Poder e Governo
Alvo da PF, Jaques Wagner diz que esteve duas vezes com Vorcaro: “Se ele delatar, acho ótimo”
Investigação apura suposto esquema envolvendo o Banco Master e pessoas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro
Antes de ser alvo de uma operação da Polícia Federal nesta quinta-feira, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) , afirmou que esteve duas vezes com Daniel Vorcaro , dono do Banco Master, e disse considerar “ótimo” caso o banqueiro decidisse fechar acordo de delação premiada. A tentativa de colaboração, no entanto, foi rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República.
Wagner vinha classificando o escândalo do Banco Master como uma “trambicagem”, negando qualquer envolvimento com as irregularidades investigadas e criticando reportagens que relacionavam seu nome ao caso. Em entrevistas e discursos no Senado, o petista afirmou estar “tranquilo e calmo”, disse que não havia investigações sobre sua conduta e atribuiu o esquema a falhas de fiscalização do Banco Central.
A Polícia Federal cumpriu, nesta quinta-feira, o mandado de busca e apreensão em endereço relacionado ao senador no âmbito da nona fase da Operação Compliance Zero . A investigação apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o Banco Master e pessoas ligadas a Vorcaro.
Em janeiro, durante entrevista à rádio Giro Baiana, Wagner afirmou não temer uma eventual delação premiada do banqueiro e falou o caso como uma “trambicagem” bilionária.
— Se ele atrasar, eu acho ótimo. Tô aqui, ó, tranquilo e calmo (...) A “trambicagem” hoje do Banco Master, que bate em R$ 50 bilhões, R$ 60 bilhões, R$ 70 bilhões, é um bando de falcatrua feito lá com o BRB. Tem muita gente debaixo da cama — declarou.
Na mesma entrevista, o senador disse estar “fora dessa confusão” e destacou que o governo da Bahia não possuía recursos aplicados no Banco Master.
— Em relação a nós aqui, eu estou fora dessa confusão. Pergunta se tem algum dinheiro do governo da Bahia aplicado no Banco Master, como tem do Rio de Janeiro e do Amapá. Não tem uma banda de conto nossa — afirmou.
Na ocasião, Wagner também conheceu a próxima relação com o empresário Augusto Ferreira Lima , conhecido como Guga Lima — um dos alvos da operação desta quinta-feira e ex-sócio de Vorcaro —, mas negou ter realizado negócios com ele. Segundo o senador, a relação surgiu durante as negociações envolvendo os programas Cesta do Povo e Cartão Cesta, na Bahia.
O petista também confirmou ter sugerido o nome do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski quando foi consultado sobre possíveis membros para o conselho de administração do Banco Master. Wagner, porém, afirmou que não se tratou de uma indicação formal.
— Eles vieram me perguntar para eu citar, como eu estou no mundo político, e eu disse: “Esse é um bom nome, como tem outros” — afirmou.
Em maio, ao responder críticas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no plenário do Senado, Wagner enviou a rejeitar qualquer ligação entre o PT baiano e as irregularidades investigadas no banco. Segundo ele, o problema teve origem na falta de fiscalização do sistema financeiro.
— Eu não vim aqui por conta disso. Eu vim aqui por conta da fake news que o senador Flávio Bolsonaro fez na semana passada, para esclarecer que na Bahia não nasceu nenhum trambique. O trambique nasceu quando o Banco Central, que deveria fiscalizar o que estava acontecendo, não fiscalizou e permitiu que este senhor, Daniel Vorcaro, pudesse fazer o rombo que fez de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões contra o FGC — disse.
No mesmo discurso, o senador buscou evitou suspeitas sobre membros do grupo político baiano e ressaltou que não possui empresas nem participação em negócios privados.
— Eu não tenho sequer CNPJ. Rui Costa também não tem e Jerônimo Rodrigues também não tem CNPJ — declarou.
Na terça-feira, dias antes da operação da Polícia Federal, Wagner voltou ao tema durante discurso no Senado ao prestar solidariedade ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP) , citado em reportagens sobre uma suposta delação de Vorcaro. O senador afirmou não ter qualquer relação com o banqueiro e voltou a desafiar críticas a apontar em investigações relacionadas ao seu nome.
— Eu já desafiei vários a me mostrar qual foi a investigação da Federal que encontrou algo sobre Vossa Excelência, na medida em que foi relatado agora, ou sobre o meu comportamento e o comportamento do ex-governador Rui Costa — afirmou.
Em seguida, reforçou que conheceu Vorcaro apenas duas vezes.
— Eu estou muito à vontade porque não tenho nenhuma relação com ele. Conheci esse senhor duas vezes, uma vez em Salvador e uma vez em São Paulo. Não tenho nenhuma relação com ele, não tenho nenhum negócio. Aliás, eu não tenho nem CNPJ, eu só tenho CPF — disse.
No mesmo pronunciamento, Wagner anunciou que processaria a revista Veja por reportagens que associavam integrantes do PT da Bahia ao caso Master. Também criticou o vazamento de informações atribuídas a uma suposta delação de Vorcaro e classificou o episódio como uma “guerra de narrativas”.
— Nós estamos entre o absurdo e o superabsurdo. O absurdo é de uma delação que ninguém sabe o que tem dentro dela, a não ser aqueles que questionaram o senhor Daniel Vorcaro e que, levianamente e ilegalmente, vazaram a matéria, como vazaram no tempo da Lava Jato — declarou.
O nome de Wagner passou a aparecer no contexto das investigações após a revelação de que a BK Financeira, empresa pertencente à sua nora, recebeu pelo menos R$ 11 milhões do Banco Master. À época, o senador afirmou que jamais participou de qualquer negociação ou intermediação em favor da empresa.
Até a deflagração da operação desta quinta-feira, o líder do governo sustentou publicamente que não havia qualquer investigação apontando irregularidades em sua conduta.
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