Poder e Governo
Temer apresenta documentário '963 dias', que teve dinheiro de fundo ligado a Vorcaro e entrevistas com Tarcísio e Moraes
Filme dirigido por Bruno Barreto teve exibição somente para convidados em São Paulo e deve chegar aos cinemas a partir de setembro
O documentário sobre os “963 Dias” do governo (MDB), previsto para estrear nos cinemas, em dez capitais brasileiras, a partir de setembro deste ano, rebate a narrativa de golpe contra a ex-presidente (PT), defende as reformas promovidas pela gestão, como a revisão das leis trabalhistas, e apresenta o político como vítima de uma trama de Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, e Joesley Batista, empresário da JBS que delatou suposto pedido de compra de silêncio do ex-deputado .
O filme foi exibido em avant-première nesta sexta-feira, 26, apenas para convidados, em três salas reservadas do Cinépolis do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Aparecem entre os entrevistados os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, além de ex-integrantes do governo e conselheiros políticos.
Nada de Janot e Cunha, no entanto, e nem de petistas na tela. O diretor Bruno Barreto, que tem em seu currículo o filme "O que é isso, companheiro?", de 1997, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, afirma ter chamado o ex-ministro José Dirceu, mas ele não aceitou o convite. Os contrapontos, quando presentes, ficaram a cargo de jornalistas e da solitária deputada Tabata Amaral (PSB), que admite a certa altura não concordar com o que Temer pensa em muitas coisas, mas o vê como um “estadista”.
— Eu tive toda a liberdade e, até por contrato, tinha direito a retirar meu nome do filme se a minha versão não fosse respeitada — afirmou Barreto. — Chamei as pessoas do PT, elas não quiseram, mas, para dizer a verdade, eu não estava interessado em ouvir ninguém que vai ficar repetindo uma cartilha ideológica, eu estava interessado em pessoas complexas. A minha meta foi fazer o espectador pensar, eu quero que as pessoas saiam instigadas desse filme, e não convencidas de nada.
Temer, por sua vez, disse após a sessão que não esperava “tanta fidelidade” e que o filme não é “chapa branca”, porque abordou em vários momentos o movimento Fora Temer, uma série de protestos organizados pela esquerda. Além de o documentário levar a frase “ história de um presidente que recolocou o Brasil nos trilhos” junto ao título “963 Dias”, a maioria das entrevistas foram realizadas em frente a painéis com frases positivas que lembram manchetes de jornais, como “país teve a primeira alta no PIB desde 2014”.
— Foi uma coisa perfeita, e sem dinheiro público, sem nada — afirmou o protagonista. — O que o documentário faz é retratar exata e fielmente a verdade dos fatos, desde o princípio até o fim. A essa altura, muita gente reconhece que fizemos um bom governo. Acho que os que não vão com a minha cara não vão gostar, mas aqueles que vão com ela, ou são imparciais, vão apreciar e aplaudir.
A produção custou R$ 12 milhões e recebeu doações de empresas privadas. Uma das cotas, de R$ 1 milhão, foi comprada, em 2023, pelo fundo Moriah Asset, ligado à família de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e acusado de praticar fraudes financeiras. Não há, contudo, investigações em aberto sobre a obra, diferentemente do pedido de R$ 134 milhões feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para “Dark Horse”, cinebiografia sobre o pai dele, Jair Bolsonaro, que mistura fatos com ficção.
A pré-estreia teve a presença de familiares, admiradores e aliados políticos do emedebista. Estiveram presentes o deputado federal Ricardo Salles, o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, assim como alguns dos entrevistados, entre eles Alexandre de Moraes, Rodrigo Maia, Moreira Franco e Antônio Imbassahy. A produção do longa é assinada pelo publicitário Elsinho Mouco, nome de confiança de Temer.
Do impeachment a Bolsonaro
O documentário aborda desde a escolha de Michel Temer como vice-presidente da República, nas eleições de 2010, até a ascensão de Jair Bolsonaro, com algumas referências à sua formação em Direito e à carreira política pregressa. Os primeiros minutos são quase inteiramente dedicados a abordar a inabilidade política, na visão dos entrevistados, da presidente Dilma Rousseff, o que teria culminado no processo de impeachment, em 2016.
Temer relata, neste momento, que havia sido escalado para melhorar a interlocução com o Congresso, mas suas promessas de cargos e liberação de recursos não eram atendidas pelos ministérios. E que, diante do fato, teria decidido se afastar. “Não acredito que tenha articulado alguma coisa”, diz um aliado. O manifesto "Uma ponte para o futuro", divulgado no final de 2015 e que serviu de diretriz de governo, teria sido erroneamente interpretado como uma medida de oposição por Dilma. Cunha, do MDB, passa a ser, assim, retratado como uma liderança que atuou sozinha contra o PT.
Os depoimentos dos ministros do STF surgem neste momento, e ajudam a contrapor a ideia de que a saída de Dilma teria sido um golpe. Mendes cita o processo como uma “solução política” à disposição do Legislativo e um exemplo de “parlamentarização” do sistema brasileiro. Moraes celebra o “maior período de estabilidade democrática” da história do país, destaca que impeachments derrubaram dois presidentes, um de direita e outra de esquerda, e opina no sentido de que a Constituição foi “cumprida normalmente”.
A partir disso, o documentário retrata reformas impopulares, como a da Previdência Social e a revisão das leis trabalhistas, e depoimentos defendem o teto de gastos, apresentado como uma alternativa ao aumento de impostos. Lembra ainda da participação de Tarcísio de Freitas no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), comandado pelo ex-ministro Moreira Franco, mesmo sob a pecha de “dilmista” entre auxiliares do presidente à época. O governador alega que Temer inaugurou “uma lógica diferente” de projetos de infraestrutura, e depois não fala mais nada.
O pacote econômico e fiscal do governo Temer é embalado como “a agenda que tirou o Brasil da recessão” e que só foi possível em razão da ausência de pretensões eleitorais. Em um trecho recuperado, o publicitário Nizan Guanaes diz ao presidente em uma reunião que “a popularidade é uma jaula” e que o governo seria uma oportunidade única para aprovar aquelas reformas a contragosto da maioria. Por outro lado, Temer assume como erro a tentativa de acabar com o Ministério da Cultura, o que teria gerado um “bolsão de resistência” na classe artística ao seu governo.
Do meio para o final da obra, há uma longa abordagem sobre a gravação feita por Joesley Batista, numa reunião privada com Temer, no Palácio do Jaburu, fora da agenda oficial, e usada posteriormente para firmar acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O empresário acusou o ex-presidente de concordar com a compra de silêncio de Cunha sobre casos de corrupção de que o deputado teria conhecimento. No áudio, Temer diz a frase “Tem que manter isso aí, viu?” depois que o dono da JBS cita “boa relação” com o líder da Câmara.
A permanência do emedebista no cargo passa a ser uma prova de que era um “guerreiro”, nas palavras da advogada Luciana Temer, filha do ex-presidente. Janot, por sua vez, é classificado nos depoimentos como alguém que “queria ser um justiceiro nacional”, com o vazamento da informação de Joesley Batista atribuído ao ex-chefe do Ministério Público. O documentário, neste ponto, registra um episódio em que Janot revelou ter entrado nas dependências do Supremo com uma pistola na cintura e cogitou matar Gilmar Mendes, seu desafeto, antes de tirar a própria vida: “Triste figura”, diz o ministro.
Jair Bolsonaro é citado pouco antes do fim, como um político de extrema direita que soube manipular a opinião pública através das redes sociais e ganhou apelo com o sentimento de rejeição à política. A greve dos caminhoneiros, que durou dez dias, em 2018, ainda no governo Temer, seria um prenúncio da ascensão do bolsonarismo, porque ela se espalhou rapidamente por grupos fechados nos aplicativos de mensagem e saiu do controle até de lideranças tradicionais da categoria. A solução veio pelo Supremo, com Moraes, que emitiu ordem para desbloqueio das rodovias.
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