Poder e Governo
De Credcesta a apartamento: a relação de Jaques Wagner com o Banco Master ao longo dos anos
Segundo a PF, conexão do senador petista com a instituição financeira passava pelo empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio do banco
Em mais um desdobramento do caso Banco Master, a Polícia Federal (PF) mirou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alvo de buscas por suspeita de ter atuado no Congresso em favor da instituição financeira, segundo investigadores. Depois de atingir políticos do Centrão, a apuração chegou pela primeira vez ao entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto o PT ainda tenta explorar a relação do banqueiro Daniel Vorcaro com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
De acordo com a PF, Wagner teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador, além de benefícios como o uso de aeronaves particulares e ingresso para camarote de um show em Los Angeles, ao custo de R$ 63,3 mil.
O ponto de conexão entre Wagner e o Banco Master, segundo a investigação, seria o empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio da instituição, também alvo da PF. Lima mantém relação com petistas na Bahia. Além das supostas benesses, uma empresa ligada ao núcleo familiar do senador recebeu transferência de R$ 3 milhões de uma financeira vinculada ao empresário.
Ex-governador da Bahia por dois mandatos, Wagner é um dos nomes históricos do PT e figura de confiança de Lula. Segundo o senador, o presidente telefonou para prestar “solidariedade” após as primeiras notícias sobre o caso se tornarem públicas.
‘O preço é 2,45 milhões’
Investigadores identificaram uma mensagem em que Wagner envia a Augusto Lima informações sobre um apartamento que teria interesse em adquirir em Salvador. “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 milhões”, escreveu o senador. A mensagem é de novembro de 2024.
Em entrevista à BandNews, Wagner negou ter recebido dinheiro ou atuado pelo Banco Master no Legislativo. Ele, no entanto, admitiu as tratativas sobre o imóvel.
“É um apartamento que está em construção. Eu tinha interesse em dar um apartamento, ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Guga, o Augusto Lima, é um investidor, disse a ele: ‘Pode comprar? Depois eu vou recomprar’”, afirmou.
Segundo relatório da PF citado na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Wagner foi autor, em março de 2022, de uma emenda a uma Medida Provisória que poderia beneficiar o Banco Master caso fosse aprovada.
A proposta buscava estabelecer um teto para a cobrança de juros em empréstimos consignados. O texto sugeria proibir juros superiores a “300% da taxa média de juros dos Certificados de Depósito Interbancário (CDI)”. Na prática, porém, o limite poderia elevar os juros de cerca de 14% ao ano para 21% ao ano.
A emenda de Wagner foi apresentada no mesmo ano em que uma empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador, começou a receber recursos do Banco Master.
O pedido do senador petista não entrou na versão final da Medida Provisória aprovada pelo Congresso em julho de 2022. O relator da proposta era o senador Davi Alcolumbre (União-AP), atual presidente do Senado.
Apesar de a emenda não ter prosperado, a PF destacou o interesse de Wagner no tema e afirmou que ele pediu apoio de parlamentares para a aprovação do trecho.
Conforme mostrou a coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, a PF também apontou outros indícios de atuação em favor do Master. Entre eles, a suspeita de que o senador teria feito lobby no governo pela aprovação da compra do banco pelo Banco de Brasília (BRB) e, no Senado, pela aprovação de outra proposta, conhecida como “emenda Master”.
A emenda, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), propunha elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O texto, apresentado em agosto de 2024 e não aprovado, estava vinculado a uma PEC que alterava regras do Banco Central.
A proposta interessava diretamente ao Banco Master porque parte relevante de seus negócios era lastreada em CDBs com rendimentos acima das taxas médias de mercado.
Em março de 2025, durante a tentativa de venda do Master ao BRB, Augusto Lima enviou a Wagner a mensagem: “Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso”. Para a PF, a frase indica que o senador era “interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado”.
Dinheiro apreendido
Durante a operação, a PF apreendeu US$ 49 mil — cerca de R$ 253 mil na cotação atual — em espécie em um quarto do hotel Brasília Palace, onde Jaques Wagner costuma ficar quando está em Brasília. Também foram apreendidos 33,5 mil euros e US$ 6,175 mil em seu endereço em Salvador.
Em nota, o parlamentar afirmou que o dinheiro encontrado tem origem legal e corresponde a valores recebidos como “diárias” para viagens oficiais, mas que acabaram não sendo utilizados.
A relação entre Wagner e Augusto Lima começou em 2017, quando o petista era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Na época, o governo estadual tentava privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), responsável por uma rede de supermercados.
Augusto Lima arrematou a Ebal em leilão por R$ 15 milhões, após o governo baiano prever no edital a operação de um cartão de crédito consignado, o Credcesta, destinado a mais de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia.
Em declarações anteriores, Wagner já admitiu ter se reunido com Lima naquele período para tentar destravar o negócio. À época, ele era secretário do então governador Rui Costa (PT), que posteriormente se tornou ministro da Casa Civil no governo Lula.
Após o leilão, a gestão petista concedeu exclusividade de mercado ao Credcesta por 15 anos, o que tornou o ativo ainda mais lucrativo. Lima procurou o Banco Master para administrar o cartão, tornou-se sócio da instituição e expandiu a operação de consignados para outros estados.
A defesa de Augusto Lima, que já foi preso em fases anteriores da investigação, nega irregularidades e afirma que o empresário sempre atuou dentro da lei.
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