Poder e Governo
Michelle acusa Flávio Bolsonaro de humilhação e expõe crise no PL
Em vídeo, ex-primeira-dama reclama de ataques coordenados, nega ambição presidencial e critica aliança com Ciro Gomes no Ceará
Em vez do esperado apoio à campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou um vídeo de 27 minutos no Instagram no qual criticou o enteado e seus irmãos, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Considerada pelo PL uma peça importante para reduzir a rejeição de Flávio entre o eleitorado feminino e manter a fidelidade de evangélicos, Michelle afirmou que o presidenciável a “maltratou”, “desrespeitou” e a tratou como “idiota” em um telefonema que classificou como “humilhação”.
O pano de fundo da crise é a insatisfação da ex-primeira-dama com o apoio do partido à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Ceará, em detrimento do senador Eduardo Girão (Novo). Michelle também critica o fato de lideranças da sigla no estado terem retirado espaço da deputada Priscila Costa, pré-candidata ao Senado.
No vídeo, Michelle reclama de um “grupo de maledicência coordenada a partir de quem está no exterior”, em referência ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro, e afirma haver atuação coordenada dos enteados contra ela nas redes sociais. A ex-primeira-dama nega ter pretensão de disputar o Palácio do Planalto e também rejeita a versão de que teria exigido de Flávio um pedido público de desculpas para se engajar na campanha.
‘Ele foi muito ríspido’
Michelle afirma ter recebido uma ligação de Flávio horas depois de tornar públicas suas críticas às negociações do PL com Ciro Gomes. Segundo ela, antes disso tentou contato com o enteado por telefone e, quando ele retornou, ouviu que seria melhor não interferir nos rumos do partido.
— Ele foi muito ríspido. Me desrespeitou e me maltratou ao telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — afirmou.
Michelle disse que, diante da “humilhação”, entendeu que Flávio não queria seu apoio ou que sua participação seria “insignificante”.
— E então eu me recolhi, fiquei na minha e assim permaneço.
Na sequência, a ex-primeira-dama afirmou que iria desmentir “narrativas e notícias que circulam na imprensa”.
— Eu sei quem as planta, eu sei quem são as fontes. Eles me tratam como se eu fosse idiota. Como se eu fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam.
Após expor as divergências com os enteados, Michelle disse, em meio a citações religiosas, que “já liberou o perdão faz muito tempo”, mas ressaltou que “perdoar não é o mesmo que esquecer ou querer continuar o relacionamento”. Ela também afirmou que, depois do telefonema, não foi mais procurada por Flávio.
— O Flávio vai à minha casa toda semana, mais de uma vez. Se ele realmente quisesse falar comigo, já teria falado. Se considerasse necessário o meu apoio, já teria conversado. Estou na minha, continuarei recolhida.
Resposta de Flávio
Cerca de uma hora após a publicação do vídeo, Flávio Bolsonaro disse, em uma live, que “nada nem ninguém” o aborrece em dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo.
— Hoje, dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar aqui de coisa boa, tratar aqui de futebol — disse, sem fazer referência direta a Michelle.
Na gravação, a ex-primeira-dama afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem se refere em boa parte do vídeo como “meu galego”, sabe dos “ataques” e das “mentiras” dos quais ela diz ser alvo. Michelle também declarou que essas ações partem de pessoas que se apresentam como defensoras e aliadas do ex-presidente, que está em prisão domiciliar após condenação pela trama golpista.
Desde dezembro, quando Flávio anunciou que o pai o havia escolhido como nome do bolsonarismo à Presidência, Michelle tem se mantido afastada do projeto político do filho do marido. A relação azedou quase um mês antes do anúncio, em razão do cenário político no Ceará.
Na época, o senador classificou a postura da madrasta como “autoritária” depois que Michelle se posicionou contra uma aliança articulada para que o bolsonarismo apoiasse Ciro Gomes ao governo estadual.
Outro ponto de conflito é a escolha do nome do PL para o Senado no Ceará. O diretório regional quer lançar o deputado estadual Alcides Fernandes na chapa de Ciro. Ele é pai de André Fernandes, presidente estadual do PL. A articulação tem o apoio de Flávio. Michelle, por sua vez, pretende ir ao Ceará para participar do lançamento da pré-candidatura ao Senado de Priscila Costa, vice-presidente nacional do PL Mulher e uma de suas principais aliadas.
— Em 2026 serão 54 vagas para o Senado Federal. Se aplicarmos a regra dos 30% para candidaturas femininas, teríamos direito a 17 vagas para mulheres no partido. Eu pedi apenas três: Priscila Costa, Carol de Toni e Bia Kicis. Três vagas de 17 que poderíamos ter, e tem sido uma batalha diária manter essas três.
Impacto na campanha
Aliados de Flávio temem que o episódio prejudique a campanha. Embora uma ala do PL minimize publicamente a crise e evite tratar o caso como ruptura, integrantes do partido admitem, reservadamente, que a exposição das divergências foi desnecessária. A principal preocupação é que o conflito dificulte a aproximação de Flávio com o eleitorado feminino, considerado estratégico.
Na avaliação de integrantes da campanha, Michelle reúne um patrimônio político difícil de substituir entre mulheres evangélicas e lideranças do PL Mulher.
O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse confiar que a legenda conseguirá superar o episódio.
— Não é normal que assuntos internos sejam expostos em redes sociais. Mas tenho plena confiança de que o partido saberá conduzir com equilíbrio os próximos passos.
Mais lidas
-
1ALARME FALSO
'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em várias cidades
-
2EDUCAÇÃO
Filho de Luciano Huck e Angélica relata principal dificuldade na preparação para o vestibular
-
3OCORRÊNCIA
Acidente envolvendo carreta deixa duas vítimas fatais no trecho da Chã dos Costas
-
4TRÂNSITO
Detran-RJ vai exigir exame toxicológico de quem tirar primeira habilitação para carros e motos
-
5ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas