Poder e Governo
Jerônimo se emociona ao sair em defesa de Jaques Wagner após PF apontar ligação com caso Master: 'Confiamos em você'
Investigações citam recebimento de 'vantagens indevidas' pelo senador
No primeiro ato conjunto de campanha após a operação da Polícia Federal (PF) contra o senador (PT), o governador e candidato à reeleição na Bahia (PT) se emocionou ao defender o companheiro de chapa. Wagner, que é pré-candidato ao Senado, deixou a liderança do governo Lula na Casa após ser alvo de investigações sobre a suposta atuação do parlamentar a favor do Banco Master em troca de “vantagens indevidas”.
‘Nunca teve coragem de comparecer’:
'Não quero guerra nem ser pego de surpresa':
— Ele esteve lá (em Brasília) e conversou com o amigo dele, amigo nosso, o Lula, e se acertou. Porque para além de um cargo de liderança, está o Brasil e a Bahia. Nós vamos mostrar, nós vamos provar, que se você tem um erro na vida, para eles, é o erro de cuidar dos pobres. E dedicar sua vida. E nós confiamos em você. A Bahia te ama — disse Jerônimo.
Após quase uma semana de crise e pressão por sua saída, Wagner deixou a liderança do governo no Senado na quarta-feira. Foi a primeira vez neste mandato que um nome próximo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou um posto de confiança na sequência de desgastes provocados por uma investigação da Polícia Federal. O senador nega que tenha atuado a favor do banco de Daniel Vorcaro em troca de benefícios pessoais.
Em mensagens nas redes sociais, Wagner compartilhou o vídeo da fala de Jerônimo e escreveu: "Com fé, coragem e de mãos dadas com o nosso povo, vamos seguir em frente!".
O PT da Bahia já havia prestado solidariedade à Wagner após a operação da PF. O diretório disse ter “total e plena confiança nas condutas do senador”.
“Ao longo de toda sua vida política, Wagner foi acusado injustamente inúmeras vezes e jamais teve absolutamente nada que o desabonasse. O andar das investigações vai mais uma vez provar que Wagner nunca se envolveu com qualquer ato ou ação fora da legalidade”, diz a nota do PT da Bahia.
Pressão crescente
A costura política até o desfecho de Wagner fora do cargo envolveu integrantes do Palácio do Planalto, como o ministro Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação Social), e aliados de Lula no Congresso. Os defensores da troca temiam ver esvaziado um discurso crítico às fraudes do Master usado para atacar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula.
Governistas apontaram o “constrangimento” com o cumprimento de mandados de busca e apreensão, o que incluiu a divulgação de uma foto de US$ 49 mil em espécie encontrados no quarto de hotel em que Wagner costuma ficar em Brasília. Ao todo, levando-se em conta também o montante em dólares e euros encontrados em um endereço do senador em Salvador, os agentes da PF recolherem o equivalente a R$ 482 mil, de acordo com a cotação atual.
Wagner resistiu por dias a sair do posto, mas a pressão aumentou junto com a avaliação de que as explicações apresentadas por ele foram insuficientes. No Planalto, a permanência dele era considerada insustentável. A situação foi discutida em uma reunião do núcleo de campanha na segunda-feira. A avaliação feita foi de que o PT deve manter apoio irrestrito às investigações da fraude bancária do Master “alcance quem alcançar”.
Aliados também apontam que o fato de Wagner ter dito diversas vezes que não havia possibilidade de vir à tona relações suas com o Banco Master o enfraqueceram no posto. Até mesmo entorno do senador considerou desastrosa a entrevista de Wagner no dia da operação da PF. À Band News, ele afirmou que iria continuar no cargo de líder do governo até decisão contrária de Lula. O parlamentar também disse que o presidente falou com ele para prestar solidariedade.
Para governistas, havia necessidade de troca na liderança para que fosse possível “mudar de assunto”. Lula tem até 4 de julho para participar de inaugurações — depois disso, a lei eleitoral veda iniciativas do tipo. O presidente planeja idas a Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, onde perdeu para Jair Bolsonaro em 2022, e uma passagem pela Bahia.
Lula irá ao estado de Wagner participar das comemorações do 2 de Julho, data da Independência da Bahia. Também está prevista a inauguração de um hospital em Alagoinhas, a reinauguração do Teatro Castro Alves, na capital, e o lançamento do canteiro de obras da ponte que vai ligar Salvador à Ilha de Itaparica.
Relação estremecida
Wagner também foi perdendo força na bancada do PT no Senado. Petistas abriram conversas sobre a substituição, e a senadora Teresa Leitão (PT-PE) foi a escolhida.
A PF afirmou que Wagner manteve interlocução com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, durante a tramitação de propostas no Congresso sobre crédito consignado e o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e ainda durante a fiscalização parlamentar sobre a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB).
A Polícia Federal aponta uma correlação entre tais atuações e supostas “vantagens econômicas indevidamente” recebidas pelo parlamentar, como o uso gratuito de aeronaves de Augusto Lima e do Banco Master; o recebimento de ingressos de alto valor para shows no exterior; a compra de um apartamento; e pagamentos à empresa vinculada a seu núcleo familiar.
Investigação
Segundo a corporação, a atuação de Wagner na pauta do crédito consignado, por exemplo, em 2022, ocorreu em “contexto temporal próximo” ao início de relações contratuais entre o Master e uma empresa da família do senador.
Já durante a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição ligada ao FGC, a Polícia Federal identificou uma sequência de contatos entre o enteado do senador, Vorcaro, o chefe de gabinete do parlamentar e Augusto Lima. Os investigadores dizem que em agosto de 2024, no dia em que uma emenda foi incluída na PEC, Lima ligou para Jaques e, em seguida, encaminhou ao parlamentar o link do texto.
A defesa de Wagner recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para anular a decisão que autorizou a busca e apreensão contra o parlamentar na semana passada. Em nota, o advogado Pablo Domingues diz que apresentou recurso e busca a anulação “apontando erros graves que comprometem a medida”. O texto diz ainda que há equívocos na decisão porque o parlamentar “jamais atuou no Congresso para favorecer” a instituição financeira. Domingues reforça que o dinheiro encontrado em endereços ligados ao parlamentar têm “origem lícita e comprovada”.
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