Poder e Governo
Boulos defende Erika Hilton em crise interna do PSOL sobre fundo eleitoral: 'Tem muita razão'
Ministro afirma que 'acordo se cumpre' após parlamentar acusar a direção nacional da sigla de desrespeitar suposto combinado prévio, o que estaria 'inviabilizando' sua campanha
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), defendeu a correligionária em meio à crise interna no PSOL sobre a distribuição do fundo eleitoral para o pleito deste ano. Esta semana, a deputada federal acusou a direção nacional da sigla de sua campanha à reeleição na Câmara Federal — a legenda afirma que a parlamentar já receberá mais dinheiro que os demais, numa deferência a ela.
'Rasgando acordos' x 'candidatura com mais investimento':
'Não aceitarei ser negligenciado de novo':
A manifestação pública de Erika ocorre três semanas antes da reunião da Executiva Nacional do PSOL que, em 18 de julho, baterá o martelo sobre a divisão de recursos. Boulos disse à CNN Brasil que não tem acompanhado os debates internos, mas deu razão à deputada federal.
— Neste caso, em particular, eu acho que a deputada Erika Hilton, minha companheira, tem muita razão. É natural que ela faça cobrança de que uma candidatura como a dela, que é de puxadora de voto, seja valorizada pelo partido, assim como outras — declarou.
Aliado de Erika nas correntes internas do PSOL, o ministro do governo Lula cobrou o respeito a acordos políticos.
— Tem uma coisa que vale para a política e a vida: acordo se cumpre. A palavra é aquilo que você tem de mais valioso para ter credibilidade. Quando não se cumpre acordo, as coisas descambam — destaca.
Erika deve receber R$ 2,3 milhões
Um dia após a declaração da deputada federal Erika Hilton (SP) sobre os repasses do PSOL para sua campanha eleitoral, o partido declarou prever R$ 2,3 milhões do fundo eleitoral para a reeleição da parlamentar. O total é superior aos R$ 2,2 milhões a ser recebido por outros deputados do partido que tentam novos mandatos na Câmara, e é 61,5% maior ao recurso recebido por Erika em 2022.
Na terça-feira, Erika sustentou que, para percorrer o estado de São Paulo como puxadora de votos do partido, é preciso logística e um forte esquema de segurança. Segundo a deputada, ela e seu grupo político “correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar”, sob o risco, ainda de acordo com Erika, de inviabilização de pré-candidaturas, rebaixamento do potencial de votos e ameaças à integridade física.
Em março, o grupo de Erika, Revolução Solidária, decidiu disputar as eleições deste ano pelo PSOL, mesmo após o diretório nacional decidir não ingressar na federação PT-PCdoB-PV. A união era defendida pela deputada e pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
— Foi prometido que eu estaria na faixa de puxadores de voto quando optei por permanecer no PSOL. Ficou claro que minha campanha receberia um valor substancialmente maior que a faixa de deputados à reeleição. O acordo não foi cumprido — diz Erika.
Internamente, a ala oposta à de Erika entende que a manifestação da parlamentar tem três objetivos principais: barganhar o crescimento do valor do fundo destinado à campanha dela, trabalhar pela eleição de Natália Boulos à Câmara e iniciar a construção de uma narrativa para a saída do partido em um futuro próximo.
Integrantes da direção nacional defendem que a destinação superior à Erika já representa uma “deferência a ela”. Segundo a sigla, em 2022, nenhum candidato recebeu a mais que os demais, conforme as faixas. Inclusive o puxador de votos naquele ano, Guilherme Boulos, recebeu menos do que candidatos em reeleição, segundo a sigla.
Fontes ligadas à cúpula do partido dizem que Erika esperava receber o teto autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para os partidos reservarem para candidaturas a deputado federal. Na eleição de 2022, esse valor foi de R$ 3,1 milhões. A expectativa é que a Corte mantenha o patamar este ano ou faça um leve reajuste. O prazo para a decisão é 20 de julho.
Já aliados de Hilton questionam a interpretação de que a manifestação da deputada seja um “ensaio” para sair da legenda. Alegam que a parlamentar não precisaria de uma “desculpa” como essa, depois da divulgação de carta pública da Revolução Solidária após a direção do PSOL, sob comando de Paula Coradi, rejeitar por maioria a formação de uma federação com o PT.
O grupo, do qual Erika e Guilherme Boulos fazem parte, disse na ocasião que o PSOL optou por um “caminho de isolamento” em detrimento do debate de soluções políticas e deixou em aberto o rumo político dos integrantes.
A ala que apoia Erika Hilton sustenta que o apelo da deputada vem num momento de crise interna do partido e a tensão pela possibilidade de uma saída coletiva após as eleições. Isso, segundo as mesmas fontes, pode estar interferindo na discussão financeira, com a ideia de não investir em campanhas de figuras que possam vir a deixar o PSOL.
Também argumentam que a tensão interna tem exposto privilégios a pré-candidatos cis, heterossexuais e brancos. O cenário teria ficado ainda mais preocupante, segundo elas, depois de o STF validar por maioria a emenda que anistia partidos que violaram cotas eleitorais de minorias.
Critérios questionados
Na terça-feira, Erika questionou os critérios adotados para o financiamento das campanhas e comparou o valor a ser recebido por ela com a verba prevista para outros nomes, com menos tempo no Congresso ou na federação PSOL-Rede. , a deputada afirmou que se comprometeu a permanecer no PSOL para que a sigla alcançasse a cláusula de barreira e, para isso, teria direito a recursos a mais definidos para uma categoria de puxadores de voto.
Em postagem nas redes sociais, a deputada cita os deputados estaduais Renata Souza (RJ) e Carlos Giannazi (SP) e o vereador Rick Azevedo (RJ) — que receberá R$ 900 mil, como outros vereadores que vão concorrer à Câmara dos Deputados — como outros parlamentares que estariam insatisfeitos com a gestão.
A parlamentar também afirmou que foi informada por aliados de que a executiva nacional apresentou uma planilha que não a teria incluído na faixa combinada e que não teve acesso ao documento.
“Hoje, Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. Manuela d’Ávila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro. Respeito a trajetória deles e adoraria vê-los eleitos, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios… A inteligência política passou longe”, disse.
Manuela é pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul e lidera as pesquisas de intenções de voto. Aposta da esquerda gaúcha, Manuela integra a chapa encabeçada por Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT) ao governo. Já Medeiros disputará uma vaga na Câmara por São Paulo, assim como Natalia Boulos, que é próxima de Erika.
O partido prevê que Manuela d'Ávila receba R$ 5 milhões. A sigla defende que o valor deva ser maior por se tratar de uma eleição majoritária e por avaliar que a campanha dela vai alavancar proporcional no Rio Grande do Sul, ou seja, fazer mais deputados federais no estado. Ela vai receber o teto do repasse previsto para postulante ao Senado. Medeiros e Natalia Boulos receberão, por sua vez, R$ 2 milhões cada.
À coluna de Lauro Jardim, Erika exemplificou que, na chapa estadual em São Paulo, Luiza Erundina receberia a mais que aqueles que tentam se reeleger. Segundo o PSOL, Erundina sairia para federal, vai para estadual e é vista como puxadora de voto. Vai receber bem menos do que se fosse para federal, mas vai ser mais do que a média, acrescenta a legenda.
Medeiros afirmou nesta quarta-feira não achar que "debater nas redes sociais seja a melhor forma de resolver essas questões". O presidente da federação PSOL-Rede também defendeu que o partido manteve os critérios de distribuição do fundo eleitoral.
"A destinação maior de recursos para mulheres, LGBTs, negros, pessoas com deficiência e indígenas é uma política consolidada no partido e vai continuar", disse Medeiros.
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