárbara D'Oeste, no interior paulista. Segundo aliados, a candidatura tem potencial para dialogar com empresários do estado, com o objetivo de reduzir resistências a Haddad e a Lula. Pela experiência no Ministério do Planejamento, ela também deve fortalecer o discurso de que as obras exibidas na propaganda de Tarcísio foram financiadas com recursos federais do BNDES e da Caixa.

Na direita, campanha adiantada

Na direita, como a chapa já estava definida, a estratégia vem sendo traçada há mais tempo. Já houve três eventos de lançamento das pré-candidaturas ao Senado, com a participação de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, em atos com tom de campanha eleitoral antecipada.

André do Prado, presidente da Alesp, pretende continuar “colado” ao governador, como fez ao longo do mandato, e terá a missão de percorrer o interior para dialogar com prefeitos. Nos bastidores, alguns gestores municipais criticaram a atenção dada pelo Palácio dos Bandeirantes, o que poderia gerar ruídos em um momento em que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ex-governador do estado, e o próprio Márcio França entram no jogo eleitoral.

Segundo Prado, a ideia é focar no “municipalismo”. O deputado terá de se equilibrar entre a defesa dessas pautas locais, com base em sua trajetória política traçada com apoio do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e a necessidade de acenar para temas mais ideológicos, além de tentar neutralizar Salles na disputa. O adversário do Novo mantém boa interlocução com Derrite e já manifestou a intenção de usar o palanque para atacar Prado, e não seu companheiro de chapa.

Ao ser anunciado por Eduardo Bolsonaro (PL) como pré-candidato ao Senado, Prado provocou insatisfação entre bolsonaristas que apostavam em outros nomes para a disputa, como o deputado federal Mário Frias (PL) ou o vice-prefeito da capital, Ricardo Mello Araújo (PL). Em seus discursos, o presidente da Alesp tenta enganar os ânimos e afirma que vai “honrar” as pautas da direita na ausência do filho de Bolsonaro, condenado pelo STF, caso seja eleito.

Diferentemente da esquerda, que vê um cenário mais favorável na Região Metropolitana e mais desafiador no interior, a direita trabalha para reduzir dificuldades na Grande São Paulo, onde o PT e os partidos mais progressistas obtêm melhor desempenho nos últimos pleitos. Por isso, tanto para Prado quanto para Tarcísio, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), é visto como um ativo. Ele já se colocou à disposição dos dois para tentar regiões de aplicação em suas candidaturas na cidade, especialmente com foco em entregas nas periferias.

Guilherme Derrite, por sua vez, deve apostar na pauta de segurança pública e cumprir a cota mais ideológica da chapa da direita. Ele vem explorando a parceria com Flávio Bolsonaro, ecoando nas redes sociais e em discursos as ações do presidenciável, da relação com os Estados Unidos às críticas diretas a Lula e à esquerda. Derrite, cujo entorno sinalizava uma posição mais centrista quando ainda existia a possibilidade de disputar o governo na ausência de Tarcísio, agora aposta em um tom mais agressivo contra Lula e Haddad.

Correndo por fora, Ricardo Salles se apresenta como pré-candidato ao Senado mesmo sem ter conseguido o apoio da família Bolsonaro. Ele foi um dos principais críticos da escolha de André do Prado e chegou ao acusador Eduardo Bolsonaro de ter “vendido a vaga” ao deputado em acordo com Valdemar Costa Neto.

Correndo por fora

Salles pretende trabalhar o antipetismo, com o discurso de que o PT não pode controlar as Casas Legislativas, e investir contra Prado para ganhar apoio à direita. Segundo ele, o presidente da Alesp “traz consigo o DNA dos escândalos do Centrão”. Por outro lado, Salles afirma considerar Derrite “um amigo”, que será tratado “com a dignidade de alguém que está no mesmo campo político” nos debates.

— Os participantes da centro-direita não estão tão cheios da maneira do PT governar, da visão de mundo errada que o PT tem. Eles também estão cheios de corrupção, do aparelho estatal, de todos esses desvios de conduta. E o Centrão é a personificação de todos esses desvios — disse.

Ainda que haja um pacto de não agressão com Derrite, o mesmo não pode ser garantido na relação com a família Bolsonaro. Salles recebeu uma reprimenda pública de Eduardo, que mora nos Estados Unidos, depois de acusá-lo de receber dinheiro em troca de apoio a Prado. Em vídeo publicado nas redes sociais, o filho “03” do ex-presidente disse que o antigo colega “está virando meme” por causa de sua “conduta de biruta de vento político”.

Salles foi contra a indicação do senador como principal oponente de Lula na eleição presidencial, situação agravada pela revelação do pedido de dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, acusado de liderar um esquema bilionário de fraude financeira — fatos que o ex-ministro considera “muito graves”. A ruptura pode abrir de vez o flanco bolsonarista contra ele, embora a Nova negociação um acordo informal com Tarcísio na disputa pelo governo do estado.

Além de Salles, o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade) também se apresenta como pré-candidato ao Senado. Ele foi relator do PL da Anistia, posteriormente transformado em dosimetria das penas dos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro. A matéria beneficiou o ex-presidente Jair Bolsonaro com redução do tempo de detenção, mas foi alvo de críticas de aliados do ex-presidente por não livrá-lo da prisão. Bolsonaro cumpre, atualmente, prisão domiciliar.