Poder e Governo
PT evita pauta de costumes em busca do voto evangélico e vê caso Master como fator de crescimento de Lula
Temas como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo ficaram fora de encontro recente da sigla voltado ao público religioso
O Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu deixar de lado as pautas de costumes — como aborto e casamento entre pessoas do mesmo sexo — no congresso da legenda específica ao segmento evangélico. A sigla busca ampliar o apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre candidatos religiosos, grupo que esteve majoritariamente alinhado ao bolsonarismo nas duas últimas disputas ao Planalto.
O coordenador nacional do inter-religioso setorial do PT, Gutierres Barbosa, afirma que esses temas estão em discussão no Congresso Nacional. Segundo ele, o entendimento da legenda é que o governo Lula deve, neste momento, concentrar esforços em “governar o país”.
— Existem temas centrais para nós, e vamos dialogar com os segmentos religiosos quanto a eles. As pessoas religiosas serão tratadas com respeito pelo PT. Não somos apartados das demandas religiosas. Não é só estratégia, é uma questão de pertencimento — disse Barbosa, que também ressaltou a posição da sigla em defesa da ciência.
A rodada mais recente da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na semana passada, mostra que o senador e pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL) perdeu apoio entre evangélicos. Em um eventual segundo turno contra Lula, ele passou de 61% das intenções de voto em maio para 52% em junho. O petista, por sua vez, avançou de 24% para 31% no segmento.
Barbosa relaciona a alta de Lula entre evangélicos ao desgaste do bolsonarismo, especialmente após a divulgação de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Mestre, nas quais o senador pede dinheiro para o financiamento do filme “Dark Horse”.
— Como pode o partido que defende a moral estar envolvido até o pescoço nesse escândalo de corrupção? Também temos os congressos, para dialogarmos da forma mais humana possível. As pessoas estão percebendo que o PT está enraizado nas roupas. As pessoas estão conhecendo a verdade — afirmou Gutierres Barbosa.
Carta ao segmento
No início do mês, o PT divulgou uma carta ao segmento evangélico. O texto, que não aborda pautas polêmicas como o aborto, foi redigido após o IV Encontro Nacional do Núcleo Evangélico da sigla.
Como parte da estratégia de aproximação com o público evangélico, a carta afirma que Lula sancionou leis que "garantem o direito de livre culto e a criação de lojas". O documento também cita decretos que regulamentam a música gospel como cultura e patrimônio nacional, além da criação do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e do Dia Nacional da Marcha para Jesus.
“Os governos do PT nunca se o fizeram às igrejas, sempre tiveram uma postura de respeito e de reconhecimento da importância e do papel da Igreja Evangélica”, diz o texto. Na carta, a sigla também afirma estimular "a presença ativa das evangélicas e dos evangélicos nos debates públicos, na formulação de propostas e na construção dos caminhos que definem o futuro do país".
Em outro trecho, o documento diz que o compromisso com "um Brasil mais justo, solidário e inclusivo" não faz parte "do uso eleitoral da fé" e que "não se deve tirar benefícios políticos de uma coisa sagrada".
O núcleo evangélico do PT também defende, na carta, a “ampliação e aprofundamento” de políticas públicas como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, além de outros programas sociais. O texto afirma que a "defesa da democracia, da justiça social, da reforma agrária, do enfrentamento à fome, da valorização do trabalho e da proteção das mais vulneráveis fazem parte da mensagem de Jesus". O documento também inclui a defesa do fim da escala 6x1.
A carta aborda ainda a segurança pública e a defesa de políticas capazes de enfrentar o crime organizado e proteger as famílias. O combate à violência contra a mulher recebe destaque como tema a ser incorporado ao plano de governo do candidato petista. O texto defende a “ampliação das políticas públicas externas à saúde integral da mulher, ao enfrentamento à violência e ao cuidado e acolhimento em relação à sua saúde física e mental”.
O documento também menciona a defesa da soberania nacional, tema que tem sido uma das apostas do governo Lula para se contrapor ao senador Flávio Bolsonaro e ao governo do presidente americano Donald Trump. “A soberania fortalece a capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino, proteger seus recursos estratégicos e construir um projeto de desenvolvimento comprometido com a justiça social e o bem comum”, afirma a carta.
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