Poder e Governo
No Nordeste, pré-candidatos evitam palanque com Flávio Bolsonaro
Estratégia busca reduzir o peso da polarização nacional em disputas estaduais contra aliados de Lula na região
Para conter os efeitos da polarização entre o PT e o bolsonarismo, pré-candidatos a governos estaduais no Nordeste que enfrentam nomes apoiados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm evitado nacionalizar as disputas. A estratégia é definida por nomes bem posicionados em pesquisas de intenção de voto, como Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco; Ciro Gomes (PSDB), no Ceará; ACM Neto (União Brasil), na Bahia; e Eduardo Braide (PSD), no Maranhão. Todos rechaçaram, ao menos por agora, palanques conjuntos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam a alta capacidade de transferência de votos de Lula na região e mudanças no comportamento do eleitorado como fatores que ajudam a explicar a distância imposta por esses pré-candidatos em relação à presidência do PL.
O cenário impõe um desafio à campanha de Flávio no Nordeste, onde ele ainda não tem palanque em cinco dos nove estados. No Ceará e na Bahia, Ciro Gomes e ACM Neto enfrentaram governadores petistas que tentavam a reeleição. Embora façam oposição a Lula, ambos descartaram o apoio formal ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, pelo menos no primeiro turno.
PL sem Flávio
No Ceará, a aproximação do PL com Ciro Gomes esteve no centro da crise entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e Flávio. Embora o tucano descarte apoiar o senador na corrida ao Palácio do Planalto, o diretório estadual do PL negocia uma das vagas ao Senado na chapa de Ciro. Em vídeo publicado na semana passada, Michelle relembrou críticas feitas pelo tucano a Bolsonaro para defender que a aliança não seja firmada.
Ciro tem como principal adversário o governador Elmano de Freitas (PT), pré-candidato à reeleição. Enquanto o petista tenta associar a imagem do tucano ao bolsonarismo, Ciro aposta em temas locais, como economia, segurança pública e saúde. O ex-ministro aparece com 44% na pesquisa Ipsos-Ipec de junho, seguido por Elmano, com 33%. Em 2022, Lula obteve 69,97% dos votos no segundo turno no Ceará.
Cientista política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres afirma que, nos últimos 20 anos, os candidatos eleitos ao governo do estado, todos de esquerda, incluíram a associação com Lula como ativo eleitoral. Segundo ela, esse contexto dificulta a vida da oposição, que tenta retirar o poder do grupo político instalado no Palácio da Abolição desde 2007.
— Ciro deseja evitar que o capital político de Lula influencie o pleito, ainda mais em um contexto no qual o governo de Elmano ainda carece de marca própria. Ao mesmo tempo, o tucano enfrentou o desafio de se desvincular do bolsonarismo no estado — afirma Torres.
Na Bahia, ACM Neto também resistiu a Flávio no palanque, mesmo com um nome do PL confirmado para disputar o Senado em sua chapa. Para evitar a nacionalização do debate estadual, o pré-candidato do União Brasil tem intensificado as críticas ao governador Jerônimo Rodrigues (PT), que tentará a reeleição, especialmente nas áreas de economia e segurança pública. O ex-prefeito de Salvador afirma que a gestão petista “perdeu o controle da segurança pública” no estado.
Para o cientista político Marcos Paulo Campos, da Universidade Estadual do Ceará, a posição de ACM Neto decorre da avaliação de que nacionalizar a disputa a partir do bolsonarismo não traz ganhos eleitorais relevantes no Nordeste.
— Na região, o bolsonarismo não tem sido marcado como uma força política capaz de colocar um candidato com reais chances de vitória. Essa pode, inclusive, ser um elemento negativo para trazer um teto eleitoral prejudicial ao candidato — diz Campos.
A rodada mais recente da pesquisa Genial/Quaest na Bahia, divulgada em abril, mostrou ACM Neto e Jerônimo técnicos empatados na disputa de primeiro turno. O representante do carlismo aparece com 41% das intenções de voto, enquanto o petista tem 37%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.
Em Pernambuco, o cenário é diferente. Aliada de Lula, a governadora Raquel Lyra busca alternativas após o presidente entrar na campanha do rival, o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB). Lyra, que trocou o PSDB pelo PSD para se aproximar do Palácio do Planalto, aposta na relação com prefeitos e nas declarações de uma agenda local, com foco em segurança pública e saúde.
A rodada mais recente da pesquisa Datafolha, de maio, mostra uma virada: Lyra aparece numericamente à frente, com 48% das intenções de voto no primeiro turno, contra 43% de Campos. No mês anterior, o ex-prefeito do Recife tinha 12 pontos percentuais de vantagem.
Com a possibilidade de um palanque duplo de Lula descartado pelo PT nacional, aliados de Lyra buscam a neutralidade do presidente em Pernambuco e apostam que ele não fará agendas presenciais no estado durante o primeiro turno.
Nem esquerda nem direita
No Maranhão, o ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide também não vê vantagem eleitoral em se associar a Lula ou a Flávio na disputa estadual. Ele aparece à frente na pesquisa Genial/Quaest de março, com 39% das intenções de voto. Aliados do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, solicitaram uma aliança com Braide para levá-lo ao campo governamental, mas o ex-gestor municipal não aceitou pedir votos para o petista.
— O que as pessoas querem saber, hoje, não é quem está do lado de qual político, mas quem está do lado delas, do povo. O Maranhão tem o pior desempenho do país em renda das famílias, sem desenvolvimento humano, em adultos com nível superior, em condições das estradas, tudo isso cobrando o maior ICMS do país. Há assuntos muito mais urgentes e muito mais importantes a serem discutidos aqui do que direita e esquerda — diz Braide, que pretende destacar entregas nas áreas de infraestrutura, saúde e educação durante a campanha.
Cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Murilo Medeiros avaliou que o eleitorado “passou a separar com mais espontaneidade o voto para presidente do voto para governador”. Para o pesquisador, essa dissociação cria espaço para o fortalecimento de lideranças independentes.
— A tendência é que vejamos campanhas cada vez mais regionalizadas no Nordeste, nas quais o eleitor será convidado a avaliar soluções para os problemas locais dos estados, e não quem está mais alinhado a um projeto presidencial — afirma.
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