Poder e Governo

Aliados de Flávio veem ação contra Jaques Wagner como reação ao caso Dark Horse

Investigação ligada ao Banco Master amplia disputa de narrativas, enquanto governistas temem reflexos sobre Lula

Agência O Globo - 18/06/2026
Aliados de Flávio veem ação contra Jaques Wagner como reação ao caso Dark Horse
Jaques Wagner

A operação da Polícia Federal (PF) que mirou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), causou desconforto entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e foi recebida com entusiasmo por membros do entorno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para aliados do pré-candidato à Presidência, a ação abre uma oportunidade de explorar politicamente o caso Banco Master, embora com cautela, diante das relações de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro reveladas no episódio do filme Dark Horse .

Reservadamente, os governantes admitem que a operação cria um problema político para o Planalto ao atingir um dos quadros mais importantes do governo no Congresso, justamente em uma investigação que vem sendo usada pelos aliados de Lula para prejudicar adversários. A avaliação é que a inclusão de Jaques Wagner não dificulta a tentativa de associar o escândalo exclusivamente a nomes da oposição.

Aliados do governo sustentam que há diferenças entre o grau de envolvimento atribuído aos investigados. Ainda assim, reconhecem que a ação contra Wagner reforça a percepção de que o caso atingiu diferentes grupos políticos.

Na avaliação de um interlocutor governamental, a investigação alimenta uma disputa de narrativas sobre quem estaria mais comprometido pelas apurações, mas tende a colocar todos os personagens envolvidos no “mesmo saco” perante a opinião pública.

A preocupação é considerada maior porque, nas últimas semanas, os governantes vinham explorando politicamente o caso Mestre para atacar Flávio Bolsonaro, apontado como principal rival dos petistas nas eleições de outubro. O senador passou a ser alvo frequente de críticas após as revelações sobre sua atuação na busca de recursos junto a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse , produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Nos bastidores, membros do PT confirmaram que o episódio teve impacto político sobre Flávio e ajudou a desgastar sua pré-campanha. Pesquisas divulgadas após a revelação do caso indicaram queda do senador nas intenções de voto, o que alimentou a percepção de que o tema havia se tornado um dos principais pontos vulneráveis ​​de sua candidatura.

Os interlocutores de Flávio afirmaram que o assunto continua delicado para o senador, que ainda enfrenta desgaste pela ligação de seu nome ao de Vorcaro. Mesmo assim, avaliamos que agora ficou “mais fácil” tratar o caso publicamente, depois que a investigação passou a alcançar também um dos nomes mais próximos de Lula.

Na visão desses aliados, a inclusão de Jaques Wagner na investigação enfraqueceu o discurso de que o caso Master estaria restrito ao entorno bolsonarista. Eles lembram que o senador baiano é aliado histórico de Lula, participou de seus governos, comandou ministérios e atualmente ocupa a liderança do governo no Senado, sendo considerado um dos principais homens de confiança do presidente.

O próprio Flávio descobriu explorar politicamente a operação poucas horas após a ação da PF. Em publicação nas redes sociais, o senador associado ao caso ao governo Lula e voltou a defender a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o Banco Master.

"Escândalo envolvido o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder. CPMI do Banco Master já!", escreveu o parlamentar no X.

A defesa da comissão tem sido usada por parlamentares da oposição como forma de manter o caso em evidência no debate político. A instalação, no entanto, depende da decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já sinalizou em diferentes benefícios que não pretende dar andamento ao pedido.

Publicamente, aliados do senador petista passaram a minimizar o caso e a defendê-lo. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que o partido mantém confiança em Wagner.

"O senador Jaques Wagner é depositário de toda a nossa confiança. Apoiamos todas as apurações envolvidas no Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade. Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis ​​penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança de que o Jaques Wagner esclarecerá os fatos, comprovando a sua inocência", disse Edinho, em nota.

No Congresso, deputados governamentais também rejeitaram a comparação entre o suposto envolvimento de Jaques Wagner e o que já foi revelado no caso Dark Horse .

— Confiamos no Jaques e não se pode compará-lo com Flávio Bolsonaro. Não tenho dúvidas de que Jaques dará as devidas explicações. E Flávio tem que continuar se explicando, afinal de contas, pediu dinheiro ao dono do Mestre —disse o deputado Alencar Santana (PT-SP).

Nesta mesma manhã, estava prevista a realização de uma sessão conjunta do Congresso para analisar vetos do presidente Lula, mas a reunião foi cancelada por Alcolumbre após a operação que mirou o senador do PT.

Ao anunciar o cancelamento, o presidente do Senado comentou as ações da PF e criticou o que chamou de “execração pública”.

Segundo o chefe do Legislativo, ninguém pode ser condenado antes do fim da tramitação do processo.

— Muitas autoridades já foram vítimas dessa execração pública e, com o passar do tempo, a maioria delas demonstraram, no decorrer das investigações, a sua inocência. Temos um problema gravíssimo no Brasil. Está todo o mundo preocupado até que se prove o contrário. Isso é muito triste, todo mundo é culpado antes de ser julgado — afirmou.

Operação contra Jaques

A ação da PF que teve Jaques Wagner como alvo ocorreu no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, na nona fase da operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O senador é líder do governo no Senado e ocupa posição estratégica na coordenação política do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.

Durante as ações de busca e apreensão, foi encontrado um montante de US$ 49 mil em espécie, equivalente a cerca de R$ 253 mil na cotação atual, em um endereço ligado ao senador em Brasília.

Segundo a decisão de Mendonça, Wagner teria sido o “beneficiário central” de “vantagens econômicas” pagas por membros do Banco Master em troca de sua atuação no Congresso Nacional em favor da instituição financeira. Entre os benefícios indicados pela PF estão relacionados a um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, uso de aeronaves particulares e ingressos para um show em Los Angeles, que custaram R$ 63,3 mil.