Poder e Governo

Pressão por saída de Jaques Wagner cresce na bancada do PT

Parlamentares avaliam que explicações do senador sobre elo com o Master não contiveram desgaste no governo

Agência O Globo - 24/06/2026
Pressão por saída de Jaques Wagner cresce na bancada do PT
Jaques Wagner - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O apoio à permanência do senador Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo no Senado perdeu força entre membros do PT e de partidos da base aliada, em meio ao desgaste potencial que o caso Master pode causar à campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma reunião entre Lula e Wagner, prevista para esta quinta-feira, pode definir o futuro do parlamentar no posto.

Parlamentares do PT e de partidos de base afirmam, reservadamente, que as explicações pelo aliado histórico do presidente desde a operação não foram suficientes para dissipar dúvidas sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-sócio dele, Augusto Lima.

A avaliação também circula no Palácio do Planalto. Integrantes do governo já defendem internamente que Wagner deixe a liderança para evitar que o caso continue associado ao Executivo e à campanha de reeleição de Lula.

Nas redes

O mal-estar em torno da permanência de Wagner no cargo começou a se manifestar ainda no dia da operação. Um dos poucos parlamentares do PT defendeu publicamente o afastamento do deputado Rogério Correia (PT-MG). Nas redes sociais, ele afirmou que, “na condição de investigação”, o líder do governo deveria deixar a função para se dedicar à própria defesa, preservada a presunção de inocência.

Na mesma manifestação, Correia demonstrou desvincular o governo do escândalo e reforçou a narrativa elaborada por parte do PT de que o caso teria origem em relações construídas durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Nos dias seguintes, outros parlamentares evitaram defender publicamente a permanência de Wagner na liderança. Embora a maior parte da bancada continue afirmando confiar na inocência do Senado, cresce, nos bastidores, a avaliação de que sua saída pode ser necessária para evitar que o caso continue contaminando o governo e a campanha de Lula.

Segundo parlamentares ouvidos pelo GLOBO na Câmara e no Senado, a principal dificuldade tem sido sustentar politicamente as explicações de Wagner desde a operação. Integrantes da base afirmaram que o senador não conseguiu convencer parte dos aliados ao especificar suas ligações com a rede de Vorcaro.

Também causou desconforto entre governantes a entrevista concedida por Wagner à BandNews após a operação. Integrantes do PT avaliaram que o senador acabou expondo Lula desnecessariamente ao mencionar conversas com o presidente e ao afirmar que o petista já aconteceu situações mais graves no passado.

O movimento também é percebido entre aliados próximos do senador. Um dos principais interlocutores de Wagner no Senado é o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Otto Alencar (PSD-BA). Segundo relatos de interlocutores, Otto disse que o líder do governo não o procurou para discutir o caso.

Reservadamente, o senador baiano também tem argumentado com pessoas próximas que não pretendem se envolver na discussão por se tratar de um assunto interno do PT, legenda a quem não pertence.

A pressão ocorre poucos dias depois de manifestações públicas de apoio ao senador feitas por dirigentes petistas. Na semana passada, o presidente nacional do PT e coordenador da campanha à reeleição de Lula, Edinho Silva, afirmou que Wagner era depositário da confiança da legenda e que comprovaria sua inocência.

Petistas dizem não ver contradição entre a defesa feita por Edinho e a pressão para que Wagner deixe a liderança. A avaliação é que ele se tornou um problema para o governo, mas não necessariamente para o partido. Mesmo com a insatisfação, a cúpula petista afirma confiar que Wagner provará sua inocência e que a legenda estruturará sua política de defesa, além de apoiá-lo na campanha à reeleição ao Senado.

Entre aliados do governo, há uma avaliação de que o escândalo do Mestre ainda tem maior potencial de defraudar Flávio Bolsonaro do que Lula. Ainda assim, os governantes consideram necessário estancar a crise com o afastamento de Wagner da liderança.

Aliados citam que o próprio Flávio já teve relações com Daniel Vorcaro, dono do Mestre, exposto publicamente. No caso da campanha petista, afirma, o que apareceu até agora foi uma relação envolvida com um senador do partido, e não o candidato à Presidência.

O entendimento entre governantes é que, cada vez que Jaques Wagner fizer um encaminhamento ou proferir qualquer discurso no Senado na condição de líder do governo, o caso Mestre será novamente aproximado de Lula.