Poder e Governo

PT se divide em Minas após sigla anunciar plano de candidatura própria e irritar ex-prefeita cotada ao Senado

Direção nacional tentará convencer Marília Campos, hoje pré-candidata a senadora, a encarar disputa pelo governo, o que ela refuta; ex-prefeita vem defendendo apoio a Gabriel Azevedo (MDB)

Agência O Globo - 26/06/2026
PT se divide em Minas após sigla anunciar plano de candidatura própria e irritar ex-prefeita cotada ao Senado
Marília Campos - Foto: Reprodução / Instagram

O anúncio de que o PT decidiu ter candidatura própria ao governo de Minas Gerais irritou a pré-candidata ao Senado Marília Campos, nome prioritário do partido para a empreitada. A ex-prefeita de Contagem, que não quer encarar a eleição para o Executivo e vem trabalhando pelo apoio a um candidato de outra sigla, classificou a decisão como equivocada. Cálculos internos de alas da legenda, além da intenção de enquadrar os partidos da aliança nacional em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, compõem o pano de fundo do movimento do diretório estadual.

STF:

'Não vi e não vou ver':

Depois da divulgação de que Lula deu aval ao entendimento do braço mineiro do partido, na quarta-feira, Marília demonstrou irritação a aliados. Para ela, além de prejudicar uma possível vitória para o Senado, a iniciativa partidária fará a sigla dar aos adversários a munição do antipetismo, já que o governo Fernando Pimentel (2015-2018), extremamente impopular, é até hoje um tema relevante na política local — e não é defendido nem mesmo pelos quadros do PT.

“Embora legítima do ponto de vista partidário, ela (a decisão) representa um equívoco estratégico que pode fragilizar o campo democrático e popular no estado”, disse a ex-prefeita, em nota divulgada à imprensa. “Reproduzir uma disputa fortemente polarizada tende a recolocar no centro do debate conflitos que pouco contribuem para enfrentar os problemas concretos dos mineiros, além de dificultar a formação de uma maioria política capaz de sustentar o projeto democrático liderado pelo presidente Lula.”

Impacto na disputa

Observadores dos movimentos internos do PT veem na pressão sobre Marília as digitais de setores do partido que seriam diretamente afetados pela ida da ex-prefeita à eleição para o governo — hoje ela é o nome mais viável para a disputa. O deputado de seis mandatos Reginaldo Lopes, por exemplo, seria a opção natural para assumir o posto de candidato ao Senado. Sem ele na disputa por uma cadeira na Câmara, outros nomes, como a secretária nacional de finanças do partido, Gleide Andrade, ganhariam espaço.

Marília vai se encontrar com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, nos próximos dias. A ideia de candidatura própria deve envolver também um acordo maior com os partidos da aliança de Lula, que, em Minas, estão divididos. O PDT tem o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil como pré-candidato, o PSB alimenta algumas possibilidades e o PSOL também vem reforçando candidatura própria, embora passe por divergências internas.

A prioridade seria Kalil, que chegou a ser cogitado para representar o palanque de Lula. Caso avance por candidatura própria, o PT tentará um acordo com o PDT para que ele não se candidate. As conversas passam pela composição em outros estados. Um exemplo é o Rio Grande do Sul, onde há pressão para os petistas apoiarem Juliana Brizola, do partido fundado pelo avô Leonel Brizola.

Antes do diretório estadual prevalecer e convencer Lula da ideia de candidatura própria, o PT ensaiou uma série de possibilidades. O favorito do presidente por muito tempo foi o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB), mas ele desistiu de vez há poucas semanas, após meses de impasse.

Depois, houve uma tentativa de reaproximação com Kalil, e, mais recentemente, as conversas com o ex-vereador de Belo Horizonte Gabriel Azevedo (MDB) estavam a pleno vapor. Foi Marília, inclusive, quem iniciou as conversas entre o emedebista e a cúpula do PT. Azevedo chegou a almoçar em Brasília com Edinho e o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi.

Um cenário de “frente ampla” é o que a pré-candidata ao Senado defende, mas sem que o PT encabece a chapa, como reforçou na nota enviada ontem.

“O caminho não é apresentar uma candidatura própria, mas liderar a construção de uma aliança ampla e competitiva, reunindo PT, PCdoB, PV, PSB, MDB, Rede, PSOL, PDT e outras forças que sustentam o governo federal”, alega. “A eleição de Lula em 2022 demonstrou que os melhores resultados surgem do diálogo, da convergência e das frentes ampla.”

Além da esquerda, a eleição em Minas vive diversas indefinições. O líder das pesquisas, Cleitinho Azevedo (Republicanos), não confirma se será candidato, e o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) também não tem um palanque definido no segundo maior colégio eleitoral do país. Ex-vice de Romeu Zema (Novo), o governador Mateus Simões (PSD) tenta a reeleição, mas ainda não engrenou.