Poder e Governo

Michelle diz que Flávio Bolsonaro foi ríspido e a desrespeitou ao telefone

Declaração ocorre em meio a disputas internas no entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro e a divergências sobre apoio do PL a Ciro Gomes

Agência O Globo - 24/06/2026
Michelle diz que Flávio Bolsonaro foi ríspido e a desrespeitou ao telefone
Michelle Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) afirmou, nesta quarta-feira, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do partido ao Palácio do Planalto, a “maltratou” e a “desrespeitou” durante uma ligação telefônica. A declaração ocorre em meio a uma disputa de poder no entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Desde dezembro, quando Flávio anunciou ter sido escolhido pelo pai como nome do bolsonarismo para a corrida presidencial deste ciclo eleitoral, Michelle tem se mantido afastada do projeto político conduzido pelos filhos do ex-presidente.

Segundo Michelle, a ligação ocorreu horas depois de ela tornar públicas críticas às negociações envolvendo um possível apoio do PL a Ciro Gomes, no Ceará. A ex-primeira-dama disse que tentou falar com Flávio por telefone e que, ao receber o retorno, ouviu que seria melhor não interferir nos rumos da legenda.

— Ele foi muito ríspido. Me desrespeitou e me maltratou ao telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política — afirmou Michelle.

Veja o vídeo:

Histórico de atritos

O desgaste na relação entre Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro é resultado de divergências no núcleo bolsonarista sobre a escolha do representante do grupo na disputa pelo Planalto, em meio a uma disputa por protagonismo político.

Michelle e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro romperam relações após o ex-parlamentar desaprovar publicamente o nome da madrasta como eventual candidata à Presidência ou à Vice-Presidência.

A relação com Flávio Bolsonaro também se deteriorou quase um mês antes do anúncio dele como pré-candidato ao Planalto. O afastamento ocorreu depois de o senador fazer críticas públicas à ex-primeira-dama, classificando sua postura como “autoritária”.

A fala de Flávio ocorreu após Michelle se posicionar contra uma aliança articulada no Ceará para que o bolsonarismo apoiasse Ciro Gomes na disputa pelo governo estadual. A ex-primeira-dama defendeu, na ocasião, o nome do senador Eduardo Girão (Novo). Posteriormente, Flávio afirmou ter pedido desculpas à madrasta.

Sem espaço na corrida presidencial, Michelle indicou que poderia disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal. A participação dela nas eleições, no entanto, foi colocada em dúvida pela própria ex-primeira-dama. Em março, Michelle afirmou que ficaria afastada das articulações políticas enquanto Jair Bolsonaro se recuperava.

Em maio, a reação de Michelle à crise envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reacendeu a tensão na família. Segundo relatos feitos ao jornal O Globo, o ex-vereador Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro reclamaram a aliados da ausência de uma defesa pública mais enfática por parte da ex-primeira-dama, depois que ela evitou comentar o caso e disse que perguntas sobre o tema deveriam ser feitas “ao próprio Flávio”.

O desconforto aumentou porque, no mesmo evento em Brasília, Michelle também se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como “irmão em Cristo”. A expressão foi usada pela ex-primeira-dama ao comentar a autorização dada pelo magistrado para que Jair Bolsonaro recebesse um cabeleireiro durante o período de prisão domiciliar.

Nos bastidores do PL, a postura de Michelle é interpretada como sinal de que ela continua preservando sua própria posição política, caso Jair Bolsonaro decida discutir mudanças no cenário presidencial da direita.

Segundo o colunista Lauro Jardim, do Globo, Michelle e Flávio não se falaram pessoalmente neste ano. A comunicação entre eles teria ocorrido apenas por intermediários, como o coordenador da pré-campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN); o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto; e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).