Poder e Governo
Oposição no Senado critica súmula do STF sobre pautas-bomba, mas admite falha do Congresso
Parlamentares reconhecem que a aprovação de projetos sem compensação fiscal abriu espaço para atuação do Judiciário
Senadores da oposição criticaram a proposta do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de editar uma súmula vinculante para que tribunais de todo o país declarem inconstitucionais leis que criem ou alterem despesas obrigatórias, ou resultem em renúncia de receita, sem a indicação da respectiva medida compensatória. Para esses parlamentares, a iniciativa representa interferência do Judiciário nas prerrogativas do Legislativo.
Apesar das críticas, integrantes do Congresso admitem que o próprio Legislativo contribuiu para esse cenário ao aprovar projetos com impacto fiscal sem apontar fontes de custeio, como determina a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
A proposta de Gilmar foi apresentada ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, em meio à preocupação do governo com o avanço recente, no Congresso, de projetos de alto impacto fiscal, como a ampliação de benefícios a igrejas, a aposentadoria favorecida para agentes comunitários de saúde e a renegociação de dívidas rurais.
O decano defende que a Corte consolide, em súmula vinculante, o entendimento já adotado em diferentes julgamentos: leis que criem despesas obrigatórias ou impliquem renúncia de receitas devem ser acompanhadas de estimativa de impacto financeiro e de medidas de compensação. Para Gilmar, essa jurisprudência é “uníssona”.
A forma como a iniciativa foi apresentada também provocou desconforto entre parlamentares. Senadores ouvidos pelo GLOBO afirmam que Gilmar não procurou lideranças do Congresso nem discutiu previamente a proposta com integrantes do Legislativo. Para oposicionistas, por tratar diretamente da atividade parlamentar, a medida deveria ter sido precedida de diálogo entre os Poderes.
O senador Izalci Lucas (PL-DF) afirmou que os parlamentares precisam reagir à iniciativa, mas ponderou que o Congresso também tem responsabilidade sobre o tema.
— O Senado precisa reagir a isso, mas o Congresso não pode aprovar leis que têm impacto sem fonte de recursos — disse.
Na mesma linha, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) avaliou que a movimentação do Supremo decorre da atuação do próprio Legislativo.
— Se o Legislativo não regula e faz a farra que faz, o Judiciário ocupa o espaço. O erro é do Legislativo — afirmou.
Nos bastidores, parlamentares da oposição admitem incômodo com a proposta de Gilmar, mas avaliam que não há, neste momento, condições políticas para uma reação institucional mais contundente ao Supremo. Um senador ouvido reservadamente afirmou que uma resposta deve ocorrer agora, mas acrescentou que “2027 é a esperança”, em referência à renovação de dois terços das cadeiras do Senado nas eleições deste ano.
A expectativa entre oposicionistas é que uma eventual maioria conservadora na Casa, a partir da próxima legislatura, amplie a capacidade de enfrentamento ao STF e viabilize iniciativas que hoje não contam com apoio suficiente, como pedidos de impeachment de ministros da Corte.
A proposta de Gilmar foi divulgada após reunião com Fachin e com o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, na qual foi discutido o avanço das chamadas “pautas-bomba” no Congresso. Entre os projetos que preocupam a equipe econômica estão propostas que ampliam despesas obrigatórias ou reduzem receitas da União sem a indicação de medidas compensatórias.
Na prática, a súmula estabelece condições mínimas para a aprovação de projetos com impacto fiscal e também pode orientar pareceres jurídicos dentro das casas legislativas. A proposta de Gilmar cita onze casos, de 2019 até este ano, em que o Supremo reconheceu que iniciativas legislativas com custos ao poder público devem ser acompanhadas de estimativa de impacto orçamentário e financeiro.
Fachin já deu andamento à proposta e determinou que a sugestão seja publicada para que interessados possam se manifestar, em até cinco dias, sobre o tema. Após esse prazo, o texto será encaminhado à Procuradoria-Geral da República para parecer.
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