Poder e Governo
Vídeo de Michelle é 'mais um revés' para campanha de Flávio e expõe 'desarmonia' em 'realeza da direita', diz Financial Times
Jornal ressalta que senador estava empatado com Lula nas pesquisas, mas caiu após 'alguns deslizes'
A crise aberta pela ex-primeira-dama com vídeos em que tornou público o desentendimento com o enteado é "mais um revés" para a campanha "já fragilizada" do pré-candidato do PL à Presidência. A avaliação é do jornal Financial Times, que repercutiu a guerra aberta dentro do que chamou de "realeza política de direita do Brasil".
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No texto, o FT ressalta que, até pouco atrás, Flávio aparecia empatado com o principal oponente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No entanto, sua "estrela caiu" após "alguns deslizes, como a revelação de seus elos com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusação de fraude bilionária no Banco Master.
"A disputa pública expõe uma antiga desarmonia entre Michelle, que se tornou uma figura popular entre os conservadores brasileiros , e os quatro filhos políticos de seu marido, de 71 anos", ressaltou o jornal.
Tensão na pré-campanha
Os vídeos de Michelle expuseram divisões no bolsonarismo e atrapalhou o movimento de busca pelo eleitorado feminino, de acordo com integrantes da pré-campanha do senador à Presidência. Reservadamente, aliados avaliam que o episódio do vídeo, publicado anteontem, atingiu um dos principais pilares do projeto eleitoral do parlamentar, que vem buscando ampliar sua presença além do núcleo mais fiel de apoio.
Desde o início do ano, pesquisas internas vêm orientando Flávio a uma estratégia voltada para mulheres, que representam mais da metade do eleitorado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 41% das intenções de voto nesse segmento, contra 24% de Flávio (essa diferença é de 39% a 29% no quadro geral).
É nesse ponto que Michelle é vista como um ativo eleitoral difícil de substituir. Além de falar com mais facilidade ao eleitorado feminino, a ex-primeira-dama comanda o PL Mulher desde 2023 e percorreu o país estruturando diretórios, identificando novas lideranças e fortalecendo a presença da sigla entre mulheres conservadoras.
Um aliado resume a preocupação dizendo que o episódio atinge justamente um eleitorado que Flávio “não pode perder de jeito nenhum”. Na avaliação desse interlocutor, Michelle leva consigo uma parcela importante de mulheres evangélicas. O segmento religioso também preocupa o senador. Na semana passada, o pastor Robson Rodovalho afirmou em entrevista à newsletter Jogo Político, do GLOBO, que “o evangélico perdeu a confiança em Flávio por não falar a verdade sobre Vorcaro”, se referindo aos áudios em que o pré-candidato pede dinheiro ao dono do Master para a cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
No vídeo de 27 minutos, Michelle disse ter sido maltratada por Flávio, reafirma sua discordância sobre o apoio do PL a Ciro Gomes no Ceará e destacou seu trabalho com as mulheres do partido. No cenário da gravação, ela expõe objetos religiosos e mensagens bíblicas, reforçando sua relação com o segmento evangélico.
Surpresa e irritação
A fala de Michelle dizendo ter sido “maltratada” gerou especial preocupação. Poucas horas depois, Flávio publicou nas redes sociais um vídeo em que afirmou nunca ter desrespeitado uma mulher.
— Ele (Flávio) foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — disse Michelle na gravação.
Flávio abre seu texto de resposta lembrando que é “casado há 16 anos, pai de duas filhas maravilhosas e nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na vida”. Poucos minutos depois, sua mulher, Fernanda, saiu em defesa do marido, “um pai dedicado às duas filhas”.
O abalo provocado pelo vídeo deixou o senador irritado, segundo aliados, que afirmam que ele foi surpreendido. Ele disse a interlocutores que jamais havia sido desrespeitoso dessa forma, em público. Os vídeos foram publicados pouco antes do jogo da seleção na Copa do Mundo e, enquanto o Brasil construía a vitória por 3 a 0, o senador dividia a atenção entre telefonemas e mensagens com assessores e pessoas próximas da pré-campanha. O grupo discutia o impacto do episódio e a melhor estratégia.
Apesar do incômodo, o senador evitou elevar a temperatura da crise com Michelle e passou boa parte da noite ouvindo avaliações sobre a melhor forma de reagir. A pessoas próximas, disse que trataria do caso diretamente com o pai. A ex-primeira-dama tem dito a aliados que o marido tinha conhecimento do teor do vídeo.
As conversas resultaram em uma tentativa de conter a crise. Flávio pediu desculpas e convidou a madrasta para participar de um evento de campanha voltado às mulheres. A ex-primeira-dama não tinha até a noite de ontem indicado a aliados se iria, mas publicou nas redes sociais que “não tem raiva de ninguém” e que “não há briga nem competição”.
Além da mobilização de Michelle, a campanha vinha construindo outros gestos voltados ao eleitorado feminino. Flávio passou a defender publicamente o nome de uma mulher para a chapa como candidata a vice e intensificou discursos sobre maior participação feminina em cargos de comando.
Agora, aliados admitem que a discussão sobre a vice ganhou novo peso. Embora a definição estivesse prevista apenas para uma etapa posterior da campanha, interlocutores afirmam que a repercussão do vídeo reforçou a necessidade de acelerar essa escolha. Aliados de Michelle avaliam ainda que o vídeo pressiona Flávio a conversar e abrir espaço a ela na campanha.
Apoios e críticas
O vídeo também expôs reações distintas no bolsonarismo. Nas redes sociais, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro repostou a fala da mulher de Flávio, que descreveu o marido como um “homem leve, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às duas filhas”. Já outros aliados do senador, como o deputado cassado Alexandre Ramagem e o deputado Mario Frias (PL-SP) republicaram o comunicado postado por Flávio no qual ele nega ter desrespeitado a ex-primeira-dama.
Quem também replicou o pronunciamento de Flávio foi o presidente do PL no Ceará, o deputado André Fernandes, que está em lado oposto ao de Michelle na disputa no estado que fez a crise eclodir.
Já Michelle teve o apoio de aliadas como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que afirmou que a crise tomou essa proporção porque Flávio e os irmãos não fizeram um gesto em direção a Michelle.
— Ela foi verdadeira, firme, serena e esclareceu tudo. Esperou meses tudo ser resolvido e não deram nenhum passo em direção a ela. Mas acho que agora é possível um diálogo — afirmou.
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), também tomou o lado de Michelle no embate. “Você brilha! E isso incomoda muita gente! Não é fácil ser mulher na política! Você não está sozinha! Somos todas Michelle”, escreveu nas redes.
Parlamentares da esquerda comentaram a reação de Michelle, entre elas a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A petista acionou a Justiça contra o então deputado Jair Bolsonaro por, em 2014, ter dito que não a estupraria porque ela “não merece”.
“Por coerência reafirmo que nenhuma mulher deve ser menosprezada”, escreveu.
O presidente do do PL, Valdemar Costa Neto, disse ontem que vai atuar para tentar superar a crise. Em nota, o dirigente partidário declarou que vai procurar os dois para conversar pessoalmente.
“Assim que falar pessoalmente com os dois irei me manifestar publicamente, mas já adianto que admiro a coragem dos que defendem aquilo que acreditam. O PL segue focado em retirar esse governo que está aí e devolver o Brasil aos brasileiros, e nada será capaz de nos tirar desse foco”, afirmou em nota.
Valdemar disse ainda que é “preciso respeitar a liberdade para se expressar o que pensa” e fez outros elogios a Michelle e Flávio. “Conhecem muito bem nosso presidente Bolsonaro e sabem do grande respeito que ele tem às convicções e aos
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