Poder e Governo

Republicanos avalia reaproximação com Flávio e cogita indicar vice

Cúpula da sigla não descarta Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, para compor chapa, enquanto tenta se afastar do caso Digimais, alvo da PF

Agência O Globo - 24/06/2026
Republicanos avalia reaproximação com Flávio e cogita indicar vice
Flávio Bolsonaro - Foto: Reprodução / Instagram

A cúpula nacional do Republicanos avalia interromper o processo de afastamento que marcou, nos últimos meses, a relação com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. A possível mudança de rota ocorre enquanto dirigentes da legenda tentam se descolar das investigações envolvendo o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

O banco foi alvo de uma operação da Polícia Federal. A avaliação dentro da sigla é que o governo Lula não tem se movimentado para encontrar soluções para o rombo da instituição financeira. A Universal mantém forte ligação com o Republicanos. O presidente do partido, Marcos Pereira, é bispo da igreja e aliado próximo de Macedo. Apesar disso, Pereira tem dito a aliados que a legenda conquistou vida própria e que grande parte dos parlamentares não tem ligação com a Universal nem é evangélica.

Nesse contexto de insatisfação com o governo Lula, ganhou força, em conversas internas, a defesa do nome da economista Daniella Marques para a vice de Flávio. Ela presidiu a Caixa no governo Jair Bolsonaro, integrou a equipe do então ministro Paulo Guedes e hoje assessora a pré-campanha do senador na área econômica.

— Ela é forte, inteligente e está no Republicanos. Pode ser uma boa vice dele (Flávio) — disse a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

Daniella se filiou ao partido em abril, prazo máximo para ficar apta a concorrer nas eleições de outubro. Ainda não há definição sobre o caminho que o Republicanos tomará na campanha presidencial. Alas da legenda próximas a Lula defendem a neutralidade, com cada integrante se posicionando de acordo com seus próprios interesses.

A reaproximação do Republicanos com Flávio ocorre após uma resistência inicial do partido em compor com o senador. A cúpula nacional da legenda demonstrou insatisfação com a escolha dele, e não do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como candidato à Presidência apoiado pelo bolsonarismo.

O escândalo de fraude financeira envolvendo o Banco Master também contribuiu para afastar o senador da legenda. Foi revelado que Flávio mantinha uma relação de proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Master, o que provocou queda do senador nas pesquisas. Ele não recuperou o mesmo patamar de antes da crise, mas conseguiu se estabilizar nos levantamentos mais recentes.

Por outro lado, a crise teve efeitos mais profundos na federação União-PP, que também tem dirigentes partidários com relações próximas com Vorcaro. A federação vê hoje a neutralidade como o caminho mais provável, enquanto o Republicanos ainda avalia a possibilidade de apoio ao PL.

Há poucos meses, a cúpula do Republicanos vinha dando sinais de trégua com Lula e de afastamento em relação a Flávio. Como mostrou a newsletter Jogo Político, do GLOBO, a mudança de postura da Universal em relação ao PT ficou evidente na Semana Santa. Embora tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico à esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão, em estádios lotados pelo Brasil, isso não ocorreu. No mesmo período, Pereira também concedeu entrevistas marcando distância em relação a Flávio.

Reservadamente, porém, integrantes do partido reconhecem que o caso Digimais adicionou mais um ingrediente à disputa interna. Outro grupo sustenta que a operação da PF não tem relação com o caminho político que a sigla deve tomar e que a decisão sobre a disputa ao Palácio do Planalto será tomada independentemente dos rumos das investigações.

O banco chegou a negociar uma possível compra pelo BTG, em uma operação que previa aporte de R$ 7 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Embora privado, o FGC tem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal como membros, o que assegura influência do governo federal. Sem essa operação e diante da ação da PF, que resultou no bloqueio de R$ 670 milhões, mercado e agências de classificação de risco avaliam que a situação do Digimais se complicou.

Alvo de operação da Polícia Federal na última terça-feira, o Digimais é suspeito de fraudar o sistema financeiro do país por meio de uma série de operações. A investigação aponta que a instituição pertencente ao líder da Igreja Universal fraudava seu balanço e supervalorizava ativos para maquiar seu patrimônio e induzir investidores ao erro.

Em nota, o Digimais afirmou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com a Justiça. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, informou o banco.