Poder e Governo

Pautas-bomba, afastamento entre Lula e Alcolumbre e calendário apertado impõem desafios à nova líder do governo no Senado

Teresa Leitão assumiu posto de Jaques Wagner, que deixou a função após operação da PF que apontou vínculo com o escândalo do Master

Agência O Globo - 26/06/2026
Pautas-bomba, afastamento entre Lula e Alcolumbre e calendário apertado impõem desafios à nova líder do governo no Senado
Teresa Leitão - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado Fonte: Agência Senado

Indicada para ocupar a liderança do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE) terá pela frente o desafio de destravar pautas de interesse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que estão paradas na Casa, evitar o avanço de pautas-bombas às vésperas das eleições e tentar restabelecer uma interlocução com Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) num momento de afastamento dele com o Palácio do Planalto.

Teresa foi anunciada por Lula nesta quinta-feira, um dia após Jaques Wagner (PT-BA) deixar o posto depois de ter sido alvo de operação da Polícia Federal relacionada às investigações do Banco Master. O nome da senadora já vinha sendo cotado pelo fato de ela não disputar eleições neste ano, mas até mesmo aliados de Lula reconhecem que ela não tem tanto diálogo com demais bancadas e até mesmo com Alcolumbre. Eleita em 2022, preside atualmente a comissão de Educação e Cultura do Senado. O fato de ser uma mulher também pesou na sua escolha para substituir Wagner, por ser um aceno ao segmento.

Um ministro de Lula minimiza qualquer ruído no Congresso com a escolha da petista e diz que ela mantém boa interlocução com Alcolumbre. Um aliado de primeira hora do presidente do Senado, no entanto, diz que a relação é apenas cordial, como qualquer outra que ele mantém com os senadores. A avaliação de governistas é que o ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, focará sua atuação no Senado para reforçar esse diálogo junto à cúpula. Isso porque a Câmara já aprovou temas de interesse de Lula e o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), está mais próximo do chefe do Executivo.

Na publicação que oficializou o nome de Teresa na liderança Lula afirmou que a aliada terá a missão de articular o debate e a aprovação de projetos “de interesse da população brasileira que estão em tramitação”, citando as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) do fim da jornada de trabalho 6x1 e a da Segurança Pública, duas das principais prioridades da gestão petista.

Além desses dois projetos que estão travados no Senado, o governo lista também a aprovação do projeto de minerais críticos, afirmando ser importante discutir esse texto num momento em que o governo Donald Trump ameaça impor novas sanções aos produtos brasileiros. Todos esses temas avançaram na Câmara, mas estão parados na Casa alta. O calendário apertado até a eleição impõe um obstáculo extra para as tarefas.

A avaliação de governistas é que os projetos não devem avançar enquanto não houver uma conversa pessoal entre Lula e Alcolumbre. Os dois estão afastados após o Senado rejeitar a indicação de Jorge Messias para uma vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF). O Planalto avalia que Alcolumbre foi o responsável por orquestrar essa derrota e impor revés histórico a Lula. Nesse meio tempo, foram escalados interlocutores para tentar pavimentar uma reaproximação das duas autoridades, entre eles Guimarães, Motta, o ministro José Múcio (Defesa), e o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), mas não houve avanços.

Apesar de ter sinalizado que estaria disposto a se reunir com Alcolumbre, Lula não tem demonstrado interesse numa conversa com o senador. Aliados do petista dizem que ainda não há clima para um encontro entre eles.

O governo federal tem pressa para aprovar essas matérias ainda neste primeiro semestre e antes do recesso parlamentar (que começa oficialmente em 18 de julho), já que a partir de agosto historicamente o Congresso fica esvaziado, com os parlamentares focando a atuação em seus redutos eleitorais. O Planalto quer explorar a votação desses temas, de grande alcance nacional, para capitalizar eleitoralmente e usar como bandeiras da gestão petista. Além desses projetos, o governo tem como prioridade evitar o avanço de pautas de grande impacto nas contas públicas, as chamadas “pautas-bomba”, às vésperas das eleições.

No último dia 10, o Senado avançou com três matérias que, segundo cálculos do governo federal, devem ter impacto fiscal na ordem de R$ 300 bilhões. Parlamentares deram aval a propostas de renegociação de dívidas rurais, aumento de piso para médicos e aposentadoria especial para enfermeiros, contrariando o Planalto. Na semana passada, Alcolumbre anunciou a votação de uma nova pauta-bomba, uma PEC que cria aposentadoria especial para os agentes da saúde.

A tarefa de Teresa, dizem senadores, será tentar ganhar tempo junto ao parlamentar para que o governo possa apresentar alternativas ou costurar um meio-termo. A equipe econômica do governo Lula também já indicou que acionará o STF para evitar o avanço dessas matérias.

A senadora também terá outro desafio com a articulação para o andamento de Medidas Provisórias (MPs) no Congresso, segundo aliados. Hoje estão em tramitação 34 Mps, sendo diversas delas sem sequer a instalação da comissão mista, formada por deputados e senadores, que analisam a proposta antes de ela seguir para votações na Câmara e no Senado.