Poder e Governo
Lula e Flávio enfrentam desgastes a cem dias da eleição com indefinição de palanques e abalos de caso Master
Presidente e senador ainda não definiram candidatos para disputar o governo de Minas Gerais, estado considerado estratégico nacionalmente
A menos de 100 dias da eleição, as campanhas de Luiz Inácio da Silva (PT) e (PL) enfrentam desgastes envolvendo a indefinição em palanques estratégicos, abalos provocados pelas investigações relacionadas ao caso do Banco Master, além de crises internas entre aliados. Nesta semana, Lula avançou na costura de palanques no Sudeste, região onde a campanha deseja reduzir a vantagem obtida pelo bolsonarismo há quatro anos, mas não conseguiu ainda uma unidade em Minas Gerais, por exemplo. Do outro lado, o senador do PL também tenta definir quem será o candidato do seu grupo no estado, enquanto enfrenta desgastes com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro pelo tratatamento dado a ela na montagem da chapa no Ceará.
É em Minas onde está a maior preocupação tanto de Flávio quanto de Lula. O estado tem importância particular às campanhas eleitorais já que, historicamente, o candidato que ganha ali costuma ser eleito presidente da República. Flávio, por sua vez, ainda não tem definição nem no segundo maior colégio eleitoral nem no Rio de Janeiro, seu reduto eleitoral. O senador também tenta avançar em apoios na maior parte dos estados do Nordeste, onde o petista é mais forte.
O presidente , após meses de impasse, enquanto em São Paulo a chapa foi anunciada formalmente na quinta-feira. O plano A do chefe do Executivo era o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB). Apesar de uma investida pessoal do próprio Lula, Pacheco declinou do convite e afirmou publicamente que deixará a vida pública ao fim de seu mandato no Senado neste ano.
Apesar da decisão de candidatura própria do PT em Minas, o nome preferido do entorno de Lula e do próprio presidente é a prefeita de Contagem, Marília Campos, que criticou publicamente a estratégia do partido. esse encaminhamento e reforçou que quer manter sua candidatura ao Senado, defendendo uma construção de candidatura ao governo com outros partidos aliados, entre eles o MDB. Numa sinalização dessa insatisfação, Marília anunciou que participará de agenda neste sábado ao lado dos pré-candidatos ao governo pelo MDB, Gabriel Azevedo, e PSB, Jarbas Soares. Apesar disso, no entanto, a expectativa entre petistas é que o presidente da sigla, Edinho Silva, lidere as conversas no estado para buscar essa definição o quanto antes e convencer Marília a disputar o governo estadual.
— O cargo de governador e a eleição em si é muito importante na estratégia política do PT que se terá para Minas Gerais e para o Brasil como um todo — diz o deputado federal Rogério Correia (PT-MG), que foi candidato à Prefeitura de Belo Horizonte pelo partido em 2024.
Aliados de Lula vinham cobrando uma atuação mais incisiva do presidente nessas conversas, diante da proximidade do início do processo eleitoral formalmente. Apesar disso, afirmam que a orientação neste momento é focar a agenda de governo, com intensificação das agendas nos estados, anúncios de programas e iniciativas, para entrar no modo campanha a partir do dia 4, quando começa o chamado período de defeso eleitoral.
A chapa em São Paulo que dará palanque ao petista, por sua vez, f: Fernando Haddad (PT), Márcio França (PSB), Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). Ficou acertado que França será vice de Haddad na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes e que Marina e Tebet disputarão vagas ao Senado na chapa. A definição ocorreu após ruído provocado por França ao ele indicar que poderia se lançar candidato ao governo estadual, contrariando uma ala de seu próprio partido e do PT, que enxergaram nesse movimento uma tentativa de pressionar e constranger os aliados.
Com os encaminhamentos nos estados nesta semana, Lula tem somente um estado sem o martelo batido: Goiás. Uma ala do PT defende lançar a deputada Delegada Adriana Accorsi para o governo, mas segundo relatos, a petista tem apresentado resistência para a possibilidade e defendido sua reeleição à Câmara.
Aliados de Lula minimizam eventuais pontos que ainda precisam ser consolidados até o início formal das eleições e falam que a situação agora está mais favorável ao petista do que em 2022. Naquele momento havia mais partidos coligados formalmente com Lula (entre eles Solidariedade e Avante) do que há hoje, mas petistas destacam alianças regionais com setores de partidos que deverão ficar neutros na corrida nacional, como PP, União Brasil, PSD e MDB. Eles creditam isso à força da máquina da gestão federal e à melhora no cenário eleitoral para Lula, diante dos recentes desgastes da campanha de Flávio Bolsonaro.
—Avalio que temos uma situação melhor agora, de maior favoritismo, e digo isso sem salto alto. Além de Lula ser presidente, temos palanques estaduais mais estruturados, candidatos mais competitivos e uma ampliação das alianças regionais. Some a isso todos os programas e ações desse mandato—diz Eden Valadares, secretário de Comunicação do PT e integrante da pré-campanha de Lula.
Flávio, por sua vez, enfrenta dificuldades no Rio de Janeiro, seu reduto eleitoral, e em Minas e tenta avançar em apoios na maior parte dos estados do Nordeste, onde o petista é mais forte. A crise se agravou , que acusou Flávio de maltratar ela e de minimizar sua importância política. A disputa entre os dois inclusive trava parte dos palanques, como no Ceará. O PL se encaminha para apoiar Ciro Gomes (PSDB) como candidato a governador no estado, algo que é criticado por Michelle.
Ainda que o partido até agora não planeje rever o apoio a Ciro, há um constrangimento para a candidatura ao Senado. Flávio tem acenado ao deputado federal André Fernandes, presidente do PL no Ceará, que o seu pai, o deputado estadual Alcides Fernandes, será o candidato a senador pela sigla. Michelle, no entanto, tem conseguido angariar força para manter a vereadora Priscila Costa como opção do PL para o Senado.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE), que é pré-candidato a governador e tem o apoio de Michelle, diz que o PL foca mais em ocupar cargos do que construir uma candidatura mais organicamente ligada à oposição.
– Sou muito grato pelo apoio e confiança da Michelle, assim como de tantos brasileiros que acompanham nosso trabalho. Tenho fé que os cearenses mereçam um governo que não troca princípios por cargos, mas que coloca a verdade e a Justiça acima de tudo.
Em outro sinal negativo para a campanha de Flávio, o PL ainda não definiu qual será seu candidato a governador no Maranhão. O ex-prefeito de São Luiz Eduardo Braide (PSD) é uma opção, mas ele tem buscado evitar uma nacionalização da disputa e avalia uma neutralidade na disputa presidencial.
Dentro do cenário de dificuldades do bolsonarismo no estado, o PL se aproxima de um acordo para apoiar dois pré-candidatos ao Senado que farão campanha para Lula, que são o senador Weverton Rocha (PDT) e o deputado André Fufuca (PP), ex-ministro dos Esportes do petista.
O cenário de indefinição de Flávio é mais evidente na comparação com a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. Há quatro anos, Jair Bolsonaro já havia definido o general Walter Braga Netto como vice e o PP e Republicanos já tinham uma aliança encaminhada para fazer parte da coligação do ex-presidente, como acabou acontecendo.
Agora, Flávio ainda não tem previsão de quando vai definir quem vai ser a pessoa a acompanhar sua chapa e não tem um compromisso de nenhum partido ainda para fazer parte de sua aliança. A federação União-PP e o Republicanos tendem a adotar uma neutralidade.
Além disso, após o vídeo de Michelle,. São citadas as deputadas federais Julia Zanatta (PL-SC), Bia Kicis (PL-DF) e Daniella Marques, que foi presidente da Caixa no governo Jair Bolsonaro. Marques é filiada ao Republicanos, o que dificulta uma composição, mas a campanha de Flávio ainda tenta um apoio do partido, mesmo que seja considerado difícil.
Da mesma forma, o pai de Flávio tinha amarrado um palanque duplo em Minas, com o apoio do então governador Romeu Zema (Novo), que tentava a reeleição, e de Carlos Viana, que disputou o governo do estado em 2022 pelo PL e hoje está no PSD. Em 2026, o PL tem se aproximado de um acordo para apoiar o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) para disputar o governo de Minas, mas a indefinição esbarra na falta de definição do próprio parlamentar se vai concorrer ou não.
Jair Bolsonaro também tinha candidatos a governador que o apoiavam nos principais estados do Nordeste, como Capitão Wagner (União Brasil) no Ceará, João Roma (PL) na Bahia e Anderson Ferreira (PL) em Pernambuco.
Hoje Ciro Gomes deve ter o apoio do PL, mas não pretende apoiar Flávio. Mesmo caminho que deve ser seguido pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco e pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) na Bahia.
Aliados de Flávio Bolsonaro em outros estados do Nordeste, no entanto, minimizam a crise. Marcelo Queiroga (PL-PB), ex-ministro da Saúde e pré-candidato a senador, avalia que o conflito entre Flávio e Michelle e as dificuldades nos palanques serão superados.
– Tenho convicção de que Michelle Bolsonaro continuará desempenhando um papel fundamental na mobilização da sociedade brasileira e que Flávio Bolsonaro saberá conduzir esse momento com equilíbrio, inteligência política e espírito de união. O foco deve permanecer na construção de um projeto para o Brasil, sem perder de vista os princípios que inspiram milhões de brasileiros.
Da mesma forma, o senador Efraim Filho (PL-PB), pré-candidato a governador, avalia que mesmo com as dificuldades Flávio é um nome competitivo na disputa com Lula.
— Acredito que a candidatura de Flávio segue firme apesar da turbulência. O tempo de escolher candidatos passou, o nome escolhido foi o de Flávio, e já está novamente em cenário de empate técnico com Lula. O eleitor bolsonarista vai com Flavio até o fim, confiante na vitória, apesar da divergência com Michele. Brigas familiares fazem parte da vida real de boa parte dos cidadãos brasileiros. Agora é ter paciência, buscar conciliar e superar a crise.
Avanço das investigações
Além dos problemas nos palanques, as duas campanhas, tanto de Lula, quanto de Flávio, buscam se afastar do escândalo do Master. De um lado, Flávio apresentou piora nas pesquisas de intenção de voto ao ser revelada proximidade dele com Daniel Vorcaro ao ex-banqueiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
A repercussão do caso envolvendo o pré-candidato do PL abriu uma frente de desgaste para o presidenciável, provocou desconforto entre aliados, aumentou a desconfiança de setores do Centrão e levou integrantes da pré-campanha a revisarem completamente a estratégia eleitoral para 2026.
Dentro da pré-campanha de Flávio, a leitura é que o cenário mudou completamente depois da crise e que o planejamento anterior precisou ser revisto. No entanto, há um entendimento que o problema é administrável e Flávio ainda pode chegar com força política contra Lula na eleição.
Lula, por sua vez, viu Jaques Wagner (PT-BA), um aliado de quase 50 anos, . A PF apura suposta atuação do parlamentar a favor do banco em troca de “vantagens indevidas”. após aumentar a pressão no entorno do chefe do Executivo para que ele entregasse o cargo, numa tentativa de evitar prejuízos à imagem de Lula às vésperas das eleições.
A avaliação de petistas é que a permanência de Wagner no cargo poderia enfraquecer o discurso que vem sendo adotado por governistas e aliados de Lula de tentar atribuir as origens do escândalo ao governo Jair Bolsonaro e vincular Daniel Vorcaro a aliados do ex-presidente.
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